terça-feira, 15 de abril de 2025


89. Dvorák: Danças eslavas |


As "Danças eslavas" de Dvorák e os sons que acompanham os montes e vales do nosso caminho.






Por 25 anos de danças de roda.
O tempo passa depressa quando acertamos no par.






Se o exercício de ligação de uma síntese de vida a dois com a boa música alguma vez se proporcionar, então é bem provável que nos ocorra uma colectânea de danças para a ilustração sonora de uma caminhada sinusoidal de tranquilidade e inquietação, comum a tantos mortais e particularmente adequada a este que aqui vos escreve.
A ser verdade esta hipótese, então a escolha da opção musical que varresse os diversos estados do sossego ao frenesim, pareceria óbvia (pelo menos para mim) com as famosas "Danças eslavas, op. 46 e op. 72", do genial Antonin Dvorák (1841-1904). Pareceria e efectivamente...
...seria com as primeiras danças eslavas (as op. 46) que Dvorák, aos trinta e sete anos de idade, alcançaria finalmente algum êxito como compositor após tantos anos de luta inglória, apesar das seis óperas e cinco sinfonias que já possuía no seu portfólio criativo. A perseverança e forte determinação tinham-no levado a escrever essas obras maiores, mas também muita música de câmara e canções, mesmo quando as hipóteses de execução eram menos que escassas e o caminho para o sucesso se afastava do seu percurso de vida.
Os dois anos que tinha passado na Escola de Órgão de Praga ter-lhe-iam fornecido as aptidões necessárias para se tornar um bom músico de igreja, mas pouco ou nada lhe haviam ensinado acerca da composição de música sinfónica ou para o palco. Na realidade, a extrema necessidade em alguém com esta tenacidade, haveria de lhe aguçar o engenho tão intensamente, levando-o ao limite de se ensinar a si próprio através do estudo de partituras que ia adquirindo com dificuldade, e a absorver tudo o que podia a partir da cadeira da viola que desempenhava na Orquestra do Teatro Provisional de Praga. A vida difícil que levava naquela época era fraca amiga do encorajamento, mas o divino estava atento e a sua cantata patriótica "Os herdeiros da Montanha Branca", haveria de lhe trazer o primeiro vislumbre do sucesso em 1873. Cerca de um ano depois, ele aproveitaria esta obra, juntamente com outras duas sinfonias, aberturas, música de câmara e algumas canções, para concorrer à recém-criada "Bolsa de Estudo do Estado Austríaco para artistas jovens, pobres e talentosos", que residissem no extremo ocidental do império. O júri, composto nada mais nada menos por Johannes Brahms (um magnífico veículo de transporte ao firmamento), o crítico Eduard Hanslick (de potência muito inferior, como é óbvio) e o maestro e director da Ópera Imperial, Johann Herbeck (certamente de menor cilindrada também), viriam a atribuir-lhe uma bolsa de 400 gulden e a agraciá-lo por mais duas vezes nos anos que se seguiriam.
Na verdade, o seu futuro ficaria traçado logo após ter ganho esta bolsa pela última vez. Dvorák teria concorrido com a sua sinfonia nº 5, e, entre outros trabalhos, com os seus "Duetos da Morávia", uma obra que teria sido já publicada através de uma pequena edição financiada por um amigo. Em dezembro de 1877, Brahms, encantado com estes duetos, recomendá-los-ia ao seu editor Fritz Simrock. O editor concordaria em publicá-los e, ao mesmo tempo, encomendaria a Dvorák uma colectânea de oito danças para piano a quatro mãos, na expectativa de que o compositor produzisse algo similar às populares "Danças Húngaras" de Johannes Brahms, uma decisão editorial que mais tarde se provaria totalmente acertada.
