domingo, 17 de abril de 2022


68. Rutter: Requiem |


Um Requiem pelo Commander of the British Empire Rutter.
Uma Música para o Conforto Benéfico do Espírito de John.






Para o Herlânder.
Do padrinho.

(Um Requiem faz sentido neste dia de Páscoa.
Não é Mozart (o teu preferido), mas a beleza desta música surpreende qualquer um.
Vá lá, surpreende-te.)






Quando penso nas palavras Requiem e finais do séc. XX, o nome que imediatamente me ocorre é o do inglês John Rutter (Londres, 1945), de alguém que para além de compositor agraciado pela coroa britânica com um CBE pelos serviços relevantes à música, em 2007, apresentaria também uma vasta experiência na direcção de agrupamentos corais de elite, como seriam exemplos o Clare College Cambridge, do qual fizera parte como coralista enquanto jovem estudante, ou o Cambridge Singers, fundado pelo próprio em 1981.
Rutter viria a escrever o seu Requiem em 1985, um trabalho que não lhe teria sido encomendado como era habitual acontecer naquela época. Na realidade, a composição deste Requiem seria a melhor forma que John encontrara para lidar com o luto pelo seu pai (falecido no ano anterior), dedicando-lhe a obra com as palavras "in memoriam L.F.R.", ao mesmo tempo que também o ajudaria a suportar os efeitos da encefalomielite miálgica diagnosticada nesse mesmo ano.
Apoiando-se na tradição de mestres como Brahms ou Fauré, Rutter adoptaria por não seguir de forma estrita o conceito da Missa Pro Defunctis estabelecido na liturgia católica, utilizando por sua vez uma selecção pessoal de textos em latim e em língua inglesa, tirados quer da Missa de Requiem (em latim), quer do Livro das Orações Comuns de 1662, e dos Salmos 23 e 130 usados tradicionalmente nas cerimónias fúnebres (em língua inglesa).
Por outro lado, e atendendo ao caracter contemplativo e intimista desta obra em detrimento do sentimento de dor e do dramatismo muitas vezes utilizados neste tipo de música, poderíamos considerar com razoável segurança, que as recordações da participação do jovem coralista da Highgate School na primeira gravação do grandioso War Requiem, dirigido por Benjamin Britten em 1963, teriam tido menor impacto no resultado final do seu Requiem do que as que o maduro compositor tivera em 1984 durante a gravação (aclamada!) do lírico Requiem de Gabriel Fauré para a sua própria etiqueta discográfica, a Collegium Records. Com efeito, em termos de escala e sensibilidade, é bem provável que esta peça deva mais ao francês Fauré do que ao seu conterrâneo Britten, em mais um bom exempo do benefício artístico que a globalização das ideias e dos sentimentos aporta.
Segundo o compositor, as sete partes deste Requiem formariam um arco de meditação sobre temas musicais inspirados na vida e na morte. A primeira [I] e a última [VII] representariam orações em nome de toda a humanidade, a segunda [II] e a sexta [VI] os salmos, a terceira [III] e a quinta [V] as orações pessoais do autor a Cristo e a quarta [IV] a afirmação da gloria divina, como aliás não poderia deixar de ser tratando-se do movimento central e pedra basilar que suportaria toda a arcada sonora, sendo por isso glorificada com os habituais "sinos" das celebrações dominicais em dias de festa.
Rutter escreveria ainda dois tipos de acompanhamento possíveis de utilizar dependendo das circunstâncias artísticas (vulgo budget), um para orquestra de câmara e outro para órgão e seis instrumentos (flauta, oboé, tímpanos, glockenspiel, harpa e violoncelo), sendo que a obra seria estreada pelo próprio compositor a 13 de Outubro de 1985, na Igreja Metodista Norte-americana de Lover's Lane, em Dallas, no Texas, suspeitando-se que aquele local sagrado nunca mais seria o mesmo a partir desse dia, assim como inúmeros outros locais de semelhante calibre espalhados pelas vastas terras do Tio Sam, tal seria a contaminação melódica proveniente de Lover's Lane. 
A consolação que esta música proporciona é evidente, o seu consumo em épocas de maior angústia é aconselhável, e, por isso, o sucesso deste Requiem só poderia ser o que na realidade é: enorme.
Felizmente que assim é, pela qualidade do que se escuta... ou o seu contrário, pelos motivos que muitas vezes existem para o necessitarmos de ouvir.

