domingo, 23 de agosto de 2020


37. R. Strauss: Uma vida de Herói |

"Uma vida de Herói", por Richard Strauss, ou a justa vitoriosa ao som de trompetes resplandecentes à luz de um amanhecer, que D. Juan testemunhou ao lado da sua amada (...e do Criador...).






Para dois dos meus (super) heróis.
Pelos seus exemplos de honestidade, respeito, humildade e amor, que fizeram de mim aquilo que sou.







Um dos mais belos exemplos do romantismo clássico dos finais do séc. XIX, seria aquele em que Richard Strauss (1864-1949) retrataria a história de um qualquer homem comum (bem-sucedido...), de alguém que procura a sua própria individualidade, ultrapassa os obstáculos do caminho, encontra o amor e atinge o seu próprio destino, ou, pelo menos, aquele que desejou para si próprio, em maior ou menor grau de grandiosidade.

E, assim, nasceria Uma vida de Herói, o poema sinfónico para grande orquestra (onde, entre outros, constariam oito trompas, cinco trompetes e uma quantidade generosa de elementos de percussão e cordas, esta última nunca inferior a sessenta e quatro elementos... uma realidade observável nos países que se importam com os pormenores, é claro), cuja partitura viria a ser escrita, de forma complementar, por altura da criação de outra das suas obras, o seu D. Quixote (...a história, por sinal, encarregar-se-ia, mais tarde, de inverter essa complementaridade), concluída a 1 de Dezembro de 1898, em Berlim, e estreada a 3 de Março de 1899, em Frankfurt, sob a direcção do compositor.
Esta obra ficaria ainda marcada por alguma controvérsia no que diz respeito ao elemento autobiográfico que é sugerido: seria o próprio Strauss o herói retratado?, quereria Strauss apresentar-se como o símbolo musical da militarizada Berlim do Kaiser Guilherme? Segundo as próprias palavras do autor, certamente não: "Apenas uma parte é verdade (...) eu não sou nenhum herói e não fui feito para a batalha". Na realidade, a vida daquele herói (a parte verdadeira) teria sido inspirada na própria vida do casal Richard e Pauline, na vida dum compositor (o herói) que adora a sua caprichosa e cativante esposa (o seu companheiro; ou companheira, como Strauss viria a escrever: "É a minha esposa que quero retratar... ela é muito complexa, muito mulher, nunca é duas vezes igual"), na defesa (os seus feitos em batalha) das suas obras (os seus trabalhos de paz) face às tomadas de posição de alguns críticos musicais (os seus adversários), até aos retiros na sua vila, nas montanhas dos Alpes Bávaros de Garmich-Partenkirchen, acompanhado, porventura, de uma eventual sensação de vitória (justificada, seguramente, por um recolhimento com o sentimento do dever cumprido).
Apesar da obra se desenrolar através de um movimento contínuo, a mesma dividir-se-ia em seis quadros: [I] "O Herói", cujo carácter seria retratado de forma inspiradora no magnífico tema apresentado pelas trompas e cordas; [II] "Os adversários do Herói", pomposos nas madeiras e rosnando nos trombones e tubas em (obtusa?) surdina (sim!); [III] "O companheiro do Herói", retratado num solo de violino cuja complexidade ilustra na perfeição a natureza volátil de Pauline Strauss (... e, muito provavelmente, de outras Paul(in)as... 😊), terminando numa voluptuosa cena de amor (check✓... 😊); [IV] "Os feitos em batalha do Herói", na defesa aos ataques da crítica injusta, escondida nos ecos das palavras proferidas pelas tubas, onde o herói, qual D. Juan Zaratustriano (em lembranças que se escutam), é convocado para a querela ao som dos trompetes num campo de batalha... ainda que fora de palco...; [V] "Os trabalhos de paz do Herói", que são descritos através dum mosaico rectrospectivo lembrando nove das suas obras anteriores, incluindo a ópera Guntram, numa síntese dos feitos (artísticos) da vida (artística) do herói (artista); até que, por fim, chegamos ao [VI] "O Herói retira-se do mundo e o sentimento do dever cumprido na sua vida", com a proposta de uma cena bucólica pelo corne inglês, num ambiente pastoral para onde o herói se retirou, com alguns críticos ainda a pairar, numa espécie de pesadelo que é rapidamente apaziguado pelo carinho daquela que o acompanhará até ao final da Sua vida de Herói: (para sempre) Pauline...