O tão desejado reconhecimento começava a despontar naquele ano estival de 1878. Dvorák começa a escrever as suas "Danças Eslavas, op. 46" na primavera, concluindo-as em agosto. A versão para piano e a versão para orquestra seriam publicadas no outono e as primeiras apresentações apareceriam no inverno. O sucesso revelar-se-ia meteórico, ajudado também, é certo, pela crítica favorável do influente crítico Louis Ehlert, no jornal Nationalzeitung de Berlim: "Eu pressinto que estas "Danças Eslavas" sejam uma obra cuja fama mundial iguale a das "Danças Húngaras" de Brahms.". Haveriam de ser tocadas em Praga e Dresden por aqueles dias, e no espaço de um ano já muito público as tinha ouvido e aplaudido na Alemanha, França, Grã-Bretanha e Estados Unidos, tornando-se Dvorák conhecido internacionalmente a partir desse momento.
A história das suas segundas danças eslavas (as op. 72) começaria logo a seguir.
O astuto Simrock, percebendo o potencial económico desta música (os 300 marcos alemães que teria pago ao compositor pelos direitos da obra, mostravam-se insignificantes face ao lucro obtido), pede a Dvorák, numa carta de 14 de fevereiro de 1880, para compor uma nova colectânea de danças: "ao estilo da primeira" (terá dito; "lucrativa como a primeira", terá previsivelmente pensado).
Acredita-se que o compositor terá informado o editor de que concordava com o seu pedido, embora não o fosse atender naquela ocasião. Em boa verdade, Dvorák não teria a intenção de adiar os inúmeros projectos que teria em mãos naquele momento, para dar prioridade a mais um trabalho que seria uma mina de ouro para Simrock, para além de que, como ele próprio afirmaria: "fazer a mesma coisa duas vezes seguidas é diabolicamente difícil".
Os anos passariam e sabe-se que quando as duas personagens se encontraram em junho de 1885, em Karlsbad (o famoso destino termal), a segunda colectânea de danças ainda não existiria. O compositor, provavelmente a banhos de fortalecimento ósseo, estaria totalmente focado na composição de "Sta. Ludmila", a oratória que queria levar ao festival de Leeds do ano seguinte; enquanto o editor, eventualmente a ingerir minerais benéficos à azia, ansiava fortemente por um novo filão daquela mina de ouro criativa. Ainda assim, a elegância característica dos frequentadores dos SPA da moda imperaria nesta situação, e as posições, aparentemente extremadas, não chegariam a vias de facto devido à promessa do compositor ao editor, de que as novas danças estariam prontas no espaço de um ano (tendo ficado finalmente concluídas em janeiro de 1887).
Apesar das diferenças entre as duas colectâneas, a segunda seria um grande sucesso também.
O primeiro conjunto já se teria mostrado bastante diferente das "Danças Húngaras" escritas por Brahms, a sua fonte de inspiração. A congénere húngara trataria as melodias e danças tradicionais com novos arranjos, enquanto as escritas por Dvorák, utilizariam na maior parte das vezes, os ritmos e perfis das danças tradicionais, nomeadamente da Boémia, Morávia e Servia, para criar melodias novas e originais, com a intenção de, como ele próprio dizia: "preservar e traduzir na música o espírito das pessoas, distinto nas suas melodias e canções tradicionais.". Talvez tivesse sido também por isso, que a sua popularidade ultrapassasse as fronteiras locais e fosse apreciada aonde quer que chegasse.
De igual modo, o segundo conjunto de danças seria marcadamente diferente do primeiro. Não só se haviam passado oito anos entre os dois, como a alegria e vivacidade das primeiras melodias se converteriam na poesia e profundidade emocional das segundas, as mesmas que agora haviam escutado o folclore checo da região de Praga, o jugoslavo, o búlgaro e o ucraniano. Dvorák, então um compositor mais maduro e experiente, seria o primeiro a reconhecê-lo, tendo escrito isso mesmo ao seu editor: "...elas são bem diferentes (sem brincadeira ou ironia!).".
Sejam mais bem-humoradas ou mais melancólicas, o que é certo é que aquele homem de origens humildes, que tinha passado por tantas dificuldades apesar do seu talento precoce, acabava de nos deixar uma música de tal ordem irresistível, que ainda hoje provoca em quem a ouve a sensação superlativa sentida por quem pela primeira vez a tocou. "Elas soam como o diabo.", disse ele. "Elas ecoam a voz de deus.", respondo eu.