Nuno Oliveira




"Requiem"


✨ Extractos que proponho para audição:
  • Caroline Ashton, Donna Deam
  • The City of London Sinfonia, The Cambridge Singers
  • John Rutter
  • Collegium, COLCD 103
✿"o belo": toda a obra (O registo icónico realizado em 1986 por John Rutter que
                nos transmite algo de mágico difícil de explicar... é como se de repente
                estivéssemos de volta à capela da nossa terra numa manhã solarenga de
                Domingo de Páscoa, olhamos para o lado e vemos os nossos que já partiram
                a cantar connosco. Arrepiante e imperdível!), com alguns destaques,
                identificados a seguir;
                I - Requiem aeternam: tutti, aos 0:00-1:18 (Magia...), 1:55-2:55 e 3:51-4:45
                ("o belo" dom da melodia na oração suprema da humanidade.) [youtube]
                II - Out of the deep: violoncelo (Céus escuros e nuvens baixas.) [youtube]
                III - Pie Jesu: soprano e tutti (A familiaridade d"o belo" som...)  [youtube]
                IV - Sanctus: tutti (Santificação da alegria com sinos de festa!) [youtube]
                V - Agnus Dei: tutti (Procissão de mágoa e esperança.) [youtube]
                VI - The Lord is my shepherd: oboé e tutti (Céu limpo e nuvens altas visto
                da estante d"o belo" oboé!) [youtube]
                VII - Lux aeterna: tutti (O suave repicar da "harpa" ao longe, na torre da igreja...);
                oboé e tutti, aos 5:40-6:30 (...e "o belo" final da festa da Ressurreição!) [youtube]




 
  • Elin Manahan Thomas
  • Members of The City of London Sinfonia, Choir of Clare College Cambridge
  • Timothy Brown
  • Naxos, 8.557130
✿"o belo": (A versão para órgão e seis instrumentos de referência. Vozes de excelência
                e interpretação simplesmente sublime. Uma proposta de eleição a não perder.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube], V [youtube], VI [youtube],
                VII [youtube]




 
  • Edward Saklatvala, Thomas Harries
  • The City of London Sinfonia, Choir of King's College Cambridge
  • Stephen Cleobury
  • EMI, CDC 5 56605 2
✿"o belo": (As vozes maravilhosas dos rapazes do King's College, som exuberante e
                "o belo" Pie Jesu, oferecido por um menino, a tocar o divino. Aquisição 
                obrigatória.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube], V [youtube], VI [youtube],
                VII [youtube]




 
  • Rosa Mannion
  • Bournemouth Sinfonietta, Polyphony
  • Stephen Layton
  • Hyperion, CDA20947
✿"o belo": (Sonoridade radiante e instrumentistas solistas magníficos numa gravação
                repleta de graciosidade e profundidade. "o belo" Pie Jesu é interpretado de
                forma sublime. A não perder também.)
                I-VII [iTunes]







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John Rutter, CBE [2007]




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"Requiem aeternam ou princípio (do fim...)" [Latada, Coimbra, 1996]





"Lux aeterna ou fim (...nalmente!)" [Rasganço, Coimbra, 2002]



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sexta-feira, 25 de março de 2022


67. Gershwin: Rhapsody in Blue, Um Americano em Paris |

O valor do movimento na música de George Gershwin: do musical para o jazz, do bailado para o blues... da cozinha para o hall, de Brooklyn para Paris.






À memória de Diniz Camelo e Eugénio Abrantes (desaparecido recentemente), com quem tive o privilégio de fazer música.
Tinham em comum o amor pela banda da sua terra e pelas orquestras de música ligeira que despontavam em Águeda nos anos 50.
Não cheguei a merecer a moeda do Diniz. Mereci ter sido parceiro de estante do Eugénio.