Nuno Oliveira




 "Uma vida de Herói, op. 40"


✨ Extractos que proponho para audição: (ver também publicações nº 8 e 18)
  • Chicago Symphony Orchestra
  • Fritz Reiner
  • RCA, 09026 61494 2
✿"o belo": toda a obra (Sentimentos ocorridos em Março de 1954, no Orchestra Hall de Chicago,
                e irreproduzíveis desde então. Mágico para a eternidade!), com alguns destaques,
                identificados a seguir;
                I: trompas e cordas aos 0:00-0:40 (O rejubilar dos heróis nas estantes das cordas e
                dos metais!) [youtube]
                II: tutti (Desconfiança e adversários matreiros...) [youtube]
                III: o violino de Pauline (O amor traz brincadeiras... e vice-versa!) [youtube]
                IV: tutti e trompas aos 6:09-6:51 ("o belo" e resplandecente som, e os ecos de D. Juan
                e Assim falava Zaratustra!) [youtube]
                V: tutti (Uma síntese de vida... ao dispor!) [youtube]
                VI: tutti aos 3:51-5:05 (A doce sensação de missão cumprida... finalmente "o belo".)
                [youtube]
 




 
  • Berliner Philharmoniker
  • Simon Rattle
  • EMI, 3 39339 2
✿"o belo": (Som exuberante, solos de violino de expressividade difícil de igualar e Rattle.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube], V [youtube], VI [youtube]



  

 
  • Berliner Philharmoniker
  • Herbert von Karajan
  • EMI, CDM 7 69027 2
✿"o belo": (O virtuosismo e sumptuosidade sonora dos músicos berlinenses, dirigidos
                a condizer pelo mestre von Karajan, naqueles primeiros tempos de liberdade
                para alguns de um Maio de 1974. A não perder.)
                I-VI [youtube]





 
  • Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks
  • Lorin Maazel
  • RCA, 09026 68775 2
✿"o belo": (A afinidade orquestral e intensidade interpretativa aliadas aos magníficos
                detalhes da visão do mestre Maazel. Um registo de excelência.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube], V [youtube], VI [youtube]






  • SWR Stuttgart Radio Symphony Orchestra
  • Sergiu Celibidache
  • Deutsche Grammophon, 453 192-2 GH
✿"o belo": (Uma versão alternativa na visão personalizada do génio de Celibidache, ao vivo
                em 1979. A não perder pelos entusiastas deste maestro.)
                I-VI [allmusic], I-VI [youtube]




 

  • Scottish National Orchestra
  • Neeme Järvi
  • Chandos, CHAN 8518
✿"o belo": (Interpretação poderosa dos músicos escoceses, liderados magistralmente por Järvi.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube], V [youtube], VI [youtube]


     


 
  • Berliner Philharmoniker
  • Herbert von Karajan
  • Deutsche Grammophon, 449 725-2 GOR
✿"o belo": (O registo intemporal da 1ª gravação, em Stereo, de von Karajan para a DG.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube], V [youtube], VI [youtube]


 
 


  • Cleveland Orchestra
  • Vladimir Ashkenazy
  • Decca, 414 292-2 DH
✿"o belo": (Som luminoso e direcção excitante numa versão de qualidade a ter em conta.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube], V [youtube], VI [youtube]