Nuno Oliveira




"Danças eslavas, op. 46 e op. 72"


✨ Extractos que proponho para audição: (ver também publicações nº 36 e 53)
  • Chamber Orchestra of Europe
  • Nikolaus Harnoncourt
  • Teldec, 8573-81038-2
"o belo": toda a obra (Interpretação excitante e apaixonante, onde o "The need for speed"
                está bem presente. Orquestra de excelência e direcção do mestre Harnoncourt a
                condizer. Imperdível.)
                    Op. 46: [I] ("o belo" shot de fúria e serenidade a abrir o baile.) [youtube],
                             [II] ("o belo" som de trovas sussurradas ao ouvido e um corrupio de
                             arrepio.) [youtube],
                             [III] (Um apontamento de charme a partir do trompete, em mais uma
                             que fica no ouvido.) [youtube],
                             [IV] ("o belo" riacho e flora a combinar, acompanham o alegre par.) [youtube],
                             [V] (E virou!...) [youtube],
                             [VI] (... depois valsou...) [youtube],
                             [VII] (... e no fim canonizou...) [youtube],
                             [VIII] (... até à próxima rodada d' "o belo" shot!) [youtube]
                    Op. 72: [I] (Aqui o baile é outro. Menos furor e mais graciosidade... porque a idade
                             não perdoa.) [youtube],
                             [II] ("o belo" que é o amor espelhado nesta paleta de sons lendária.) [youtube],
                             [III] (Recordação da juventude em forma de dança de roda.) [youtube],
                             [IV] (Para os que preferem cocktails sem álcool, mas que também picam no
                             palato...) [youtube],
                             [V] (... e para os saudosistas doutro tempo, num mix de iluminismo e paradas
                             militares.) [youtube],
                             [VI] (O discurso artístico em doses minimalistas.) [youtube],
                             [VII] (Muito perto d' "o belo" shot dos bailes de juventude.) [youtube],
                             [VIII] (Quando o coração é maduro, isto é "o belo" op. 72, nº 8.) [youtube]







  • Cleveland Orchestra
  • George Szell
  • Sony, SBK 48 161
"o belo": (Pura alegria, puro som, puro Szell-Cleveland Orchestra. Um registo intenso
                e lendário que não podemos deixar de ter.)
                    Op. 46: [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube], [V] [youtube],
                             [VI] [youtube], [VII] [youtube], [VIII] [youtube]
                    Op. 72: [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube], [V] [youtube],
                             [VI] [youtube], [VII] [youtube], [VIII] [youtube]







  • Cleveland Orchestra
  • Christoph von Dohnányi
  • Decca, 430 171-2 DH
"o belo": (Sonoridade rica e interpretação cuidada e elegante. O salão está cheio e uma
                boa sincronização dos pares evita acidentes na pista de dança. Excelente escolha.)
                    Op. 46: [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube], [V] [youtube],
                             [VI] [youtube], [VII] [youtube], [VIII] [youtube]
                    Op. 72: [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube], [V] [youtube],
                             [VI] [youtube], [VII] [youtube], [VIII] [youtube]







  • Royal Philharmonic Orchestra
  • Antal Dorati
  • Decca, 417 749-2 DM
"o belo": (Uma interpretação veloz, bem marcada e mais directa, que mostra que os
                britânicos sabem dançar. Pode "doer" menos, mas também sabe bem. Um registo 
                clássico a não perder.)
                    Op. 46: [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube], [V] [youtube],
                             [VI] [youtube], [VII] [youtube], [VIII] [youtube]
                    Op. 72: [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube], [V] [youtube],
                             [VI] [youtube], [VII] [youtube], [VIII] [youtube]