George Gershwin, ou melhor, Jacob Gershwine, um judeu com raízes ucranianas da cidade de Odessa, local de nascimento do seu avô paterno, nasceria em Nova Iorque no ano de 1898 e viria a falecer em 1937 na cidade de Los Angeles. Embora tenha vivido apenas uns escassos trinta e oito anos e dez meses, o seu génio musical, carisma viciante e "joie de vivre" (já lá vamos...) deixar-nos-iam uma herança incontornável de música "clássica" norte-americana e vários tesouros sonoros que permaneceriam no quotidiano do comum apreciador d"o belo" passado quase um século. A sua cunhada Leonore, esposa do seu irmão, ou melhor, "cúmplice no crime", Ira, terá inclusive dito numa "bela ocasião": "Sempre que entrava numa sala ele capturava-a instantânea e completamente, não que ele fosse arrogante, mas porque tinha uma vitalidade infecciosa irresistível e um magnetismo pessoal arrebatador, à semelhança das maiores estrelas de cinema"; um comentário seguramente verosímil, bastando para isso apontar quem se destaca na fotografia de 1937, o ano do seu trágico desaparecimento, deixada propositadamente em baixo para ilustrar este pretexto. O dedo apontará sem dúvida para um sorriso, o de George Gershwin.
O entusiasmo característico e o gosto pela música fariam com que viesse a estudar piano clássico e composição na juventude, ao mesmo tempo que cultivava amizades e aprendia com os grandes músicos de jazz que "pecavam" na vizinhança da sua casa de Brooklyn, pelo que o seu virtuosismo ao piano e facilidade para a melodia certamente que terão crescido por ali.
Talvez a peça jazzística de concerto mais famosa alguma vez escrita seja a sua Rhapsody in Blue [RB], uma obra escrita à pressa em 1924 mas que o levaria depressa do East Side para o Carnegie Hall, numa altura em que não teria uma reputação como compositor sério ou músico de jazz "fora da lei", sendo considerado acima de tudo como um compositor de canções de sucesso, ajudado pelas magníficas letras de Ira, e já com alguns musicais da Broadway bem acolhidos pelo público.
Rhapsody in Blue viria assim a estrear-se no dia 12 de Fevereiro de 1924 no Aeolian Hall de Nova Iorque, num dos lendários concertos da série "An Experiment in Modern Music" levados a cabo pela famosa Orquestra de Paul Whiteman. Whiteman haveria encomendado um concerto para piano a Gershwin três meses antes, pedido que teria sido, entretanto, esquecido pelo compositor, que por aquela altura se encontraria preocupado com a apresentação do seu novo musical Sweet Little Devil. Agora imagine-se a surpresa de Gershwin, quando em Janeiro abre o jornal e descobre a data de estreia de um concerto para piano ainda por escrever. Em pânico, telefona a Whiteman e os dois chegam a um compromisso: a obra deixaria de ser um tradicional concerto para piano e a orquestração para o inusual ensemble do patrão ficaria a cargo do arranjador Ferde Grofé (que viria a reorquestrá-la duas vezes mais, uma para Jazz Band, em 1926, e outra para orquestra sinfónica, em 1942). E assim, Grofé, na altura o principal orquestrador de Whiteman, ocupar-se-ia de transformar a redução para piano de George na partitura para a orquestra inchada de Paul. Na realidade, a constituição exótica do agrupamento viria compreensivelmente a influenciar o colorido sonoro desta obra-prima, considerando que para além dos instrumentos habituais das Jazz Bands daquela época, a orquestra compreenderia também um conjunto de oito violinos e um multifacetado baixista, que ademais de se ocupar do contrabaixo de cordas assumiria com igual responsabilidade a parte da tuba, o que curiosamente me faz lembrar semelhante polivalência e virtuosismo no sr. Diniz, sobejamente conhecido pelo seu contrabaixo de cordas na orquestra e não menos apreciado pelo fulgor do seu bombardino na banda (eu que o diga, que ficava muitas vezes à sua frente durante aquelas aberturas da Tannhäuser e do Guilherme Tell).
