sábado, 27 de março de 2021


51. Tchaikovsky: sinfonia nº 5 |

A 5ª de Tchaikovsky: directa ao coração de Nadezhda e fatal como o destino de Modest... "cunhada" nas duas faces da moeda de Pyotr Ilyich.






Para a Xana...
... com muitos beijiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinhos da malta cá de casa, que gosta muito de ti.

É bem provável que esta obra seja a que mais vezes assisti ao vivo, interpretada por várias orquestras nacionais e estrangeiras, e, no entanto, chega a ser curioso como a apresentação que mais me tenha marcado até hoje continue a ser a primeira, um concerto no TAGV, em Coimbra, numa noite inesquecível de Julho de 1998, com a Orquestra Nacional do Porto e o maestro (o enorme!) Michael Zilm. Tu estavas lá connosco, e o brilho que tinhas nos olhos após o final do concerto (de quem descobre um mundo novo...), fariam já imaginar que por aquela altura, longe dali, em Salzburgo, se ouvia uma outra 5ª... impossível de igualar. 






Pressiono o Play e logo começo a perceber que, ao longo da vida, poucas terão sido as conversas à volta de sumptuosidade melódica e mensagem emotiva, que não tenham acabado obrigatoriamente em Pyotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893). Com efeito, se admitirmos que o impacto de um ser humano sobre outro pode ser quantificado através da velocidade de um pensamento deste último sobre o primeiro, então seremos capazes de imaginar a dimensão de um pensamento que surge de forma automática, e, desta forma, avaliar a importância que Tchaikovsky terá sobre muitos de nós. Ora, se os científicos "anos luz por nano-segundo" ficam aquém do filosófico "automático", uma possível conclusão será...: "- Sim, eu sei... os excessos do romantismo fazem-me muitas vezes exagerar".
Por outro lado, para além de índices de velocidade, poderíamos explorar também níveis de frequência, uma aproximação de igual modo possível, e a ter em conta numa próxima oportunidade Tchaikovskyana.
Se atendêssemos exclusivamente à fama que as sinfonias de Tchaikovsky possuem nos nossos dias, ficaríamos com uma percepção muito distante da realidade vivida por aquele compositor. Em boa verdade, apesar do seu reconhecimento internacional, fruto da boa aceitação das suas obras para voz e da sua música de câmara, a falta de aceitação, e consequente fracasso, das suas quatro primeiras tentativas sinfónicas, culminadas na (hoje) aclamada quarta sinfonia de 1878, faria com que o compositor abandonasse esse género musical durante uma década. Passar-se-iam, assim, dez anos de solidão (sinfónica, entenda-se), até à chegada de 1888, e, com ele, a criação da sua quinta sinfonia, o receptáculo aparente da compressão de noventa (valor que dá jeito à narrativa...) anos de solidão emocional (admissível, neste caso, ou não se tratasse de Tchaikovsky, de alguém convencido do seu declínio criativo logo a partir das primeiras linhas de música que escreveu...), que acrescentados aos temporais dez já existentes, formariam, desta forma, a banda sonora adequada para retratar possíveis "Cem anos de solidão" (de García Márquez ou de outros que tais), à condição de que durante o percurso, claro está, se constatassem a presença de personagens atormentadas e de vastos sentimentos de culpa, semelhantes aos encontrados na família "Buendía".
Durante o Inverno e os primeiros meses da Primavera de 1888, que precederam a composição desta obra, poderíamos encontrar o compositor em tournée por cidades como Leipzig, Hamburgo, Berlim, Londres, Paris ou Praga, ouvindo a sua música, dirigindo-a muitas vezes e travando conhecimento com algumas das principais figuras musicais da época, como seriam os exemplos de Brahms, Grieg ou Busoni. Por esta altura, teria já tido conhecimento, também, de que o Czar Alexandre III lhe teria garantido a independência financeira que a atribuição de uma pensão vitalícia de 3000 rublos assegurava, apesar das suas características depressivas não lhe permitirem a aguardada satisfação, como, aliás, viria a escrever ao seu irmão mais chegado, Modest: "A minha consciência preocupa-me porque penso que não o mereço".
Em Abril retornaria a casa, mais concretamente à sua casa de campo em Frolovskoye, situada a cem quilómetros a noroeste de Moscovo, recentemente adquirida apesar de supostas incertezas morais ou dúvidas éticas, evitáveis quando se autorreconhece o muito trabalho que dá ter o valor que alguém afirma testemunhar. Com efeito, a falta de autoestima e as dúvidas profissionais, hoje reconhecidamente infundadas, viriam a marcar de forma dolorosa a vida trágica de Pyotr, ao que os conflitos emocionais ligados ao secretismo da sua homossexualidade, retratada na sua correspondência por "Z" (a derradeira letra do alfabeto da vida, que o suicídio, mais tarde, viria dramaticamente confirmar), seguramente não iriam ajudar. 
E seria neste ambiente agridoce, porventura mais doce que agre, que Tchaikovsky tomaria coragem e escreveria a sua Sinfonia nº 5, em mi menor, op. 64, entre Abril e Julho, uma obra-prima e a sua sinfonia mais popular num relâmpago de quatro meses, com a consciência porventura menos pesada e a convicção reflectida nas palavras que escreveria à sua maior amiga, e patrona que sempre o motivara, Nadezhda von Meck: "A sinfonia está pronta, parece-me que não falhei e que está boa". Neste caso, prevaleceria o optimismo surreal daquela amiga, tão diferente de si, em desfavor do pessimismo duma realidade espelhada naquele irmão, tão parecido consigo, tão escondido de si mesmo como também o era ele, de igual modo encerrado numa homossexualidade que não poderia ter lugar naquele tempo e tempo naquele lugar. Vinte anos depois da sua morte, quis o destino, irónico como sempre, aquilo que o grande empresário dos Ballets Russes, Sergei Diaghilev, escreveria a partir de Paris: "Tchaikovsky cometeu suicídio por medo da sua homossexualidade ser descoberta; contudo, hoje em dia, se fores um compositor e não fores homossexual é melhor que metas uma bala na cabeça". Dá vontade de rir apesar de só pensarmos em chorar.
A obra viria a ser estreada em S. Petersburgo, a 17 de Novembro desse ano, com a direcção do compositor, e apresentada em Praga logo depois. Apesar do público dessas duas cidades ter acolhido a música de forma calorosa, as opiniões frias que seriam emitidas pela irmandade costumeira de críticos, iriam, uma vez mais, afectar a frágil confiança do compositor, todavia, por pouco tempo, e apenas até às apresentações que se seguiriam em Moscovo, com semelhante calor pelo público e contrária apreciação pela imprensa, que neste caso se mostraria favorável, culminando na ovação sem precedentes que viria a ocorrer em Hamburgo, mesmo que para isso possa ter possivelmente contribuído a dedicatória a Theodor Avé-Lallemand, o presidente da Sociedade Filarmónica local, um dos seus inúmeros admiradores estrangeiros e aquele que o teria tentado persuadir a sair da Rússia para se instalar permanentemente na Alemanha. A reacção do público germânico seria o pronuncio do que viria a acontecer mais tarde: em apenas um ano, as suas melodias já eram assobiadas um pouco por toda a parte, conferindo deste modo à sua formula "simples" (a genialidade é isso mesmo) o sucesso que tantas vezes teria desejado (...mas que certamente julgaria não merecer).
De facto, Tchaikovsky viria a utilizar uma linguagem formal e facilmente compreensível, em que o fim de um andamento antecipa o inicio do andamento seguinte, apesar do tema principal, em tom menor e apelidado de "Destino", escutado em todos eles, não servir tanto como elemento unificador, mas, pelo contrário, como elemento disruptivo (...fatal, como só ele próprio), como alguém que não segue a corrente mas que se intromete sempre com as perguntas certas, desde o início pessimista do primeiro andamento ("A total submissão perante o Destino...", escrita pelo próprio numa nota programática introdutória, como era seu costume), passando pela nostalgia do segundo ("Deveria lançar-me no abraço da FÉ?", uma frase registada, também pelo autor, no esboço da obra) e a leveza do terceiro, até se chegar ao quarto andamento e à resposta final, de que, afinal, sempre haverá esperança enquanto se encarar o fado em tom maior. Eu, pelo menos, gosto de pensar assim.
Todo este conjunto de acontecimentos só poderia dar nisto: uma das obras do reportório sinfónico mais amadas por todos aqueles que ainda se atrevem a sonhar de olhos abertos, ouvidos atentos e imaginário ilimitável. Parece exagero? Poderia ser, mas neste caso não. É mesmo assim... experimentem e me dirão...
 