  • Russian National Orchestra
  • Mikhail Pletnev
  • Deutsche Grammophon, 447 056-2 GH
"o belo": (Um registo muito diferente dos restantes, mas nem por isso de menor
                qualidade. Som espectacular e performance com enorme graciosidade e
                requinte. Apenas lhe falte alguma agitação para os mais inquietos. Eu gosto
                e aconselho)
                    Op. 46: [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube], [V] [youtube],
                             [VI] [youtube], [VII] [youtube], [VIII] [youtube]
                    Op. 72: [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube], [V] [youtube],
                             [VI] [youtube], [VII] [youtube], [VIII] [youtube]












   
✰ Outras sugestões:




    • John Farrer/Royal Philharmonic Orchestra/ASV, CD DCA 730 (Interpretação fresca e sonoridade brilhante. Seduz-nos pelo contraste e diferença. Boa opção.)[discogs], [allmusic]













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    Antonín Dvorák [c1878]





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    Um.

    Nós na Capela da Universidade de Coimbra [Coimbra, 15-04-2000]

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    domingo, 15 de setembro de 2024


    88. Verdi: Requiem |


    O Requiem de Manzoni, escrito por Verdi (para Rossini) e o nó no estômago que a humanidade, em uníssono, decidiu herdar.






    Para quem sentimos ao nosso lado.
    Por sugestão de um deles.