Por outro lado, acredita-se também que a encomenda desta obra teria sido uma manobra ousada de Paul Whiteman para trazer o jazz às salas de concerto "de boas famílias", e atendendo ao estrondoso sucesso da Rhapsody in Blue naquela noite, supõem-se que a infame proposta terá mesmo resultado. A noite estaria algo monótona até à entrada do jovem George de vinte e cinco anos, a esvoaçar nas suas asas de grilo até ao piano, e ao começo do icónico solo de clarinete. Os russo-americanos Sergei Rachmaninov e Jascha Heifetz, o austro-americano Fritz Kreisler, o anglo-americano Leopold Stokowski e o polaco-americano Walter Damrosch (há que tirar o chapéu aos norte-americanos pela qualidade dos vistos atribuídos...) presentes na audiência, teriam supostamente ficado de queixo caído, sendo conhecida a citação de um conhecido comentador musical, de que Gershwin: "sugeriu algo novo, algo que até agora ainda não foi dito na música... e talvez com isto tenha tirado o jazz para fora da cozinha". E pelos vistos tirou-o mesmo, ou aquela noite, a primeira de muitas outras, não se tivesse passado realmente no hall de entrada... para a história.
Já Um Americano em Paris [AP] (...et voilá), o poema sinfónico escrito em 1928 para uma orquestra sinfónica reforçada com saxofones, celesta e quatro buzinas de táxi (de preferência parisienses), é na realidade o resultado das várias viagens que George Gershwin faria a Paris a partir de 1923 e não apenas daquela que teria ocorrido entre Março e Julho desse ano. Seria aliás a viagem feita dois anos antes, aquela que lhe viria a proporcionar os elementos de inspiração mais significativos, como seriam as lendárias quatro buzinas de táxi que teria adquirido na loja de peças auto da Avenue du Grand Armée, depois de assistir a uma altercação sonora típica entre dois taxistas em plena Place de la Concorde, assim como a colectânea das obras completas de Debussy que teria comprado na Editora Durand da Place de la Madeleine. 
Gershwin viria a classificar esta obra como um "bailado rapsódico", e mesmo com a falta de uma narrativa que servisse de fio condutor em mente, o programa da estreia de 13 de Dezembro de 1928 viria a conter um texto de Deems Taylor que serviria de suporte literário da obra. A história imaginada por Taylor, nessa noite ao som da Orquestra Filarmónica de Nova Iorque dirigida por Walter Damrosch, sobre um turista norte-americano solitário numa aventura à descoberta de Paris, algumas vezes nostálgico com saudades de casa, tornar-se-ia na sinopse perfeita para ilustração da música, um domínio posteriormente desafiado pelo argumento do filme vencedor dos Óscares da Academia protagonizado por Gene Kelly e Leslie Caron, que Vincente Minnelli realizaria em 1951.
Em boa verdade, agora que penso nisto, não me recordo de ter havido maior homenagem a uma peça de música do que a realização do filme Um Americano em Paris inspirado na música Um Americano em Paris.
Se assim for, George sem dúvida que o terá merecido.

