Se a Rhapsody in Blue abriu a porta do
salão e Um Americano em Paris passeou com elegância pela cidade-luz,
então o Concerto para piano, em fá maior (1925) de George Gershwin é, sem
dúvida, o momento em que o compositor se senta à mesa principal, não como
convidado exótico, mas como anfitrião seguro de si, de colete desapertado e
sorriso cúmplice, pronto a servir jazz na sua best china (vulgo porcelana fina, mas que neste caso quer dizer um Steinway & Sons, de cauda larga).
Escrito apenas um ano
após o estrondoso sucesso da Rhapsody in Blue, este concerto não nasceria de uma súbita iluminação divina nem de um novo susto jornalístico, mas antes de
uma expectativa perfeitamente palpável, encomendada pelo maestro Walter Damrosch: depois de demonstrar ao mundo que sabia
misturar o jazz com o verniz da sala de concertos, Gershwin teria agora de
provar que o conseguia fazer… sozinho. Sem a “rede de segurança” de Ferde
Grofé, desta vez a orquestração seria inteiramente sua, servindo de primeiro verdadeiro
teste à sua maturidade como compositor “sério”. E, como quem já conhece o
truque - mas ainda finge surpreender-se com ele (a querida IA propõe uma "pequena pausa, mais swing", e eu concordo), George aceitaria o desafio com a
leveza de quem improvisa uma anedota num jantar formal… e termina com uma
gargalhada geral: “Pronto, pronto... agora é que eu vou mesmo fazer um concerto à séria… só que à minha maneira.” (talvez querendo respeitar a tradição… mas só o suficiente para não ser expulso da mesa dos adultos, a tal da “porcelana fina”).
A estreia teria lugar na matinée da tarde de 3
de Dezembro de 1925, no Carnegie Hall, com a Orquestra Sinfónica de Nova
Iorque dirigida por Walter Damrosch e com o próprio Gershwin ao piano (posição
que, convenhamos, lhe assentava melhor do que qualquer descrição crítica
poderia sugerir). Damrosch, esse mesmo advogado da respeitabilidade musical
norte-americana, terá afirmado que Gershwin “não era apenas um compositor
popular, mas um compositor sério que falava a linguagem do seu tempo”.
Traduzindo do diplomático para o gemba (permitam-me a expressão de um profissional das ciências exactas): o rapaz do Brooklyn tinha passado no
exame.
Ao contrário da Rhapsody in Blue (aquela entrada triunfal... ou melhor, aquele tropeção no tapete transformado num número de magia circense, como só os tocados pelo divino conseguem), este concerto seguiria a tradicional estrutura em três andamentos, como que a
dizer: “Sim, eu também sei jogar pelas regras. Mas deixem-me temperá-las à maneira do East New York.” E
temperou (vulgo, sincopou) mesmo.
O primeiro andamento,
Allegro [
I], chega-nos com um golpe seco de tímpanos (nada de introduções
tímidas, Gershwin, irreverente, entra como quem bate à porta… já dentro de casa). O piano responde
com energia quase percussiva, cruzando ritmos sincopados com passagens de um
lirismo inesperado, como se dois mundos disputassem educadamente o mesmo
espaço. Há aqui ecos evidentes do jazz urbano, mas também uma construção formal
sólida, ora musculada, ora emotiva (aquela melodia aos 6:26...), que demonstra disciplina por detrás da espontaneidade. É o
Gershwin compositor a mostrar que o Gershwin entertainer não está sozinho.
No segundo andamento,
Adagio – Andante con moto [
II], a atmosfera muda como uma rua que passa do
bulício ao murmúrio. Um solo de trompete com surdina, quase uma canção
nocturna (Bebés...), instala um clima íntimo (...ou bebés.), vagamente melancólico, que nos faz recordar
aqueles bares onde o fumo desenha espirais lentas e o tempo parece suspenso. A luz baixa, o piano entra com delicadeza, conversando mais do que impondo, e o resultado é
uma das páginas mais líricas de Gershwin. Aqui, a tal “joie de vivre” do Allegro (que lembra aquela vivida ao som das buzinas e meio perdido em Paris... mas mantendo sempre o charme) dá lugar
a algo mais introspectivo: talvez saudade, talvez contemplação… talvez apenas a
consciência de que até o optimismo precisa de respirar. Começamos a pensar na vida sem sabermos bem porquê, mas sem nunca perdermos completamente o sorriso também, e se isso não é de génio, então eu não sei o que será.