    A escolha de um Requiem para assinalar um dia de convívio festivo, poderá, à primeira vista, ser pouco consensual. A maioria atribuir-lhe-á o pesar das cerimónias fúnebres, esquecendo que só o entendimento do limite poderá fazer usufruir o presente de forma plena. Há que aproveitar o momento, por isso, caros ouvintes de requiens, aproveitemos.
    Como todos os requiens, aquele que Verdi (1813-1901) viria a compor, partiria, também ele, do acontecimento trágico ocorrido no início de Maio de 1873, enquanto Alessandro Manzoni, o maior escritor italiano vivo, caía dos degraus da igreja da sua preferência, sendo levado para casa inconsciente. A fragilidade física dos seus oitenta e nove anos de uma vida de emoções plenamente vividas, não mais o faria regressar, vindo a falecer duas semanas depois, no dia 22 desse mês, para profunda tristeza de Giuseppe Verdi, o maior compositor italiano vivo.
    Manzonni seria uma espécie de herói pessoal de Verdi, que o considerava um exemplo de talento, virtude e nobreza desde os dias, na flor da juventude, em que lera I promessi Sposi, a obra-prima de Manzonni publicada em 1827, que captaria o espírito progressista daquela época, utilizando uma linguagem bela, simples e directa, de um italianismo puro que pudesse ser lido e apreciado por todos. A unificação italiana seria o movimento do século e a história contada no I promessi Sposi viria a ser um importante unificador, sendo talvez por isso que Verdi não a considerasse apenas um mero conto, mas como "a consolação para toda a humanidade" escrita por um homem santo, um julgamento que aquele rapaz de catorze anos iria manter durante os seus oitenta e oito anos de uma vida, também ela, de emoções plenamente vividas.
    Apesar da esposa de Verdi já ter sido apresentada a Manzoni e este lhe ter oferecido uma fotografia sua, com a dedicatória "Para a glória de Itália", Verdi continuaria a refrear as tentativas de o conhecer, mesmo quando a maioria dos seus compatriotas considerassem as duas figuras como as glórias gêmeas de Itália. A realidade é que ambos prezavam imenso a sua vida privada, pelo que Verdi privaria com Manzoni apenas por uma vez, em 1868, tendo Manzoni supostamente proferido: "Verdi, você é um grande homem.", ao que Verdi prontamente respondeu: "Mas você é um homem santo.".
    O funeral de Manzoni seria uma ocasião de luto nacional, na qual Verdi se juntaria de forma sincera, embora não tivesse encontrado a força necessária para participar nas cerimónias, preferindo, por sua vez, visitar a sepultura mais tarde e prestar os seus respeitos sozinho. O seu estado de espírito ficaria registado numa carta ao seu editor Ricordi, no dia seguinte à morte de Manzoni: "Estou profundamente triste com a morte do nosso grande homem, mas não irei a Milão, porque não possuo o coração para assistir ao funeral. Irei em breve visitar o seu túmulo, sozinho e sem ser visto, e talvez (depois de reflectir mais e ter medido as minhas forças) propor alguma coisa para honrar a sua memória.".
    Teria sido por essa altura que a possibilidade de compor um requiem teria surgido, e, com ela, o plano que ligaria para sempre a memória de Manzoni à de Rossini, o compositor mais reverenciado por Verdi, que havia falecido em 1868.
    O sentimento de perda associado aqueles dois homens estaria na cabeça de Verdi desde a sua carta para a condessa Clarina Maffei, uma amiga comum com Manzoni: "Quando o outro como ele já não existir, o que é que nos sobra?", tendo Verdi sugerido a composição de uma Missa de Requiem para lembrar o primeiro aniversário da morte de Rossini.
    Os momentos musicais desta missa deveriam ser escritos de forma independente por doze compositores italianos diferentes, sendo Verdi um deles, e sem qualquer tipo de pagamento, pelo que seria considerado como um tributo à memória do mestre. Apesar do entusiasmo inicial e da ampla divulgação, esta obra seria um fiasco (na realidade só viria a ser estreada a 11 de Setembro de 1988, por Helmuth Rilling, no Festival Europeu de Música de Estugarda), transformando-se o gesto nobre de Verdi numa humilhação pública, salvando-se apenas a contribuição do compositor, o magnífico Libera Me, que mais tarde serviria de ponto de partida, núcleo e conclusão deste seu Requiem para Manzoni.