 
Nuno Oliveira

                          



"Rhapsody in Blue"
"Um Americano em Paris"


✨ Extractos que proponho para audição: (Rhapsody in Blue) (ver também publicação nº 91)
  • Michael Tilson Thomas
  • New World Symphony
  • Michael Tilson Thomas
  • RCA, 09026-68798-2 (v. original da estreia c/ a Orquestra de Paul Whiteman)
✿"o belo": (Realmente, é difícil imaginar melhor que isto. Um registo incontornável
                e de referência absoluta, oferecido por um grupo de músicos de excepção!)
                [youtube]: clarinete, aos 0:00-0:47 ("o belo" exemplo de sons que valem uma
               "moeda", oferecido por Jerry Simas, o clarinetista da San Francisco Symphony
                descendente de avô açoriano!); metais..., aos 4:56-5:08 (...derretidos.); piano,
                aos 6:25-7:03 (A outra maneira de dizer.); madeiras, aos 10:57-11:45
                (A aragem do Hudson... sentida em Manhattan...); tutti, aos 16:18-17:12
                (O final que ansiamos ouvir!).






  • Peter Donohoe
  • London Sinfonietta
  • Simon Rattle
  • EMI, 5 57691 2 (orq. de Ferde Grofé p/ Jazz Band)
✿"o belo": (O estilo está lá e o virtuosismo também, numa excelente escolha a não
                perder.) [youtube]






  • Misha Dichter
  • Philharmonia Orchestra
  • Neville Marriner
  • Philips, 411 123-2 PH (orq. de Ferde Grofé p/ orquestra)
✿"o belo": (Som generoso e interpretação persuasiva de Dichter. Um registo sublime
                a ter em conta também.) [youtube]






  • Jean-Yves Thibaudet
  • BBC Symphony Orchestra
  • Hugh Wolff
  • Decca, 460 503-2 DH (orq. de Ferde Grofé p/ orquestra)
✿"o belo": (A elegância, descontração e detalhe de Thibaudet. Uma proposta mais
                pessoal e intimista a descobrir.) [youtube]







✨ Extractos que proponho para audição: (Um Americano em Paris)
  • Cleveland Orchestra
  • Riccardo Chailly
  • Decca, 417 326-2 DH (também com a v. p/ dois pianos e orq. da Rhapsody in                          Blue, interpretada p/ Katia e Marielle Labèque; [youtube])
✿"o belo": (Visão sumptuosamente gravada e maravilhosamente interpretada. Repleta
                de pormenores que nos fazem sentir Paris... e as buzinas só podem ser as dos
                icónicos Citroëns! A não perder!)
                [youtube]: tutti e percussão, aos 0:00-1:08 (A azáfama da urbe parisiense com
                o buzinar dos bólides nativos.); madeiras, aos 3:15-3:54 (A doce nostalgia e as
                saudades de casa sentida por aqueles "arrondissements".); trompete e saxofone
                (sim!), aos 7:20-8:10 (Cabaret? Oui!); tuba, aos 15:07-15:25 (Solo!); tutti, aos
                16:52-17:36 (O apogeu final!).






  • San Francisco Symphony Orchestra
  • Seiji Ozawa
  • Deutsche Grammophon, 419 625-2 GH
✿"o belo": (Interpretação viva e performance irrepreensível da orquestra europ... perdão,
                norte-americana, sabiamente dirigida pelo mestre europ... perdão, nipónico. Um
                clássico parisiense dos anos 70 a não perder. PS: excelentes complementos por
                Bernstein e Russo.) [youtube]






  • BBC Philharmonic
  • Yan Pascal Tortelier
  • Chandos, CHAN 9325
✿"o belo": (Som espacial, performance cirúrgica e alguns detalhes [as trompas aos
                5:48-5:59 são um bom exemplo], fazem deste registo uma boa opção.) [youtube]





  
   
✰ Outras sugestões: (Rhapsody in Blue, Um Americano em Paris)
  • Louis Lortie/Charles Dutoit/Orchestre Symphonique de Montréal/Decca, 425 111-2 DH, [RB - orq. de Ferde Grofé p/ orquestra] [youtube], [AP] [youtube]




  • Andrew Litton/Dallas Symphony Orchestra/Delos, DE 3216, [RB - v. original da estreia c/ a Orquestra de Paul Whiteman] [youtube], [AP] [youtube]




  • James Levine/Chicago Symphony Orchestra/Deutsche Grammophon, 431 625-2 GH, [RB - orq. de Ferde Grofé p/ Jazz Band] [youtube], [AP] [youtube]




  • Katia & Marielle Labèque/EMI, CDC 7 47044 2 [AP - versão original p/ dois pianos] [youtube]






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George Gershwin (ao piano) ao lado do seu irmão Ira, com Fred Astaire e Ginger Rogers (sentados)
[Produção do filme "Shall We Dance", 1937]





George Gershwin (à esq.), as 4 buzinas de táxi trazidas de Paris, James Rosenberg (percussionista da Cincinnati Symphony 
Orchestra) e o tenor Richard Crooks [Concerto de "Um Americano em Paris" p/ Cincinnati Symphony Orchestra, Março/2029]




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Diniz Camelo [2º à esq. no contrabaixo, orq. Camisas Verdes, Casal d'Álvaro, Águeda, 1970s...


e destacado no bombardino, Banda Alvarense, Casal d'Álvaro, Águeda, programa Arco Iris da RTP, 1987]





Eugénio Abrantes [1º à dir. no sax alto, orq. Rua d'Além, Águeda, 1950s].