Contudo, Gershwin nunca fica sossegado por muito tempo, e o terceiro andamento,
Allegro agitato [
III], regressa ao terreno da exuberância com uma vitalidade quase contagiante. É
dança, é corrida, é celebração, é tudo ao mesmo tempo. Os temas reaparecem,
cruzam-se, aceleram, como se Nova Iorque inteira tivesse decidido caber numa
orquestra. O piano, longe de ser mero solista, torna-se motor rítmico e
protagonista teatral, conduzindo a obra a um final vibrante que não pede
desculpa por ser espectacular.
Curiosamente, este
concerto marca também um momento de afirmação cultural: ao contrário de muitos
compositores europeus que absorviam influências populares para as refinar,
Gershwin fazia o caminho inverso: levava o popular diretamente para o palco,
sem pedir licença, mas com a elegância suficiente para que ninguém se atrevesse a
expulsá-lo.
Recepção? Entusiástica,
claro, mas não unânime, até porque nenhuma estreia verdadeiramente relevante o é. Houve, naturalmente, os suspeitos do costume: os que acharam demasiado jazzística para ser clássica, os que acharam demasiado clássica para ser jazz, e os que provavelmente não gostavam de nada antes das 14h (um problema delicioso, diga-se). Mas o público…
esse percebeu. E, tal como acontecera um ano antes, saiu da sala com a sensação
de ter assistido a algo novo, ainda a ganhar nome.
Hoje, o Concerto em Fá
permanece como uma das grandes obras do repertório pianístico americano, não
apenas pela sua energia ou pela sua beleza melódica, mas porque captura, talvez
melhor do que qualquer outra peça de Gershwin, esse ponto de equilíbrio raro
entre espontaneidade e construção, entre rua e palco, entre sorriso e
estrutura.
E se voltarmos àquela matinée de 1925, com críticos, maestros e curiosos reunidos numa
sala cheia de expectativas… não será difícil adivinhar onde pousa o olhar. Não
é apenas no piano. É naquele jovem que parece divertir-se tanto quanto nos diverte.
O olhar aponta,
inevitavelmente, para o sorriso.
O de George Gershwin.
Nuno Oliveira
"Concerto p/ piano, em fá maior"
✨ Extractos que proponho para audição: (ver também publicação nº 67)
- Wayne Marshall
- Aalborg Symphony Orchestra
- Wayne Marshall
- Virgin, 5 61478 2
✿"o belo": obra completa com destaque para os dois primeiros andamentos (Sonoridade
atmosférica e fresca, pianismo de uma sensibilidade que emociona. Por vezes, não
me importava que a orquestra mostrasse mais corpo, mas o protagonista britânico
só pode ter nascido na terra do swing. Difícil encontrar melhor que isto.)
[1]: trompa e clarinete, aos 3:12-3:20 (Puxadas de trompa e glissandos de clarinete
numa demonstração do swing sinfónico); cordas e tutti, aos 6:26-7:59 (Toda a banda
sonora de um sonho fará parte d'"o belo".); piano e tutti, aos 8:47-9:33 (O estupendo
[2]: solistas, com destaque p/ "o belo" trompete, aos 0:00-3:36 (O ponto alto da obra...
mesmo sem piano à vista. Música simples e potenciadora de interpretações
controversas: para bebés ou para fazer bebés? Poucas vezes um rosto singelo terá
sido tão "o belo".); piano, aos 7:30-9:19 (Poucas notas, mas todas elas mágicas.