  • Boston Symphony Orchestra
  • Seiji Ozawa
  • Philips, 400 073-2 PH
✿"o belo": (Um registo a ter em conta, com uma Boston Symphony em excelente forma e
                a voz doce de Pauline no violino de Joseph Silverstein. A sensibilidade do mestre
                Ozawa também lá está.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube], V [youtube], VI [youtube]






   
✰ Outras sugestões:
  • Daniel Barenboim/Chicago Symphony Orchestra/Erato, 2292-45621-2, I-VI [allmusic]














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Richard Strauss [Nova Iorque, 1904]





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Encontros de Heróis (Pai e Tio): anos 70 e Agosto/2020.
 
 

 
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domingo, 26 de julho de 2020


36. Dvorák: concerto p/ violoncelo |

O concerto para violoncelo de Antonín Dvorák e a serenata (para a) prometida, que um amigo tocou sob as estrelas da Boémia.






Para o meu filhote João, que quando nos perguntámos: "...que concerto p/ violoncelo?", respondemos em uníssono: "O de Dvorák!" (...respostas que me pareceram adequadas na altura, ou não fosse o João filho de quem é: um descendente de familiares possuidores de algum temperamento eslavo... por parte da mãe 😊).

(E à lembrança da Prova de Aptidão Artística do 8º Grau de Violoncelo, na Escola de Música do Conservatório Nacional, que realizaste na passada 6ª Feira. A tua família sentiu-te naquele Bach, Shostakovich, Casals e Ginastera... os teus professores também (ou não fosse a música "uma coisa muito linda!") [24-7-2020])



[Também para ti, Abel Pereira, o avô que não conheci, neste Domingo do aniversário de má memória para todos aqueles que te amam.]