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A Place de la Madeleine [Paris, 2014].




A Avenue du Grand Armée da janela do hotel junto à loja de peças auto
[Paris, 2014].




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domingo, 27 de fevereiro de 2022


66. Bruckner: sinfonia nº 4, "Romântica" |


A Sinfonia nº 4 de Anton Bruckner, "Romântica" de nome, "Reflexão íntima" de apelido.





Em homenagem ao povo livre ucraniano.
Para o João que está de parabéns e para a "Trompa mágica do... padrinho".

(...ainda guardo na memória a minha última 4ª, um sonho oferecido pela Orquestra do Real Concertgebouw de Amesterdão e o maestro Mariss Jansons. Foi em 2014, estava em Paris.)






Quando num dia de Inverno de 1873 um dos alunos de Anton Bruckner (1824-1896), genuinamente preocupado com a visível falta de conforto no apartamento do mestre, no nº 41 da Währinger Strasse, lhe aconselhou a casar, o compositor replicaria com aquela pacatez que lhe era peculiar: "Não tenho tempo meu querido amigo. Tenho a minha quarta sinfonia para compor.". E assim seria sempre, ano após ano, até à derradeira nona.
Com efeito, o compositor viria a completar a sua Sinfonia nº 4, "Romântica", a única obra à qual atribuiria um subtítulo, em Novembro de 1874, mas teria ainda de esperar mais sete anos até à calorosa recepção do público vienense, ocorrida na estreia de 20 de Fevereiro de 1881, pela Orquestra Filarmónica de Viena e o maestro Hans Richter.
Apesar dos seus cinquenta e seis anos de idade, Bruckner não seria um compositor mimado pelo sucesso e a aprovação mais generalizada da sua música só se tornaria um pouco mais visível a partir do lançamento da sua sétima sinfonia alguns anos mais tarde. Ainda assim, as experiências de má memória que teria tido com a apresentação ao público de obras anteriores não o desencorajariam a escrever mais uma sinfonia, facto a que deve ser dada a devida importância, inegável relevância e o profundo respeito pela resiliência desta rocha solitária no centro da praia artística vienense que era o nosso Anton.
Também nesta criação, a famosa insegurança de Anton Bruckner ver-se-ia compensada pela procura obsessiva da perfeição. De facto, depois de 1874, o autor viria ainda a revisar a obra em 1878 e a reescrever o final entre 1879 e 1880. Modificá-la-ia de novo entre 1886 e 1888, mas seria a versão de 1878-1880 aquela que chegaria aos nossos dias como a mais interpretada, apesar dos cortes e reorquestrações perpetrados pelos seus bem-intencionados amigos editores e antigos alunos, Josef Schalke e Ferdinand Loewe, que teria sido obrigado a tolerar, e cujo resultado verificar-se-ia aparentemente infeliz, demonstrando a incapacidade do duo para a compreensão da genialidade do compositor de Linz e exemplificando a máxima de que "quem não sabe não deve mexer". 
O subtítulo de "Romântica" surgiria apenas em 1876, tendo o autor inclusive adicionado um programa literário de acompanhamento, programa esse que viria a ser negligenciado desde o dia em que nasceu tendo em conta que também o próprio Anton se encontraria um pouco desencontrado com aquilo que andava a fazer e a sentir por aquela altura. Isso mesmo pode ser de certa maneira atestado pela narrativa escolhida para o primeiro andamento: "Uma cidadela da Idade Média. Amanhecer. Acordar com o som da torre. As portas abrem-se. Cavaleiros e carregadores orgulhosos saem do forte. A magia da natureza rodeia-os.", e pela afirmação naïve e refrescante sobre o quarto (andamento...): "No último andamento esqueci-me completamente do quadro que tinha em mente"... Ora, no final nada disto haveria de importar para Anton e para os seus fieis admiradores, ou não fosse uma peça de "música absoluta"  funcionar por si só como o próprio nome indica: "música absoluta" (entendi por bem sublinhar a ideia depois de escutar pela enésima vez a última intervenção da trompa de Philip Myers no final desta obra-prima... quem fizer o mesmo perceberá porquê).
Os quatro andamentos da obra percorrem os trilhos da natureza e da espiritualidade, tocando-se e fundindo-se entre si naqueles cruzamentos facilmente identificáveis pela pele de galinha que provoca aos ouvintes um pouco por todo o mundo. Abre [I] com um tema misterioso na trompa acompanhado por trémulos suaves nas cordas (uma das aberturas do reportório sinfónico mais belas da história), que depois se desenvolve num dos andamentos mais majestosos da obra de Bruckner. O segundo andamento, Andante [II], surge a seguir com as suas melodias distantes e o maravilhoso entrelaçar dos temas, replecto de misticismo e a fazer lembrar uma marcha fúnebre. Segue-se-lhe o terceiro andamento, um Scherzo [III] com o notório realismo, brilho e energia de uma atmosfera de caça, com os metais em grande destaque como seria de esperar, e o último andamento, Finale [IV], a vaguear pelo tempo e pelo espaço na busca da tranquilidade fundamental para as deliberações sensatas do homem, mais importantes do que nunca por estes dias. E acaba como começa; no nosso pensamento permanece o som meditativo da trompa com as novas e incomparáveis cores, o amarelo do sol germinador da vida e o azul do céu que ambicionamos um dia alcançar... "but not yet".
Slava Ukraini!