    Com efeito, esta experiência faria com que Verdi aprendesse a não fazer anúncios públicos prematuros e a não confiar na boa vontade dos outros. A 3 de Junho de 1873 escreveria de novo a Ricordi, propondo-lhe escrever um Requiem à memória de Manzoni, que seria apresentado no primeiro aniversário da morte do escritor, em Milão, a sua terra natal. Verdi oferecer-se-ia para dirigir esse concerto, mas pediria a Ricordi para obter o acordo do município de Milão para o pagamento dos músicos, tendo recebido uma resposta entusiástica. O Requiem de Verdi estrearia, assim, no dia 22 de Maio de 1874 na Igreja de S. Mateus, em Milão, sendo depois repetido por três vezes no La Scala com estrondoso sucesso.
    Se, de repente, for perguntado a um comum ouvinte se este se lembra do Requiem de Verdi, a resposta mais certa será porventura uma evocação à terrível ferocidade do Dies Irae. Esta secção, presente no início da obra, a meio e no Libera me final, estaria já presente na missa de 1868, e Verdi, um homem conhecedor do teatro como ninguém, estaria consciente do seu poder dramático, suspeitando-se que o compositor teria introduzido uma secção completa deste Dies Irae logo ao início para causar um impacto máximo na sala; seguramente prodigioso na plateia letrada e desconcertante no balcão mais temerário a Deus, como só aquele fff subito em allegro agitato após o tranquilo Christie eleison a desvanecer-se, poderia provocar no sensível estômago humano.
    Muito desta obra seria esculpido pelos hábitos operáticos do compositor. Os papeis dos solistas seriam traçados como o poderiam ser numa ópera, não apenas no caracter assumido de cada voz, mas também na apropriação de cada ária e na variedade dos conjuntos. Verdi possuiria o sentimento inato para o canto, usando as vertentes lírica e declamatória para contrastar, uma ressonância rica e a capacidade de nos emocionar pela beleza do timbre (aquele Requiem aeternam final como se o escutássemos às portas do Céu...) e estreita humanidade (aquele Hostias que nos aperta o coração...).
    Talvez fosse por isso que este Requiem seria apupado de "operático", por quem se julgasse capaz de emitir uma opinião fundamentada, ou designado de "a sua maior ópera", por quem se sentisse particularmente espirituoso. Na verdade, a obra iria encontrar vários adversários. O célebre maestro Hans von Bülow condená-la-ia num artigo do Allgemeine Zeitung de 21 de Maio de 1874 (antes mesmo de ouvir qualquer nota, portanto...), referindo-se a Verdi como o "Átila da laringe", o Vaticano publicaria uma encíclica a banir este tipo de música para uso eclesiástico, enquanto os notáveis da música britânica alegavam que Verdi não havia escrito música religiosa, mas sim uma ópera com textos sagrados, que, neste caso, se dividiria em sete partes e vinte e uma secções, constituindo-se magnificamente pelo: Requiem e Kyrie (Requiem aeternam [1] e Kyrie Eleison [2]), Sequenza (Dies irae [3], Tuba mirum [4], Mors stupebit [5], Liber scriptus-Dies irae [6], Quid sum miser [7], Rex tremendae [8], Recordare [9], Ingemisco [10], Confutatis-Dies irae [11] e Lacrymosa [12]), Offertorio (Domine Jesu Christe [13] e Hostias [14]), Sanctus [15], Agnus dei [16], Lux aeterna [17] e Libera me (Libera me, Domine [18], Dies irae [19], Requiem aeternam [20] e Libera me, Domine [21]).
    No entanto, ninguém poderia prever um melhor futuro para este Requiem. Todas as capitais europeias queriam ouvi-lo, de preferência dirigido pelo próprio compositor. As salas estavam sempre cheias, ou a abarrotar se por acaso se visualizasse Verdi no pódio, e assim continuaria até aos nossos dias, sendo hoje considerado um produto de um génio maduro, que utiliza todo o seu poder criativo e força emocional para, de forma inteligente, respeitar a mensagem e o valor do texto através dos mais fabulosos sons.
    Hans von Bülow viria, mais tarde, a pedir-lhe perdão pelo infame acto jornalístico, tendo recebido um eloquente: "Para além disso, quem sabe? Talvez até tenha tido razão dessa vez!". A irreflectida peça de imprensa havia provocado tamanho estrilho, que até um outro génio da música haveria de sentir necessidade de estudar a partitura para si próprio. Johannes Brahms fá-lo-ia com seriedade, tendo chegado a uma singela conclusão: "Bülow errou e fez papel de tolo para todo o sempre. Um trabalho deste tipo só poderia ser escrito por um génio.". Mais uma vez de um lirismo taxativo, o nosso caro Brahms.
    Para quem quiser duvidar, é só ouvir e repetir para comprovar.
    Eu aposto que não se irão fartar.