O compositor checo Antonin Dvorák (1841-1904) nasceria a 8 de Setembro de 1841, em Nelahozeves, na Boémia, e cedo mostraria interesse na música que abundava entre as paredes do negócio da família. O pai, Frantisek, o estalajadeiro/açougueiro da aldeia (... e músico amador), não aprovava o sonho de Antonín se tornar um músico de profissão, desejando por sua vez que o rebento desse continuidade ao negócio, atrás do balcão, contrariamente ao desejo do menino na profissionalização de actividades, atrás do pano. Ainda assim, Antonín iniciaria os seus estudos de música aos seis anos, na escola da aldeia, prosseguindo mais tarde em Praga (já com alguma aceitação parental...), cidade onde se tornaria num brilhante executante de violino, viola e órgão, sempre que a ocasião o exigisse e a procura do sustento o levasse.
E fôra essa mesma procura que o levaria a ocupar um lugar de professor no Conservatório de Música de Praga, e, mais tarde, o cargo de Director do Conservatório Nacional de Música de Nova Iorque durante três anos, entre 1892-1895, cidade Norte Americana onde escreveria o seu famoso concerto para violoncelo, a única obra que escreveria em 1895 e uma das sete que viria a compor naquele país.
O impulso que o levaria a escrever o concerto, teria sido provocado após a audição do amigo Victor Herbert na interpretação do seu próprio concerto para violoncelo nº 2, repleto de texturas fascinantes, num concerto dado em Brooklyn pela Filarmónica de Nova Iorque, em Março de 1894.
Antes dessa ocasião Dvorák consideraria o violoncelo como um instrumento de câmara ou puramente orquestral, e embora apreciasse o vasto e lírico registo médio, teria reservas para com as características nasaladas do registo agudo e a contrastante soturnidade das notas mais graves. Na realidade, e segundo as suas próprias palavras, ninguém mais do que ele se sentira mais surpreso quando se viu a iniciar o rascunho de um concerto para violoncelo, em Novembro desse ano. Por outro lado, o contributo da sua amizade com o violoncelista do Quarteto da Boémia (do qual também fazia parte), Hanus Wihan, um excelente músico que lhe teria já sugerido a composição dum concerto para o instrumento, fará, também, com que Dvorák complete o primeiro rascunho da obra a 9 de Fevereiro de 1895, auxiliado por Wihan na estruturação da parte solística.
A orquestra seria maior do que aquela que Dvorák teria usado nos seus anteriores concertos para violino e para piano, com três trombones (à semelhança do que teria notado no concerto de Herbert) e uma tuba, dando, desta forma, uma riqueza sem precedentes e profundidade de texturas no suporte e envolvência do violoncelo (facilmente reconhecível no acompanhamento do idílico andamento lento).
A obra dividir-se-ia nos tradicionais três andamentos. Um primeiro de melodias quentes, no clarinete e fagote ao início, depois na trompa, antes de passar para o violoncelo num registo mais agudo (...e supostamente mais nasalado).
No segundo andamento, identificamos alguns efeitos inspirados no andamento lento do concerto para violino de Brahms (seu amigo e defensor, a que se juntaria, por "simpatia", a amizade e protecção do crítico Eduard Hanslick, o que muito o beneficiaria... idêntica fortuna não terão tido outros, de características mais Wagnerobrucknerianas...), e uma mudança de humor que seguramente teria sido o reflexo da notícia da doença grave (...um coração frágil) de Josefina Cermáková, uma actriz de quem estivera anteriormente apaixonado, quando esta tinha 16 anos de idade, por altura das aulas de piano que lhe teria ministrado. Apesar da paixão e devoção demonstrados no ciclo de canções, "Ciprestes", que lhe terá oferecido, a rejeição de Josefina levaria o desconsolado Antonín a olhar para o lado, sendo, neste caso, o lado mais próximo o de Anna, a irmã mais nova de Josefina, com quem viria a casar (...fecha-se uma porta, abre-se uma janela...). Na realidade, o tema do violoncelo deste andamento, seria uma versão de uma dessas canções, aquela com o nome: "Deixa-me sozinho"...
O terceiro andamento começaria com uma introdução na trompa e nas madeiras, de preparação para o tema principal no violoncelo. Este andamento desenvolver-se-ia de forma muito original, até que surge o final, com o retorno a casa pelas notícias da morte de Josefina, em Maio de 1895, ao som da sua canção (... como uma memória à sua memória), até á finalização do concerto de forma concludente e confiante.
É conhecida a famosa reacção de Brahms, que depois de ter ouvido o concerto, teria comentado, irritado, que se tivesse percebido o que poderia ser feito com o registo médio do instrumento, teria, ele próprio, escrito um concerto para violoncelo também. Brahms não se apercebeu e a humanidade perdeu.
O concerto viria a estrear em Londres, a 19 de Março de 1896, pela Sociedade Filarmónica Real, direcção do compositor e com o violoncelista britânico Leo Stern, como solista. Na realidade, passariam três anos até que o dedicatário Wihan interpretasse o concerto, uma birra que terá durado todo esse tempo devido à recusa de Dvorák em acolher a cadência de 59 compassos de fogo de artifício técnico, bem como a quantidade considerável de outras modificações que Wihan desejaria introduzir, o que esbarraria, desta forma, com a música para Josefina, uma intromissão que não poderia ser permitida (... porque se dois era bom, três seria demais). A birra seria finalmente ultrapassada e a velha amizade entre os dois voltaria a ser o que era, contribuindo, para isso, a lembrança da tournée pelas 39 cidades da Morávia e da Boémia que teriam feito com o violinista Ferdinand Lachner, antes de Dvorák viajar para a América, interpretando o célebre "Rondó para o Professor Wihan" que Dvorák teria escrito em homenagem ao amigo, ou o arranjo de oito das suas "Danças Eslavas" para piano e violoncelo, ou aos "Bosques Silenciosos" para piano e violoncelo, a 5ª peça do ciclo de duetos "Das Florestas da Boémia", ou...
Todos esses "ous" fariam com que Hanus caísse, primeiro em si, e depois nos braços fraternos do amigo Antonín. No coração frágil de Josefina, o contrário é que não poderia ser...