(PS: a sinfonia nº 4 de Bruckner foi interpretada em Berlim a 12 de Abril de 1945, num concerto pela Orquestra Filarmónica de Berlim dirigida por Robert Heger. Dias mais tarde o opressor caiu.)


Nuno Oliveira




"Sinfonia nº 4, em mi bemol maior, "Romântica""


✨ Extractos que proponho para audição:
  • Wiener Philharmoniker
  • Karl Böhm
  • Decca, 448 098-2 DF2
✿"o belo": toda a obra (ed. Nowak, 1878-1880: Mistério e grandiosidade no registo de
                referência desde 1973. Há quem diga que há este e depois todos os outros... e
                na realidade é quase assim. Magnífico e simplesmente imperdível!)
                [I]: trompa e tutti, aos 0:00-2:40 (Ambiente misterioso, sons cristalinos na trompa
                e o clímax que dá a entender o que aí vem...); violoncelos, aos 3:33-3:51 e
                16:13-16:31 (Um "pormaior" na voz.); tutti, aos 10:03-11:33 (Órgão de tubos
                orquestral!); cordas, aos 11:34-12:34 (A canção "Romântica" num minuto.);
                trompas, aos 19:27-20:03 (A verdadeira puxada!) [youtube]
                [II]: violoncelos, aos 0:00-0:31 e 8:07-8:38 (A beleza de uma canção.) [youtube]
                [III]: trompas e metais, aos 0:00-10:58 (Está aberta a época de caça!) [youtube]
                [IV]: tutti, aos 1:24-2:49, 5:44-6:47 e 11:14-12:43 (Poder orquestral supremo!); tutti
                aos 3:04-5:02 e 15:19-17:12 (A fonte onde Mahler bebeu...); trompa e tutti, aos
                18:03-21:00 ("o belo" solo de trompa e o mistério da apoteose final!) [youtube]