    Nuno Oliveira




    "Messa da Requiem"


    ✨ Extractos que proponho para audição:
    • Luba Orgonasova, Anne Sofie von Otter, Luca Canonici, Alastair Miles
    • Orchestre Révolutionnaire et Romantique, Monteverdi Choir
    • John Eliot Gardiner
    • Philips, 442 142-2 PH2
    "o belo": toda a obra (Expressividade a tender para o infinito numa interpretação em
                    instrumentos de época próxima da perfeição. Solistas escolhidos a dedo,
                    sonoridade rica e penetrante. Daqueles para levar para a ilha deserta.)
                         [1-2]: tutti, aos 0:00-2:15 e 3:43-5:29 ("o belo" mistério da passagem para a outra
                    margem.) [youtube]
                    [3]: tutti, aos 0:00-1:17 ("o belo" ícone que é esta ira de Deus e as...) [youtube]
                    [4-5]: metais e coro, aos 0:00-1:40 (...fanfarras do apocalipse!) [youtube]
                    [6]: [youtube]
                    [7]: solistas e fagote, aos 0:00-3:41 ("o belo" lamento na voz, acompanhado pela
                    suave bondade de uma palheta dupla.) [youtube]
                    [8]: [youtube], [9]: [youtube]
                    [10]: tenor e oboé, aos 0:00-3:20 (Súplica na voz e na madeira.) [youtube]
                    [11]: tutti, aos 3:31-4:19 ("o belo" ícone que é esta ira de Deus: meio.) [youtube]
                    [12]: solistas, aos 0:00-5:43 (Quarteto em oração.) [youtube]
                    [13-14]: tenor e baixo, aos 4:26-5:56 e 6:21-6:46 ("o belo" registado numas
                    Hostias que nos alimentam a alma, mas apertam o coração.) [youtube]
                    [15]: [youtube],[16]: [youtube], [17]: [youtube]
                    [18-21]: soprano e fagotes, aos 1:01-2:22 (Agitação e mistérios, com um
                    cheirinho ao Hogwarts britânico a pairar no ar); tutti, aos 2:23-4:00 ("o belo"
                    ícone que é esta ira de Deus: fim.); soprano, aos 4:40-7:51 ("o belo" que se escuta
                    às portas do céu.); soprano e tutti, aos 11:45-12:08 (Fúria divina e suspensão
                    estratosférica![youtube]