Nuno Oliveira     
       



"Sinfonia nº 5, em mi menor, op. 64"


✨ Extractos que proponho para audição: (nota: ver também publicações nº 4, 22 e 74)
  • Wiener Philharmoniker
  • Valery Gergiev
  • Philips, 462 905-2 PH
✿"o belo": toda a obra (O registo ao vivo, no Festival de Salzburgo, do dia em que a
                Filarmónica de Viena e Gergiev representavam o melhor que o mundo tinha
                para oferecer. Imperdível!), com alguns destaques, identificados a seguir;
                [I]: tutti, aos 0:00-2:51 (Suores frios e dores no peito... É necessária uma pausa
                para respirar? "Sim, por favor!"- responderam maestro, músicos e público, aos 
                1:29-1:33); metais (preciosos vienenses!), aos 4:01-4:43, 6:55-7:18, 8:04-8:18,
                8:51-9:13 e 12:54-13:18; cordas (e as valsas habituais daquelas paragens!),
                aos 12:07-12-43 [youtube]
                [II]: tutti e trompa, aos 0:00-2:13 (E Deus criou "o belo". Mítico!) [youtube]
                [III]: tutti (A leveza e serenidade antes do grande final.) [youtube]
                [IV]: tutti, aos 3:00-3:26 (Humores...); metais (nobres vienenses!), aos 5:22-5:43;
                tutti, aos 8:51-... (Velocidades estratosféricas e...) e 9:22-12:00 (...a inesquecível
                apoteose final!) [youtube]