"o belo" também se sente por cá.); piano e tutti, aos 11:07-11:45 (Por mim, a obra
podia acabar já por aqui.); flauta, aos 12:45-13:28 (O swing não está no seu ADN, mas
[3]: piano e tutti (Mais virtuosismo do que sentimento. Há acrobacias e entusiasmo do
bom. Quem gosta de explosões de ritmo e de alegria vai adorar.) [youtube]
- Earl Wild
- Boston Pops Orchestra
- Arthur Fiedler
- RCA, 6519-2-RG
✿"o belo":
(O som é de 1961, mas parece vir de outra dimensão. Earl é "Wild". A rapaziada dos sixties tinham mesmo swing. Icónico e imperdível.)
- Howard Shelley
- Philharmonia Orchestra
- Yan Pascal Tortelier
- Chandos, CHAN 9092
✿"o belo":
(Sonoridade luxuriante e dinâmicas marcadas. A percussão está cá e o swing também, com vários apontamentos deliciosos. O piano de Shelley chega a viciar...
e os músicos de Tortelier não lhe ficam atrás. Um must a não perder.)
- André Previn
- London Symphony Orchestra
- André Previn
- EMI, 0724356689121
✿"o belo":
(Som acutilante e pianismo irrepreensível, com um trompete limpo, mas um pouco mais tímido. Um clássico directamente do Soho londrino que devemos
encontrar numa boa colecção.)
- André Previn
- Pittsburgh Symphony Orchestra
- André Previn
- Philips, 412 611-2 PH
✿"o belo":
(Sonoridade cheia e luminosa pela mão do mestre Previn, uma década depois do famoso registo de Londres. Um registo para ter em conta também,
especialmente se for fã do mestre.)
- Peter Donohoe
- City of Birmingham Symphony Orchestra
- Simon Rattle
- EMI, CDC 7 54280 2
✿"o belo":
(O som é espacial, mas sente-se um pouco mais abafado e a performance orquestral perde alguma exuberância, principalmente nas cordas. O piano de
Donohoe é excelente e o trompete de Whitehead, nos limites do exagero, é do
melhor que podemos encontrar. Um registo a descobrir.)
- Peter Jablonski
- Royal Philharmonic Orchestra
- Vladimir Ashkenazy
- London, 430 542-2 LH
✿"o belo":
(Sonoridade cristalina, com algum do detalhe orquestral menos perceptível em algumas ocasiões, compensado pela lição bem estudada do jovem Jablonski.
Um registo de qualidade e também uma boa escolha.)
✰ Outras sugestões:
- Stefano Bollani/Riccardo Chailly/Gewandhausorchester/Decca, 476 3922 (Sonoridade sumptuosa e pianismo cremoso, mais directo do que faz sonhar. É menos swingado, mas vale pela gulodice sonora.), [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube]
- Werner Haas/Edo de Waart/Orchestre National de l'Ópera de Monte-Carlo/Philips, 420 492-2 PM (O piano está bem presente, mas o som orquestral é muito mais tímido. Seria um excelente registo se estivessem ao mesmo nível. Assim, é apenas uma boa opção.), [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube]
- Garrick Ohlsson/Michael Tilson Thomas/San Francisco Symphony/RCA, 09026 68931 2 (Sonoridade mais fechada do que o desejável, pianismo suave e intensidade orquestral a condizer. Falta alguma luz, algum brilho. Talvez os adeptos do lado escuro da força possam apreciar mais.), [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube]
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Sorriso e "best china"
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Sinais que reconhecem um passado...
[Inauguração do monumento da classe de 1993, Departamento de Eng. Mecânica da FCTUC, Polo II, Coimbra, 23-05-2026]
[Classe de 1993 da Licenciatura em Eng. Mecânica da FCTUC, Coimbra, Maio de 1997]
... e que marcam o presente.
[O André com os pais e um amigo, Cortejo da Queima das Fitas, Coimbra, 24-05-2026]
[O André com os avós maternos e o pai, Cortejo da Queima das Fitas, Coimbra, 24-05-2026]
[Os do costume no Tropical da Praça da República, Cortejo da Queima das Fitas, Coimbra, 24-05-2026]
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