    • Angela Gheorghiu, Daniela Barcellona, Roberto Alagna, Julian Konstantinov
    • Berliner Philharmoniker, Swedish Radio Chorus, Orfeón Donostiarra
    • Claudio Abbado
    • EMI, 7243 5 57168 2 8
    "o belo": (Sonoridade gigante ao vivo, com um início a mostrar imediatamente a visão
                     magnética do mestre Abbado. Solistas de eleição, coro fresco e cristalino. Um
                     registo fabuloso e simplesmente imperdível.)
                     [1] [youtube], [3] [youtube], [4] [youtube], [7] [youtube], [11] [youtube],
                     [14] [youtube], [19] [youtube], [20] [youtube], [21] [youtube]






    • Susan Dunn, Diane Curry, Jerry Hadley, Paul Plishka
    • Atlanta Symphony Orchestra & Chorus
    • Robert Shaw
    • Telarc, CD-80152
    "o belo": (Interpretação viva, com destaque para a luminosidade coral e a excelência
                     dos solistas. O som orquestral poderá ser menos exuberante, mas o coro é uno
                     e único. Uma magnífica escolha, também a não perder.)
                     [1-2] [youtube], [3-12] [youtube], [13-14] [youtube], [18-21] [youtube]





    • Michèle Crider, Markella Hatziano, Gabriel Sadé, Robert Lloyd
    • London Symphony Orchestra & Chorus
    • Richard Hickox
    • EMI, CDC 5 56563 2
    "o belo": (Registo intenso e pormenorizado, com um início arrepiante. Metais perfurantes
                     e solistas de grande qualidade, com timbres um pouco diferentes do habitual,
                     nomeadamente o do baixo. A sonoridade global é luxuriante, como se fosse
                     gravada no próprio céu. Estupenda opção.)
                     [1-2] [youtube], [3] [youtube], [4] [youtube], [7] [youtube], [11] [youtube],
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    • Joan Sutherland, Marilyn Horne, Luciano Pavarotti, Martti Talvela
    • Wiener Philharmoniker, Wiener Staatsopernchor
    • Georg Solti
    • Decca, 411 944-2 DH2
    "o belo": (Interpretação electrizante e com uma sonoridade brilhante. Destaque para a
                     acutilância dos metais, a providenciar Um Dies irae e Tuba mirum épicos, e
                     para a fragilidade e espiritualidade da voz de Pavarotti num Hostias de ir às
                     lágrimas. Uma fantástica escolha também.)
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    • Cheryl Studer, Marjana Lipovsek, José Carreras, Ruggero Raimondi
    • Wiener Philharmoniker, Konzertvereinigung Wiener Staatsopernchor
    • Claudio Abbado
    • Deutsche Grammophon, 435 884-2 GH2
    "o belo": (Um registo ao vivo, tenso, com o poder sonoro e a majestosidade interpretativa
                     de mãos dadas. Metais redondos, a tuba está nos seus "Dies iraes". Coro e solistas
                     expressivos, com Studer a nos oferecer um Requiem aeternam realmente divino.
                     Uma gravação de excelência, e seguramente a favorita de muitos ouvintes.)
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    • Cheryl Studer, Dolora Zajic, Luciano Pavarotti, Samuel Ramey
    • Coro & Orchestra del Teatro Alla Scala, Milano
    • Riccardo Muti
    • EMI, CDS 7 49390 2
    "o belo": (A visão operática de Muti gravada ao vivo no Teatro Alla Scala. Massa sonora
                     aberta e poderosa, com forte impacto coral. Extraordinário grupo de solistas,
                     bem visível num Hostias com elevada carga emocional. Uma opção de qualidade
                     a ter em conta também.)
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    • Renée Fleming, Olga Borodina, Andrea Bocelli, Ildebrando d'Arcangelo
    • Kirov Orchestra & Chorus, Mariinsky Theatre, St. Petersburg
    • Valery Gergiev
    • Philips, 289 468 079-2 PH2
    "o belo": (Interpretação direta e teatral, com uma sonoridade atmosférica e reverberante.
                     Provavelmente o mais electrizante Dies irae e Tuba mirum que existe. Fleming
                     sublime no Libera me, o começo da Lacrymosa com Borodina é outra loiça.
                     Uma escolha sofisticada e luxuriante.)
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    • Leontyne Price, Janet Baker, Veriano Luchetti, José Van Dam
    • Chicago Symphony Orchestra & Chorus
    • Georg Solti
    • RCA, 09026 61403 2
    "o belo": (Um registo marcado pela arte das vozes de Price e Baker, e pela interpretação
                     excitante de Solti, que expõe a nu o lado dramático da obra. Gravação de grande
                     qualidade. Boa surpresa.)
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    ✰ Outras sugestões:
    • Sharon Sweet/Florence Quivar/Vinson Cole/Simon Estes/Carlo Maria Giulini/Berliner Philharmoniker/Ernst-Senff-Chor/Deutsche Grammophon, 423 674-2 GH2 (Sonoridade calorosa a baixa rotação. Coro poderoso e solistas expressivos, com timbres marcantes. Uma interpretação diferente do habitual para descobrir), [1-2] [youtube], [3] [youtube], [4] [youtube], [7] [youtube], [11] [youtube], [13-14] [youtube], [18-21] [youtube]




    • Alessandra Marc/Waltraud Meier/Placido Domingo/Ferruccio Furlanetto/Daniel Barenboim/Chicago Symphony Orchestra & Chorus/Erato, 4509-96357-2 (Interpretação polida e sonoridade calorosa, com contrastes menos vincados. Boa opção.), [1-2] [youtube], [3] [youtube], [4] [youtube], [7] [youtube], [11] [youtube], [13-14] [youtube], [18-21] [youtube]




    • Anna Tomowa-Sintow/Agnes Baltsa/José Carreras/José van Dam/Herbert von Karajan/Wiener Philharmoniker/Konzertvereinigung Wiener Staatsopernchor/Chor der Nationaloper Sofia/Deutsche Grammophon, 415 091-2 GH2 (Interpretação operática e algumas idiossincrasias que parecem provocar desequilíbrio nas dinâmicas. O bombo do primeiro Dies irae poderia ser um pouco menos contrastante e o timbre melhor escolhido. Bom naipe de solistas.), [1-2] [youtube], [3] [youtube], [4-5] [youtube], [7] [youtube], [11] [youtube], [13-14] [youtube], [18-21] [youtube]






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    Giuseppe Verdi (sentado, ao centro) rodeado de familiares e amigos [Sant'Agata, 1900]




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    A preparação para a prova vínica...

    Da esq. para a dir.: Tiago, João Nuno, Paulo, João, Nuno, André (em pé), Ivo e Rui [Folhadal, Nelas, 07-09-2024]




    ... e alguns momentos proporcionados por "Jovens Enólogos do Dão"







    Vinhos da prova "Jovens Enólogos do Dão" [Feira do Vinho do Dão, Nelas, 07-09-2024]

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