  • Oslo Philharmonic Orchestra
  • Mariss Jansons
  • Chandos, CHAN 8351
✿"o belo": (Registo vivo e excitante, tempos seguros, rubatos expressivos e níveis de
                bravura a fazer lembrar os tempos de Leninegrado e o seu mestre Evgeny
                Mravinsky. Um Jansons a não perder.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • West-Eastern Divan Orchestra ou Chicago Symphony Orchestra
  • Daniel Barenboim
  • Warner, 2564 62190-5 ou Teldec, 20831-1548-2
✿"o belo": (As leituras emocionantes de duas apresentações ao vivo memoráveis e
                inspiradoras. Barenboim como nos habituou, e os músicos de Chicago,
                do Este e do Oeste, imaculados. Histórico e a não perder também.)
                Warner: [I-IV] [allmusic]
                Teldec: [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]







  • Simón Bolivar Youth Orchestra of Venezuela
  • Gustavo Dudamel
  • Deutsche Grammophon, 477 8022 GH
✿"o belo": (A impetuosidade e o delírio do primeiro amor só poderiam dar nisto... 
                Surpreendentes estes jovens Venezuelanos? "Olhe que não... olhe que
                não" (eles são já uma afirmação). Ao vivo e simplesmente electrizante.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Bournemouth Symphony Orchestra
  • Andrew Litton
  • Virgin, VC 7 91140-2
✿"o belo": (Interpretação calorosa, andamentos lentos extraordinariamente calmos,
                valsas delicadas e articulação perfeita. Uma escolha a ter em conta.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Berliner Philharmoniker
  • Claudio Abbado
  • Sony, SK 66276
✿"o belo": (Uma performance irrepreensível. A escola de Abbado no seu melhor.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]



 


  • Wiener Philharmoniker
  • Herbert von Karajan
  • Deutsche Grammophon, 415 094-2 GH
✿"o belo": (Uma interpretação intensa e excitante, a demonstrar o quanto o mestre
                apreciava esta música. Uma belíssima opção.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]





 
   
✰ Outras sugestões:




  • Claudio Abbado/Chicago Symphony Orchestra/Sony, SK 42094 (O ensaio de 1985 em Chicago. A visão está lá. A tensão há-de vir depois, em Berlim.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]




  • Otto Klemperer/Philharmonia Orchestra/EMI, CDM 5 67032 2 (O romantismo que floresce e a trompa de Alan Civil em 1963.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]




  • Riccardo Chailly/Vienna Philharmonic/London, 410 232-2 LH (Destaque para a sonoridade penetrante da orquestra vienense e a clareza impressionante da Sofiensaal. O primeiro minuto do segundo andamento é de antologia.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






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P. I. Tchaikovsky [1888]





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"Dona Xana e os seus dois amores".



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sábado, 27 de fevereiro de 2021


50. Mendelssohn: Um sonho de uma noite de Verão |

"Um sonho de uma noite de Verão" que Shakespeare um dia escreveu e que Mendelssohn uma vida folheou... para que outros continuassem ainda a sonhar. 






Para a Madalena.

...no dia do seu neto João, o filho de um sonho de uma noite de Verão.  