Nuno Oliveira




"Concerto p/ violoncelo, em si menor, op. 104"


✨ Extractos que proponho para audição: (ver também publicações nº 53 e 89)
  • Mstislav Rostropovich
  • Berliner Philharmoniker
  • Herbert von Karajan
  • Deutsche Grammophon, 447 413-2 GOR
✿"o belo": toda a obra (Insuperável desde 1968. Um registo para a eternidade a não perder!);
                I - violoncelo, tutti, (Intensidade, lirismo e um som glorioso dos músicos de Berlim, a
                    acompanhar um Rostropovich e um von Karajan insuperáveis!) [youtube]
                II - violoncelo, tutti (Lembranças idílicas de uma canção chamada Josefina...) [youtube]
                III - violoncelo, tutti (No final, a memória de uma canção... para toda a vida.) [youtube]






  • Yo-Yo Ma
  • New York Philharmonic ou Berliner Philharmoniker
  • Kurt Masur ou Lorin Maazel
  • Sony, SK 67173 ou SK 42206
✿"o belo": (As interpretações magistrais da irmandade dos Más: MA, MAsur e MAazel.)
               Masur- I [youtube], II [youtube], III [youtube]
               Maazel- I [youtube], II [youtube], III [youtube]







  • Heinrich Schiff
  • Wiener Philharmoniker 
  • André Previn
  • Philips, 434 914-2 PH
✿"o belo": (A espontaneidade e frescura de Schiff, numa gravação a não perder também.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube]






  • Raphael Wallfisch
  • London Symphony Orchestra
  • Charles Mackerras
  • Chandos, CHAN 8662
✿"o belo": (Uma visão quente e excitante, maravilhosamente interpretada por Wallfisch.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube]






   
✰ Outras sugestões:
  • Gregor Piatigorsky/Charles Munch/Boston Symphony Orchestra/RCA, 09026 61498 2, (O legado que Piatigorsky nos deixou em 1960, nos primórdios do stereo...), I [youtube], II [youtube], III [youtube] 




  • Jacqueline du Pré/Daniel Barenboim/Chicago Symphony Orchestra/EMI, CDC 5 55527 2, (... e a visão inspirada de du Pré, dez anos depois, em 1970...), I [youtube], II [youtube], III [youtube] 




  • Mischa Maisky/Leonard Bernstein/Israel Philharmonic Orchestra/Deutsche Grammophon, 427 347-2 GH, (... seguido do som luxuriante de Maisky dos anos 80...), I [youtube], II [youtube], III [youtube] 




  • Truls Mork/Mariss Jansons/Oslo Philharmonic Orchestra/Virgin, VC 7 59325 2, (... até à interpretação enérgica de Mork, já nos anos 90.), I [youtube], II [youtube], III [youtube] 




  • Mstislav Rostropovitch/Seiji Ozawa/Boston Symphony Orchestra/Erato, ECD 88224, (Expressividade e lirismo habituais do mestre. A rotação pode ser um pouco mais baixa, mas a poesia está lá.), I [youtube], II [youtube], III [youtube] 




  • Anne Gastinel/Emmanuel Krivine/Orchestre National de Lyon/Auvidis Valois, V 4786, (A sensibilidade feminina para descobrir.), I [youtube], I-III [spotify], I-III [iTunes] 






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Antonín Dvorák (ao centro) com Hanus Wihan e Ferdinand Lachner [Praga, 1892]




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Parabéns para ti João!!!






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quarta-feira, 22 de julho de 2020


35. Rachmaninov: sinfonia nº 2 |

A Sinfonia nº 2 de Sergei Rachmaninov, e a excitação isostática de uma emoção genuína... tão natural como a sua sede de romantismo!