  • New York Philharmonic
  • Kurt Masur
  • Teldec, 4509-93332-2
✿"o belo": (ed. Haas, 1878-1880: Concentração extraordinária num registo ao vivo
                repleto de beleza e inspiração. Direcção vibrante do mestre alemão e a
                beleza sonora da trompa de Philip Myers, com "o belo" vibrato a abrir e a
                fechar o pano que nos atinge como um raio! Sublime e a não perder.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Berliner Philharmoniker
  • Eugen Jochum
  • Deutsche Grammophon, 449 718-2 GOR
✿"o belo": (ed. Nowak, 1878-1880: Visão fluida e reflectida do mestre Jochum, onde
                se sente a consciência da grandiosidade desta música. Marco histórico e
                único. Uma fabulosa escolha.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Berliner Philharmoniker
  • Herbert von Karajan
  • EMI, CDM 7 69006 2
✿"o belo": (ed. Haas, 1881: Sonoridade exuberante e poder orquestral que absorve todas
                as sensações ao seu redor. Os violinos "deslizam" com gosto. Som detalhado e
                timbres luxuriantes nas madeiras e nos metais. Um registo extraordinário e
                imperativo nas melhores colecções.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]





  • Berliner Philharmoniker
  • Herbert von Karajan
  • Deutsche Grammophon, 415 277-2 GH
✿"o belo": (ed. Haas, 1878-1880: Poder e poesia de mãos dadas numa performance
                de estatura histórica como só o mestre von Karajan poderia proporcionar.
                Uma escolha de referência.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Los Angeles Philharmonic
  • Esa-pekka Salonen
  • Sony, SK 63301
✿"o belo": (versão de 1878-1880: Proposta muito pessoal do mestre finlandês, com
                pormenores que se percebem de forma clara e virtuosa. Sonoridade
                exuberante e interpretação imaculada dos músicos da costa do Pacífico.
                Uma proposta de excelência a não perder também.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Chicago Symphony Orchestra
  • Georg Solti
  • Decca, 410 550-2 DH
✿"o belo": (ed. Nowak, 1878-1880: A versão directa, brilhante e poderosa de Georg
                Solti... e os metais são de Chicago! Sem dúvida uma das preferidas dos
                amantes dos decibéis.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Berliner Philharmoniker
  • Daniel Barenboim
  • Teldec, 8573-81787-2
✿"o belo": (ed. original, 1878-1880: Registo ao vivo maravilhosamente interpretado
                pelo mestre Barenboim e os músicos berlinenses. Uma boa opção.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Wiener Philharmoniker
  • Claudio Abbado
  • Deutsche Grammophon, 431 719-2 GH
✿"o belo": (ed. Nowak, 1878-1880: Registo onde sobressaem a sonoridade polida e a
                expressividade da batuta do mestre italiano. Uma boa escolha também.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






   
✰ Outras sugestões:
  • Günter Wand/Kölner Rundfunk-Sinfonie-Orchester/RCA, GD 60079 (ed. Haas, 1878-1880: A visão de um dos maiores interpretes desta obra.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]




  • Riccardo Muti/Berliner Philharmoniker/EMI, CDC 7 47352 2 (ed. Nowak, 1878-1880: Sensualidade e clímaces bem construídos numa gravação a descobrir.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube] 




  • Marek Janowski/Orchestre Philharmonique de Radio France/Virgin, VC 7 91206-2 (ed. Nowak, 1878-1880: Registo directo e assertivo, com destaque para as madeiras suaves e metais acutilantes. Final excitante.), [I-IV] [discogs] 




  • Simon Rattle/Berliner Philharmoniker/EMI, 3 84723 2 (ed. Nowak, 1886: Um exemplo da elegância de Rattle com um final inspirador.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]




  • Riccardo Chailly/Royal Concertgebouw Orchestra/Decca, 425 613-2 DH (ed. Nowak, 1878-1880: A sonoridade exuberante do Concertgebouw que se destaca.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]










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Anton Bruckner [Viena, 1886]




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"O padrinho..." [início dos anos 2000]


 

"... e o afilhado." [início dos anos 2010]






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"Nuvens ameaçadoras e o Azul e Amarelo, com o verde da esperança na chegada da pomba da paz"

 [Nelas, Rua da Serra da Estrela, nº 4, manhã de 27-02-2022]



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