Se a admiração de Felix Mendelssohn (1809-1847) pela obra de William Shakespeare pode ser compreendida pelo culminar de uma infância feliz e culturalmente cultivada, fruto da leitura frequente, em família, das obras do dramaturgo inglês nas traduções de August Schlegel (o irmão do tio Friedrich), e da intimidade com Goethe e Hegel que apenas as suas amizades poderiam proporcionar, já a particular adoração por Um sonho de uma noite de Verão só poderá ser explicada pelo fascínio de Felix por aquele enredo, que seria mais ou menos assim: Teseu, o Duque de Atenas, e Hipólita, a Rainha das Amazonas, encontram-se nas vésperas do seu casamento que viria a decorrer naquela cidade; Hérmia ama Lisandro mas o seu pai, Egeu, exige que esta se case com Demétrio; este impasse obriga Teseu a intervir; ou ela casa, ou ela morre, ou ela isola-se e renega o amor para sempre (...sim, sempre ela e eles nada); sem opções, Lisandro combina fugir com Hérmia para a floresta encantada; Hérmia conta a sua intenção à amiga Helena, que, por sua vez, é apaixonada por Demétrio; Helena, porventura de forma pouco inteligente, denuncia a fuga a Demétrio e os quatro entram na floresta encantada, o domínio de Oberon, o Rei dos duendes, e lar do elfo Puck; Oberon e Puck combinam uma travessura a infligir a Titânia, Rainha das fadas e esposa de Oberon, que passaria pela utilização de uma flor mágica que faz com que qualquer um se apaixone pelo primeiro ser que vê à sua frente; este plano faz com que Titânia se apaixone perdidamente por um burro falante, que mais não é do que o maior egocêntrico da trupe de artesãos e actores amadores que ensaiavam uma peça para o casamento de Teseu e Hipólita, aqui transformado por Puck (num burro, relembro); o travesso Puck volta a fazer das suas com a flor mágica, baralha-se e provoca a paixão de Lisandro por Helena, armando maior confusão entre os casais; Puck retrata-se das confusões que provocou; Lisandro faz par com Hérmia, Demétrio com Helena e Titânia faz as pazes com Oberon; Puck resta como o que mais se divertiu numa trama que mais não teria sido do que "um sonho de uma noite de Verão". Difícil não gostar, não é.
Desta forma, não será, seguramente, também difícil de visualizar, o manuscrito Shakespeariano debaixo do braço de Felix durante os percursos que o próprio faria entre as salas de aula da Universidade de Berlim, onde, nos intervalos, uma Abertura começaria a ganhar a forma musical para os dois pianos da família, o seu e o da sua irmã Fanny, como, aliás, a teria já feito suspeitar através de uma carta que anteriormente lhe teria escrito: "Hoje ou amanhã vou começar a sonhar um sonho de uma noite de Verão...". Suspeitas razoavelmente fundadas, admito eu.
Estávamos em 1826 quando os dois irmãos leem juntos a obra de Shakespeare e Felix adormece no sonho prometido ao colo de Fanny (uma proximidade aparentemente censurável, que alguma correspondência faria suspeitar...), a sua alma gémea e também ela uma pianista talentosa. Naquele Verão, a composição para orquestra da Abertura para Um sonho de uma noite de Verão, op. 21, tornar-se-ia no ponto alto de uma época certamente bem aproveitada pelo jovem compositor, como se de um "dia festivo sem pausas, repleto de poesia, música, peças instigadoras e brincadeiras espirituosas, guarda-roupa e actuações" se tratasse (dito pelo próprio, e, por esse motivo, de considerável veracidade).
Aqueles sons, representados brilhantemente numa partitura por um jovem igualmente iluminado, ouvir-se-iam pela primeira vez nos jardins da casa da família Mendelssohn, em Berlim, por uma orquestra e uma audiência composta exclusivamente por familiares e amigos, ficando a estreia pública reservada para 26 de Agosto desse ano, em Stettin, na Prússia (hoje Szczecin, na Polónia), sob a direcção de Carl Loewe, o famoso organista da catedral daquela cidade, naquele que seria o primeiro concerto público de Felix como músico, e, onde, para além daquela estreia, ainda se ouviriam o seu concerto para dois pianos, interpretado pelo próprio e por Loewe, o Konzertstück em fá menor para piano e orquestra de Weber, com Felix de novo ao piano, e a nona sinfonia de Beethoven, com Felix a sentar-se na estante dos primeiros violinos. Nada que um prodígio não conseguisse realizar...
Ora, sobre esta tirada de génio do adolescente Felix de dezassete anos, que faria sensação desde a sua estreia, poucos esperariam que se voltasse a repetir dezassete anos depois, desta vez pelo Herr Mendelssohn, com trinta e quatro, mergulhado uma vez mais e de forma igualmente genial naquele mundo de elfos, duendes e fadas, à semelhança do que tivera feito de forma inovadora e inimitável muitos anos antes. A maioria que o não esperaria enganar-se-ia claramente, já os que tivessem percebido de que afinal aquele livro nunca lhe teria verdadeiramente saído debaixo do braço, teriam feito jackpot. No fundo tratava-se ainda daquele Felix Mendelssohn, o único daquela idade a conseguir provocar uma revolução na sensibilidade musical com tamanho sucesso, numa escala a que nem mesmo Mozart, também ele possuidor de uma maturidade musical precoce, tivesse porventura imaginado que pudesse vir a acontecer. Bastava folhear novamente aquelas páginas mágicas e toda a música surgiria de forma natural... ou melhor, sobrenatural...
Na realidade, não existem evidências de que o jovem Felix estaria a pensar numa produção teatral quando escreve a Abertura (op. 21). Esta questão só se tornaria pertinente em 1843, no momento em que o Imperador Frederico Guilherme IV da Prússia decidiu apresentar a peça de Shakespeare no Palácio Novo, em Potsdam, pelo que, e apesar da elevada actividade inerente às suas responsabilidades como Maestro da Orquestra da Gewandhaus de Leipzig, Director do Conservatório e Director Geral da Música da Prússia, Mendelssohn acabaria por aceitar a encomenda para a Música de cena (op. 61), cuja estreia viria a dirigir a 14 de Outubro desse ano.
A música para Um sonho de uma noite de Verão (Abertura, op. 21 e Música de Cena, op. 61), é composta por onze quadros (existem ainda alguns melodramas, perfazendo um total de dezoito partes). Inicia-se com a Abertura [1], que nos dá uma imagem geral do conto de fadas de Shakespeare, com algumas ilustrações de sombra e de luz que serão sentidas pelas personagens da história. O 2º acto, que é passado numa floresta encantada próxima de Atenas, abre com um Scherzo [2]. O diálogo mágico entre o elfo Puck e uma fada é transformado em música sublime, numa atmosfera de suave sensibilidade para com a natureza à qual se juntam as travessuras dos protagonistas. Seguir-se-ia o momento da acção com Oberon, Titânia e correspondente comitiva élfica, para a qual o compositor escreveria a maravilhosa Marcha dos Elfos [3]. O momento do drama onde Titânia se retira para dormir é seguido por uma canção de encantar com solistas e coro feminino (Lied mit Chor) [4], na qual os pequenos elfos lutam com animais ameaçadores, numa melodia simples e de escuta viciante... quando interpretada pelas melhores vozes (como são exemplos Sandrine Piau e Delphine Collot). No final do 2º acto, quando Hérmia acorda na floresta, depois de um pesadelo, para descobrir que teria sido abandonada por Lisandro, Mendelssohn introduz um Intermezzo [5] que expressaria não só o medo e desapontamento de Hérmia, mas também a sua determinação. Chega um Nocturno [6], o silêncio espalha-se por toda a cena e os casais, cansados e confusos, adormecem na floresta. A esta suave envolvência, seguir-se-ia o forte contraste provocado pela fanfarra introdutória da Marcha nupcial (uma marca por si só...) [7] de Teseus e Hipólita. Depois da Fanfarra [8] e da Marcha fúnebre [9] (que, convem explicar, acompanharia uma tragédia ocorrida na peça que entretinha os convidados da boda... luz e sombra de novo. Cómico? No mínimo, surreal...), chegaria a Dança dos palhaços [10] (Mendelssohn apelidaria os artesãos-actores desta forma...) e o conclusivo Finale [11], que reuniria fragmentos da Abertura acrescidos por um "coro de fadas", até ao baixar do pano, com suaves harmonias nos sopros a fazer recordar o inicio da obra.
A fantasia tímbrica da orquestração em andamentos como o Scherzo e a Marcha dos Elfos, com os seus trilos e trompas "élficas", revela distinções entre instrumentos de época e instrumentos modernos com excepcional clareza. Por outro lado, a utilização do oficleide, o precursor da tuba moderna, demonstraria uma vez mais a originalidade e curiosidade de Mendelssohn, materializada, neste caso, num instrumento patenteado pela primeira vez apenas alguns anos antes, em Paris.
Com efeito, Franz Liszt viria a referir "numa bela ocasião": "...não existiu ninguém que conseguisse igualar a sua habilidade para retratar a neblina do arco-íris e o brilho nacarado destes pequenos duendes, ninguém que conseguisse reproduzir a celebração de um casamento na corte tão bem quanto ele".
Um comentário compreensível, embora controverso... sobre a verdade de uma proeza aos dezassete, que jamais alguém alcançará. (!) (?...)
  