Ao Professor Américo Fernandes, que me ensinou o significado das palavras Música, Dedicação e Compromisso. Noções elementares para o professor, porque se confundiam consigo próprio, desafiantes para o aluno na infância dos anos 80, onde tudo eram estreias: a primeira lição de solfejo, o primeiro instrumento, a primeira farda, a primeira actuação e o consequente primeiro aplauso; o prometido prémio pela boa organização de cada um, ou não tivesse sido explicado que "Aquele que não chega cinco minutos antes da hora marcada não é organizado" (um dos princípios que comanda a minha vida desde então). Não nos chegámos a despedir... Talvez nos voltemos a encontrar (se Deus me der essa sorte).


(E à memória de uma noite no Coliseu de Lisboa, na companhia da 2ª de Rachmaninov, Antonio Pappano e da Orquestra Sinfónica de Londres [em 25-05-2005])






Apesar da instabilidade ocasional devido a alguma falta de bom senso financeiro do seu pai Vasily (que, em determinada proporção, viria a interferir nos seus níveis de confiança na infância), Sergei Rachmaninov (1873-1943) cresceria no ambiente tradicional de uma família da classe média Russa, começando cedo a aprender música e a aplicar o seu elevado talento, pelo que chamaria a atenção do professor de piano Nikolai Zverev, que o viria a admitir na sua classe do Conservatório de Moscovo, tinha Sergei 12 anos de idade.