Nuno Oliveira

                          



"Um sonho de uma noite de Verão", Abertura, op. 21 e Música de cena, op. 61.


✨ Extractos que proponho para audição: (ver também publicações nº 48, 70 e 82)
  • Sandrine Piau, Delphine Collot
  • Orchestre des Champs-Élysées, Choeur da la Chapelle Royale & Collegium Vocale Gent
  • Philippe Herreweghe
  • Harmonia Mundi, HMX 2901502
✿"o belo": toda a obra (Vozes verdadeiramente de encantar, ensemble instrumental de
                época de classe mundial, direcção distinta do mestre Herreweghe e o ambiente 
                de conto de fadas do Théâtre des Champs-Élysées. Uma maravilha a não
                perder!), com alguns destaques a seguir;
                [1] - tutti, aos 0:00 - 12:23 (Magia no ar... sombra, luz e tudo o resto que existe
                entre as duas!), aos 5:55 - 6:26 (Demasiada emoção para os dezassete!?) [youtube]
                [2] - tutti, aos 0:00 - 4:57 (As conversas num dialecto mágico que todos entendem...
                será esta "a bela" linguagem universal?) [youtube]
                [3] - tutti, aos 0:00 - 1:21 (A banda sonora de mistérios que não são deste Mundo...)
                [youtube]
                [4] - vozes solistas, aos 0:00 - 4:09 (Seres perigosos, não se aproximem... Rouxinóis,
                boa noite e durmam bem. Piau e Collot magníficas! "o belo" é assim!) [youtube]
                [5] - tutti, aos 0:00 - 3:27 (Sentimentos variados e um génio que se mostra mais uma 
                vez!) [youtube]
                [6] - trompas, aos 0:00 - 1:31 e 3:00 - 4:44 (Lullaby and horns? YES!) [youtube] 
                [7] - tutti, aos 0:00 - 4:40 (Uma Ⓡ que dispensa apresentações!) [youtube] 
                [8] - [youtube], [9] - [youtube] 
                [10] - tutti, aos 0:00 - 1:42 (Dança com cheirinho a apoteose...) [youtube] 
                [11] - tutti, aos 0:00 - 4:44 (... e viveram felizes para sempre!) [youtube]    






  • Pamela Coburn, Elisabeth von Magnus
  • The Chamber Orchestra of Europe, Arnold Schoenberg Chor
  • Nikolaus Harnoncourt
  • Teldec, 9031-74882-2
✿"o belo": (Muito drama, mas também leveza e articulação por uma orquestra virtuosa
                dirigida por um dos grandes especialistas deste reportório: Harnoncourt. Um
                dos seus melhores registos. A adquirir sem receios.)
                [1] [youtube], [2] [youtube], [4] [youtube], [5] [youtube],
                [6] [youtube], [7] [youtube], [10] [youtube], [11] [youtube]






  • Edith Wiens, Christiane Oertel
  • Gewandhausorchester Leipzig, Rundfunkchor Leipzig
  • Kurt Masur
  • Teldec, 2292-46323-2 (versão completa)
✿"o belo": (Uma interpretação maravilhosa. A elevada qualidade do coro e orquestra
                "de Mendelssohn" e da referência que é o mestre Kurt Masur sobressaem.)
                [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube], [4] [youtube],
                [5] [youtube], [6] [youtube], [7] [youtube], [10] [youtube],
                [11] [youtube]






  • Arleen Augér, Ann Murray
  • Philharmonia Orchestra, Ambrosian Singers
  • Neville Marriner
  • Philips, 411 106-2 PH (versão inglesa)
✿"o belo": (Um registo admirável da versão inglesa por interpretes esclarecidos,
                dirigidos magistralmente pelo mestre Marriner. Versão a ter em conta.)
                [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube], [4] [youtube],
                [5] [youtube], [6] [youtube], [7] [youtube], [8] [youtube],
                [9] [youtube], [10] [youtube], [11] [youtube]