Zverev tinha sempre três excelentes alunos em permanência, que eram sujeitos a uma disciplina de aprendizagem que se iniciava diariamente às 6:00, pelo que o professor desaprovava qualquer tempo que poderia ser despendido com outra coisa que não fosse a aprendizagem do piano, onde se incluiria, para o caso, a eventual aprendizagem da composição. No entanto, Sergei, na altura já um pianista considerável, dá por si com a crescente obsessão de escrever música em vez de apenas a interpretar, sendo que, encorajado pelo seu professor de harmonia, Anton Arensky, e recomendado por Tchaikovsky, inicia o estudo de contraponto com o famoso pedagogo russo da época, Sergei Taneyev.
A partir daí, Rachmaninov abandona a residência de Zverev e começa a morar com o seu tio Alexander Satin, que para além da residência moscovita, possuiria também uma grande casa de campo em Ivanovka, nas estepes asiáticas (local onde Sergei viria mais tarde a iniciar a composição da sua segunda sinfonia, aos 33 anos).
Rachmaninov lançar-se-ia a seguir numa carreira de pianista e compositor, com as maiores honras atribuídas pelo Conservatório de Moscovo, tendo sido inclusive agraciado com a raramente atribuída Medalha de Ouro da instituição. Com um contracto com a editora Gutheil na mão (ou melhor, no bolso!), publicaria aos 19 anos o seu famoso "Prelúdio em lá # menor" para piano, e aos 20 vê a sua obra de graduação do conservatório, a ópera Aleka, ser produzida pelo Teatro Bolshoi de Moscovo.
A vida do jovem Sergei parecia retirada de um conto de fadas... no entanto, o insucesso da sua primeira sinfonia, em 1897, provocar-lhe-ia uma longa depressão, o receio de compor e a cadeira do doutor Dahl (ver publicação nº 9), até que em 1900 escreve o seu concerto para piano nº 2, exorcizando, desta forma, certos medos interiores, e emergindo, assim, do abismo em que se encontraria por aquela altura.
Seguir-se-ia um período de maior tranquilidade e estabilidade emocional, com o casamento com a sua prima Natalia Satina (...a partilha residencial pode dar nestas coisas, como se sabe...), os filhos e a fama, não só como pianista e compositor, mas também como maestro. Em Novembro de 1906, o compositor muda-se com a família para Dresden no sentido de se distanciar da pressão politica e social russa, e, desta forma, devotar todo o tempo disponível à composição. E seria assim, que um perfeito desconhecido de Dresden, chamado Sergei Rachmaninov, completaria, nessa cidade, a sua segunda sinfonia em Abril de 1907 (tentativa distanciada cinco anos da anterior, a primeira de má memória e efeito evidentemente evitável), decorrente de uma prévia formulação das ideias musicais que teriam sido, porventura, inspiradas pelos ares do Verão de 1906, sentidos em Ivanovka, e pelo nascimento da sua segunda filha nesse mesmo local (pelos vistos extremamente fecundo...), em Agosto desse mesmo ano.
A vida musical na Dresden do inicio do séc. XX, era dominada pela Ópera Semper e pelas actividades do maestro Ernst von Schuch, um corajoso defensor de Richard Strauss (teria, aliás, estreado a sua opera Salomé em 1905), bem como pelos concertos da orquestra da Staatskappelle, que promoviam a música de jovens compositores como Max Reger. Esse facto e a realidade da oferta cultural de São Petersburgo e Viena (da pré-1º Guerra Mundial), acessíveis através de uma viagem de comboio onde as únicas barreiras de impedimento seriam as económicas, fariam com que a obra se estreasse em São Petersburgo a 26 de Janeiro de 1908, com a direcção do autor, e uma semana depois em Moscovo, cidade onde viria a vencer o Prémio Glinka (...e o preferencialmente desejado Prize Money de 1000 rublos, admito eu), batendo a obra que Scriabin teria levado a concurso: o seu vanguardista "Poema do Êxtase", que seria relegado para o segundo lugar (ou o primeiro dos últimos, como diriam alguns fervorosos de Rachmaninov, onde eu próprio, respeitosamente, me tento incluir). A sinfonia viria a ser dedicada a Taneyev e rapidamente publicada, pelo que Rachmaninov a levaria em digressão pela América, onde seria apresentada pela primeira vez pela Orquestra de Filadélfia, e a Inglaterra já em 1910.
Esta maravilhosa obra agremiaria a mestria polifónica (Arensky...), as melodias apelativas (Tchaikovksy...) e a destreza contrapontística (Taneyev...), através de um motivo do "destino" que impõe uma unicidade aos quatro andamentos tradicionais (um Largo sinuoso, um Scherzo enérgico-melódico luxuriante, um Adágio nocturnal no clarinete e um Allegro Vivace vigoroso-lírico-apoteótico), mas de forma mais subtil e nem sempre óbvia, ou como diria o musicólogo inglês John Culshaw: "...move-se através da sinfonia como um fantasma..." (...exuberante mas equilibrado, com as suas intermináveis frases líricas, e por fim optimista, conferindo uma inegável confiança a esta 2ª, semelhante à de uma 5ª... de Tchaikovsky... acrescentariam outros, mais hiperestáticos).
A música de Rachmaninov seria um dos alvos preferenciais da crítica tendenciosa, sendo muitas vezes apelidada de música demonstrativa de lamentos e pena própria, ou como diria Stravinsky com ironia (...vanguardista): "Seis palmos de melancolia Russa!". No entanto, não poderemos esquecer que esta música toca num nervo de cada geração que a encontra. Quando a emoção é genuína isso acontece... já com sentimentalismo será mais difícil (pelo que não deveremos confundir os dois). No fundo, "A música de um compositor deve expressar o país que o viu nascer, as suas histórias amorosas, a sua religião, os livros que o influenciaram, os quadros que gosta. Ela deve ser a soma total das experiências do compositor". Sergei disse-o e Rachmaninov fê-lo! Que mais lhe(s) podemos pedir!?... quando já temos as estrelas...

Nuno Oliveira 




"Sinfonia nº 2, em mi menor, op. 27"


✨ Extractos que proponho para audição:
  • London Symphony Orchestra
  • André Previn
  • EMI, CDM 5 66982 2
✿"o belo": toda a obra (Música elegíaca, numa interpretação intemporal do mestre Previn e dos
                músicos londrinos, na Primavera de 1973. Vários o tentaram a partir do Verão, mas...
                Um disco que todos deveriam ouvir pelo menos uma vez na vida. Obrigatório para os
                melómanos!), com alguns destaques, identificados a seguir;
                I: tutti e trompas aos 0:00-3:43 (A procura de algo que não se conhece, mas que sem o
                qual não se consegue viver... Se "o belo" não é isto, então não sei o que será!) [youtube]
                II: trompas e tutti aos 0:00-2:02 (A expressão exponenciada do romantismo...) [youtube]
                III: clarinete e tutti aos 0:00-2:40 e 9:50-11:54 (Quando um coração dilacerado é o que
                cada nota tem para dizer no clarinete de Jack Brymer, isso é "o belo"!) [youtube]
                IV: trompas e tutti aos 0:00-0:54, 2:41-5:17 e 12:19-14:00 (... ao que parece, a procura
                acaba (?) aqui... em Hollywood Boulevard...) [youtube]





 
  • Concertgebouw Orchestra
  • Vladimir Ashkenazy
  • Decca, 400 081-2 DH
✿"o belo": (Paixão volátil e intensidade russa ao extremo, na visão do conterrâneo Ashkenazy,
                acompanhado pela maravilhosa orquestra que é a do Concertgebouw. A não perder.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube]





 
  • St Petersburg Philharmonic Orchestra
  • Mariss Jansons
  • EMI, CDC 5 55140 2
✿"o belo": (Interpretação quente, clímaces poderosos, forte impacto dramático... e as frases
                 fluidas do texto que o saudoso Mariss Jansons quis contar. A não perder também.)
                I [youtube] [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube]





 
  • Royal Philharmonic Orchestra
  • Andrew Litton
  • Virgin, VC 7 90831-2
✿"o belo": (A persuasão do rubato de Litton, na ternura e nos sentimentos românticos de todos
                os outros. O mais "o belo" (se isso é possível...) solo de clarinete do 3º and.! Delicioso.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube]


 


 
  • Orchestre de Paris
  • Semyon Bychkov
  • Philips, 432 101-2 PH
✿"o belo": (Extraordinário registo, repleto de tensão e romantismo. Cor e sensibilidade
                dos músicos parisienses em destaque, a compreensão e os detalhes eslavos do
                mestre Bychkov a descobrir. Uma escolha de eleição.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube]



 


  • Russian National Orchestra
  • Mikhail Pletnev
  • Deutsche Grammophon, 439 888-2 GH
✿"o belo": (Doses bem calculadas de luz e controlo, numa interpretação fresca e clarividente
                do mestre Pletnev com a sua magnífica orquestra russa.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube]


               



  • Kirov Orchestra, St Petersburg
  • Valery Gergiev
  • Philips, 438 864-2 PH
✿"o belo": (Uma visão mais directa da obra, onde o lirismo e a coerência se destacam.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube]





  
   
✰ Outras sugestões:
  • Mariss Jansons/Philharmonia Orchestra/Chandos, CHAN 8520 (Som sumptuoso e Mariss Jansons.), I-IV [Spotify], I-IV [music.apple]



 
  • Tadaaki Otaka/BBC Welsh Symphony Orchestra/Nimbus, NI 5322 (Interpretação distinta do mestre japonês e da orquestra galesa.), I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube]



 
  • Simon Rattle/Los Angeles Philharmonic Orchestra/EMI, CDC 7 47062 2 (Uma visão nobre e paciente, com uma certa sedução no som distante.), I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube]




  • André Previn/Royal Philharmonic Orchestra/Telarc, CD-80113 (Uma boa tentativa, mas era difícil chegar lá como daquela vez...), I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube]






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Sergei Rachmaninov [Londres, 1907]




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O Sr. Américo Fernandes: acima e destacado.

 



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