  • Heather Harper, Janet Baker
  • Philharmonia Orchestra & Chorus
  • Otto Klemperer
  • EMI, CDC 7 47230 2 (versão inglesa)
✿"o belo": (Gravação icónica de 1960. Vozes sublimes e refinamento orquestral num
                registo da versão inglesa a conhecer.)
                [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube], [4] [youtube], [5] [youtube],
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  • Lucia Popp, Marjana Lipovsek
  • Bamberger Symphoniker & Chorus 
  • Claus Peter Flor
  • RCA, 07863 57905 2 (Abertura, op. 21), RD87764 (versão completa)
✿"o belo": (Uma orquestra radiante e intimismo, naquela que é, porventura, a
                gravação da vida de Claus Peter Flor. A não perder.)
                [1] [youtube], [2] [youtube], [4] [youtube], [5] [youtube],
                [6] [youtube], [7] [youtube], [10] [youtube], [11] [youtube]







  • Eva Lind, Christine Cairns
  • Wiener Philharmoniker & Jeunesse-Chor
  • André Previn
  • Philips, 420 161-2 PH (versão completa)
✿"o belo": (A sonoridade cheia que só o Muzikverein oferece numa interpretação
                articulada da mítica orquestra vienense. Uma boa opção.)
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  • Lynne Dawson, Susanne Mentzer
  • Rotterdam Philharmonic Orchestra & Philharmonisch Koor Toonkunst Rotterdam
  • Jeffrey Tate
  • EMI, CDC 7 54393 2 (versão inglesa)
✿"o belo": (Som ressonante e interpretação espirituosa onde se "respira" magia.
                Basta ouvirmos as trompas no Nocturne [6] para percebermos isso.)
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✰ Outras sugestões:




  • Judith Blegen/Florence Quivar/James Levine/Chicago Symphony Orchestra & Chorus/Deutsche Grammophon, 415 137-2 DH (Extractos da versão inglesa. Som quente e interpretação a condizer. A trompa de Dale Clevenger no Nocturno deixa saudades.), [1] [youtube], [2] [youtube], [4] [youtube], [5] [youtube], [6] [youtube], [7] [youtube], [11] [youtube]




  • Armin Jordan/Orchestre de la Suisse Romande/Erato, 4509-91734-2 (Uma alternativa aos extractos da obra por Jordan e os músicos suiços.), [2] [youtube], [6] [youtube], [7] [youtube]










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Felix Mendelssohn em jovem [Eduard Bendemann, 1833]





Felix Mendelssohn [p/ cunhado e marido de Fanny, Wilhelm Hensel, 1847]







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Uma parte da Madalena e do João no Théâtre des Champs-Élysées, Paris [Abril, 2014].


🧚?✓. 👺?✓. 🧝?✓. ...?✓. ?!✓! + 👸?✓ = ∑💘👪
(PS: escrito numa espécie de élfico dos nossos tempos 😃)



Revolução habitual em Tavira [Agosto, 2014].



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domingo, 31 de janeiro de 2021


49. Schubert: sinfonia nº 8, "Incompleta" |

Uma Oitava Sinfonia na vida "Inacabada" de um poeta dos sons chamado Franz Schubert.






Á memória do Francisco, no dia de aniversário do Franz.
...guardo a leveza de um trombone "Schubertiano" e de um sorriso que partiu cedo de mais.






É curioso como sempre que o nome de Franz Schubert me vem à memória, a definição de génio musical surge de forma automática. Refiro-me à minha própria definição de génio musical, é claro (...escuro ou de outra cor qualquer, dependendo da visão estética do melhor que há em nós), uma percepção e um gosto que acredito partilhar com outros seres apreciadores de "o belo" também, em quantidades seguramente insuficientes mas que a qualidade individual de cada um certamente agigantará... por toda a parte onde se encontrem a escutar Schubert, numa rede humanista da Cidade do Cabo a Reiquiavique que o mundo certamente agradecerá.
Franz Schubert nasceria no dia de hoje, há 224 anos, a 31 de Janeiro de 1797 no bairro de Himmelpfortgrund, por detrás da Volksoper de Viena, e viria a falecer a 19 de Novembro de 1828, na casa do seu irmão Ferdinand do nº 6 da Kettenbrückengasse, próximo da Staatsoper da mesma cidade, a sua Viena, sem que se suspeitasse que os poucos trinta e um anos e quatro quilómetros que a sua vida percorreria tivessem o impacto inversamente proporcional ao muito que a sua influencia na música viria a provocar.
Franz iniciaria cedo a aprendizagem da música com o seu pai, o reconhecido professor primário Franz Theodor, e mais tarde com o competente António Salieri, aproveitando, entretanto, as aulas práticas proporcionadas pelas soirées musicais que aconteciam de forma frequente na sala de estar da casa da família Schubert, junto da sua mãe Maria Elisabeth e dos seus irmãos, aos que se lhe juntavam os seus brinquedos favoritos como o eram o violino, a viola e o piano, com os quais começaria já a brincar de forma virtuosística. Mais tarde, já em adulto, alguém daria nome a essas soirées: as "Schubertíades", que mais não eram que as tertúlias mais famosas de Viena, passadas agora, maioritariamente, em casa dos seus amigos.
Apesar de todo o talento que lhe era reconhecido pelo seu círculo de amizades, constituído em grande parte por jovens escritores, poetas e artistas que tão bem conheciam as suas mais de seiscentas (!!!) canções, muitas delas com poemas de mestres como Heine ou Goethe musicados palavra-a-palavra na perfeição, Schubert testemunharia durante toda a vida a negligência das suas obras instrumentais por editores de visão curta que o consideravam "apenas" um compositor de lieder, o que levaria a que muitas das suas sinfonias fossem descobertas e interpretadas pela primeira vez várias décadas após a sua morte, deixando para as posteriores gerações de compositores como Schumann (que desempoeirou a sua sinfonia nº 9 e...), Mendelssohn (...que a estreou), Dvorak ou Brahms, o reconhecimento da influência decisiva da sua música durante o período romântico e nas suas próprias composições, em particular através das suas últimas sinfonias, que ofereceriam uma alternativa de incomparável lirismo às sinfonias de Beethoven, o compositor da moda daquele tempo e naquele lugar. Tivesse Schubert vivido mais e maiores diferenças teriam certamente existido na música daqueles senhores, e, seguramente, na de outros, senhores e senhoras, pois nada do que o precedera ou do que lhe seguiria viria a suplantar a visão genial deste compositor, na qualidade das suas ideias melódicas em íntima harmonia com a palavra. Os incontornáveis ciclos de canções Die schöne Müllerin (A bela Moleira) e Die winterreise (Viagem de Inverno), com as suas melodias inspiradoras e o acompanhamento do piano de extraordinária qualidade, são o exemplo vivo disso mesmo, e poucos haverá que discordem.
Franz teria provavelmente começado a trabalhar na sua sinfonia nº 8, na tonalidade de si menor, no Verão de 1822, no período de ousadia e experimentação que se sucedeu ao sucesso do seu celebrado Quartettsatz de 1820. A 30 de Outubro, copia finalmente os dois primeiros andamentos e as duas primeiras páginas de um Scherzo, cuja existência de um esboço descoberto em 1883 e que sobreviveria até aos nossos dias, coloca dúvidas sobre a história das páginas em falta que se seguiriam a essas duas primeiras, e, eventualmente, das outras que formariam o quarto andamento final. Depois disso pouco mais se sabe com certeza, embora muito se possa especular com a devida imaginação. Quaisquer que fossem as intenções do compositor, se teria desistido da obra ou não, se parte se teria perdido ou não, se pretenderia uma estrutura com os tradicionais quatro andamentos ou não, o que conhecemos é a existência de uma Sinfonia nº 8, "Inacabada", em dois andamentos por si só tão completos que atrever-me-ia a considerá-la "Acabada", mesmo correndo o risco sobre a eventual falta de ambição ou superação auditiva da minha parte, que alguns poderão considerar. Mas a verdade é que, sempre que acabo de a escutar, fico com o sentimento de que não lhe (talvez, melhor: me) falta mesmo nada... que mexer seria diminuir, à semelhança do que me acontece muitas vezes também com Mozart... porventura por algum do destino que ambos partilhariam, música escrita era música perfeita, e, por isso raramente corrigida, para além daquele saborzinho a improviso fresco com uma casca de limão.  
Embora Schubert tivesse afirmado que estaria "No caminho para uma grande sinfonia", numa carta escrita em 1824, já um ano antes, em 1823, teria oferecido o manuscrito de presente ao seu amigo Anselm Hüttenbrenner, que o guardaria numa gaveta da sua secretária de trabalho, repleta de outros papeis, o lugar onde viria aparentemente a permanecer por mais de quarenta anos. Se assim foi, então a hipótese de abandono da obra após os dois primeiros andamentos poderá ser plausível, apesar da justificação para tal decisão não apresentar uma resposta óbvia. Embora tivesse sido escrita para uma grande orquestra onde se incluiriam três trombones (de leveza... "Franciscana"), esta seria uma música de caracter tão pessoal e de natureza tão intimista, que dificilmente poderia receber a simpatia do público que frequentava os concertos da época de Beethoven, a figura titânica da Viena de então e o colosso que ensombrava (fazia sombra...) os demais compositores daquele tempo (...que também necessitavam de luz). Deste modo, é razoável considerar que teria sido o entendimento da insistência na criação de uma obra que literalmente não viria a ter a audiência desejada, aquilo que levaria Schubert a colocá-la de parte. Por outro lado, o ano extremamente difícil de 1823, passado seriamente doente durante muitos meses com a sífilis que o diminuía e as dificuldades económicas que os escassos pagamentos dos editores provocavam, mas que os inúmeros amigos tentavam colmatar (é inclusivamente possível que a "oferta" a Hüttenbrenner tenha sido feita para honrar uma dívida), evidentemente que poderia ter reduzido o ânimo de um jovem de vinte seis anos e atacado a confiança necessária para a tentativa de juntar aos dois andamentos já completos, outros dois que se lhes igualassem em qualidade, drama e eloquência.
Outra possibilidade seria a de que a obra teria sido de facto completada, mas que o restante do manuscrito em falta teria sido perdido ou dispersado, sendo inclusive sugerido que o longo e poderoso entreacto do seu bailado Rosamunde, escrito em 1823, também em si menor e para o mesmo ensemble orquestral com a adição dos três trombones, formaria uma parte ou mesmo todo o final original da sinfonia.
1865 seria o ano em que Hüttenbrenner finalmente enviaria o manuscrito ao maestro Johann von Herbeck, concluindo-se, assim, que seriam necessários mais de quarenta anos até à estreia da obra a 17 de Dezembro, na Hofburg de Viena.
Para uma obra cuja história é rodeada de incerteza, o primeiro andamento [I] não se poderia iniciar de forma mais apropriada. Misterioso e enigmático, faria lembrar-nos memórias antigas que pretendemos esquecer, mas que não conseguimos. O som canaliza-nos o pensamento e sempre que julgamos estar no limiar da libertação, uma sombra transita-nos de novo ao cárcere desesperante de uma lembrança indesejada. Mas eis que surge o segundo andamento [II], e com ele a consolação final e a serenidade quase sobrenatural, numa conclusão pouco convencional, mas que se prova adequada face à sensação de liberdade que nos faz suscitar.
O lirismo sensual desta sinfonia, inteiramente novo naquela época, representaria uma alternativa convincente à visão de Beethoven, pelo que a sua descoberta seria considerada o facto marcante da década, e apesar das inúmeras tentativas de completar a estrutura sinfónica, seria na sua forma original que a obra viria a ser interpretada na grande maioria das vezes.
E, assim, esta música permaneceria como é conhecida e apreciada hoje em dia, assimétrica e, no entanto, perfeitamente balanceada de um "Allegro moderato" a um "Andante con moto", gravados à velocidade estratosférica que a pena de Franz atingia para registar aquele infinito de ideias...
   
Nuno Oliveira




"Sinfonia nº 8, em si menor, D759, "Incompleta""


✨ Extractos que proponho para audição:
  • Philharmonia Orchestra
  • Giuseppe Sinopoli
  • Deutsche Grammophon, 410 862-2 GH
✿"o belo": toda a obra (Um registo de detalhes infinitos, numa interpretação
                maravilhosamente fresca, refinada e espontânea, do melhor que Sinopoli
                nos legou. Luz e Sombra, Mágico e Imperdível!), com alguns destaques,
                identificados a seguir;
                [I]: tutti, aos 0:00-0:20, 3:47-4:04, 7:41-8:01 e 14:48-... (Sombras misteriosas...);
                trombones, aos 9:37-10:42 (Metais nobres "Schubertianos") [youtube]
                [II]: tutti, aos 0:00-0:37 e 11:31-... (...e revelações luminosas...); trombones, aos
                3:45-4:15 (Sons "Franciscanos" que sobressaem num mar de palavras...) [youtube]






  • The Chamber Orchestra of Europe
  • Claudio Abbado
  • Deutsche Grammophon, 429 364-2 10 GB
✿"o belo": (Um registo icónico de Claudio Abbado com a orquestra europeia a não perder.)
                [I] [youtube], [II] [youtube]






  • Wiener Philharmoniker
  • Georg Solti
  • Decca, 414 371-2 DH
✿"o belo": (Concentração total, inspiração, expiração... a respiração musical bem
                medida pela batuta do mestre Solti e a tensão elevada sentida na Sofiensaal.)
                [I] [youtube], [II] [youtube]






  • New York Philharmonic
  • Bruno Walter
  • Sony, SMK 64 487
✿"o belo": (Uma interpretação repleta de calor humano, afeição e lirismo. Músicos
                norte-americanos empenhados em testemunhar a história de um Bruno
                Walter ao seu melhor. Precioso.)
                [I] [youtube], [II] [youtube]






  • Scottish Chamber Orchestra
  • Charles Mackerras
  • Telarc, CD-80502
✿"o belo": (Interpretação intensa com sonoridades quentes e suaves. Uma revelação
                de mistérios dirigida pelo mestre Mackerras a não perder também.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [I-II] [iTunes]






  • Kölner Rundfunk-Sinfonie-Orchester
  • Günter Wand
  • RCA, GD 60099
✿"o belo": (O registo Shubertiano do mestre Wand que não poderia faltar. Magnífico.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [I-II] [iTunes]





  
  • Wiener Philharmoniker
  • Riccardo Muti
  • EMI, CDC 7 54066 2
✿"o belo": (Doses elevadas de drama e angústia, com o peso da excitação romântica
                a sentir-se nos ossos. Uma escolha de qualidade para ouvir com atenção.)
                [I] [youtube], [II] [youtube]






 
✰ Outras sugestões:
  • James Levine/The Met Orchestra/Deutsche Grammophon, 439 862-2 GH (Uma visão alternativa por Levine e os músicos nova-iorquinos que merece ser escutada também.), [I-II] [Allmusic]




  • John Eliot Gardiner/Orchestre de L'Opéra de Lyon/Erato, 2292-45986-5 (O registo ao vivo de Gardiner, numa interpretação também a ter em conta.), [I] [youtube], [II] [youtube]




  • Colin Davis/Boston Symphony Orchestra/Philips, 410 393-2 PH (Sonoridade exuberante e interpretação esclarecida do mestre inglês para descobrir.), [I] [youtube], [II] [youtube]






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Franz Schubert [Viena, 1827]




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O Francisco Lameiro e o trombone "Schubertiano". 



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