sábado, 24 de abril de 2021


52. Bartók: Concerto para Orquestra |

Béla Bartók e o seu "Concerto para Orquestra"; uma música nova sobre a velha Europa, absorvida pelos ouvidos antigos de uma América moderna.






Para o Horácio.
...no dia do seu neto André, um pirata que hoje conseguiu reunir a família de humores mais eslavos. A do "Ladislav", é claro.  






Béla Viktor János Bartók (1881-1945) foi um Homem excepcional.
O professor Béla era um extraordinário virtuoso do piano, docente deste instrumento na Academia de Budapeste, um pedagogo calmo e paciente, que adorava a companhia dos jovens e se sentia extremamente tocado pela admiração que os seus alunos tinham por si (Solti foi um deles, e isso nota-se em frente ao hi-fi!). Já o compositor Bartók foi um criador genial, introvertido e de poucas palavras na maioria das ocasiões, excepcionando-se porventura aquelas em que o "navegador", de gramofone à ilharga, percorreria os campos com o amigo Kodály à descoberta das melodias eslavas dos camponeses seus conterrâneos. Por outro lado, e mais importante ainda, o húngaro Béla Bartók era um ser humano livre, que acima de tudo desprezava a intolerância, a ditadura e o fascismo, motivos que o terão obrigado a abandonar o conforto da terra natal que amava, mas que via envelhecer com o ideal Nazi. Naquela época, outros houveram que, concordando com os mesmos ideais de liberdade, o não terão feito, tomando decisões que privilegiariam o status quo à defesa desses ideais. Provavelmente teriam os seus motivos; um dos principais poderia ter sido, seguramente, o medo da perda da própria vida, facto que por si só nos permitiria optar por enquadrar estes assuntos controversos (em tempos de paz...) na vertente humanista em desfavor da artística, uma vez que o que estará aqui em causa será, depois de tudo espremido e exprimido, o grau de coragem de cada um. O génio do artista é uma coisa, a coragem do homem é outra, e a polémica deveria acabar aqui, sem heróis nem vilões... entendo eu.    
E assim, os ideais de Béla Bartók dariam à costa em Lisboa, cidade atlântica de onde aquele Homem e a sua esposa Ditta, tomariam o navio que os levaria para os Estados Unidos, no dia 20 de Outubro de 1940 (pelo que, como poderão compreender, a anterior referencia à palavra "navegador" não terá sido totalmente inocente... por inúmeros motivos).
Bartók estabelecer-se-ia em Nova Iorque com boas expectativas, e, em Dezembro desse ano, completa uma nova versão de concerto da sua sonata para dois pianos e percussão, elaborada quatro anos antes. A Universidade Columbia atribui-lhe uma bolsa especial em Março de 1941, e Bartók começa a trabalhar na colecção de Milman Parry, uma colectânea de gravações de música tradicional jugoslava que estaria guardada na Universidade de Harvard, enquanto editava, simultaneamente, as suas próprias colecções de música tradicional turca e romena. O salário seria modesto, mas o trabalho interessava-lhe, no sentido em que representaria, admissivelmente, a manutenção dos laços com o velho continente e a ligação à sua anterior actividade de investigação musicológica na Hungria.
Mas como tantas vezes na vida, depois de uma fase de felicidade viria uma época de angústia e desilusão. Em Dezembro de 1942, o posto na Universidade Columbia seria descontinuado e Bartók destituído do cargo. Posteriormente, em Fevereiro de 1943, é-lhe diagnosticada leucemia na sequência do colapso que tivera durante uma palestra realizada em Harvard. Á fragilidade provocada pela doença, seguir-se-ia a ausência de concertos do pianista e as preocupações financeiras daí decorrentes, ao que os constrangimentos sentidos pela separação da sua terra natal fariam agravar ainda mais a situação, na época menos profícua do compositor e também numa altura de rejeição na apresentação da sua música, considerada demasiado moderna pelos "americanizados" ouvidos americanos, mais interessados em Copland por aqueles dias.
No entanto, seria nesta situação desesperante que o apelo das raízes funcionaria e os amigos chegariam em seu auxílio. As contribuições mais importantes partiriam do violinista Joseph Szigeti e de Fritz Reiner, o maestro da orquestra Sinfónica de Pittsburgh e o futuro mago que daria fama mundial à Orquestra Sinfónica de Chicago (existem exemplos em baixo que justificam alguns porquês... é fácil de saber quais são... são os dois primeiros!). Na realidade, os dois amigos viriam a persuadir Serge Koussevitzky, o famoso maestro da Orquestra Sinfónica de Boston, a encomendar-lhe uma obra para grande orquestra. A trama estaria de tal forma bem engendrada, que o compositor seria induzido a acreditar que tal iniciativa teria vindo do próprio Koussevitzky. Com efeito, a realidade seria mantida secreta, na medida em que o seu orgulho (eslavo...) não lhe permitiria aceitar alguma coisa que se assemelhasse a qualquer espécie de caridade. E Szigeti e Reiner sabiam bem disso.
Depois de uma pausa criativa de mais de dois anos, Bartók começaria assim, em Agosto de 1943, a compor novamente a partir do sanatório onde estava hospitalizado, junto das montanhas de Adirondack e dos lagos de Saranac, no ambiente são que lhe proporcionaria o ânimo necessário para que, em menos de dois meses, em Outubro, conseguisse escrever o seu Concerto para orquestra, sz 116. Koussevitzky viria a dirigir a estreia a 1 de Dezembro desse ano, em Boston, e a obra atingiria o sucesso imediato. O compositor encontrar-se-ia demasiado debilitado para assistir ao concerto de estreia, mas os seus médicos dar-lhe-iam permissão para que pudesse estar presente em apresentações posteriores, já no final de Dezembro. O público brinda-o com uma aclamação tumultuosa, transportando-o subitamente da obscuridade redutora para a fama excessiva, Koussevitzky torna-se um defensor incondicional da obra, e, tomando em conta as palavras que o compositor escreveria numa carta daquela época, é reconfortante suspeitar de que ele ainda testemunharia uma parte deste enorme sucesso antes do seu falecimento, que viria a ocorrer a 26 de Setembro de 1945, em Nova Iorque: "Koussevitzky está muito entusiasmado e diz que é "a melhor peça para orquestra dos últimos 25 anos" (incluindo as obras do seu ídolo Shostakovich!)". Ainda assim, as últimas palavras dão-nos a sensação do algum ressentimento que ainda manteria pelo seu trabalho ter sido negligenciado, por contraste ao de Shostakovich e da sua Sinfonia nº 7, "Leninegrado", que com o seu "ridículo" (palavra feia, esta de Béla...) tema marcial, teria sido extraordinariamente bem acolhida devido aos sentimentos em tempos de guerra.
O nascimento deste Concerto para Orquestra representaria, assim, o triunfo da mente daquele homem sobre a matéria real da sua doença fatal. É extraordinário como Bartók, gravemente doente e com a vida a prazo, consegue criar uma das suas obras mais vibrantes e poderosas, sintetizando, ao mesmo tempo, tudo o que descobrira e aprendera durante mais de três décadas de estudo intensivo das canções populares e da música tradicional do leste europeu, escutadas segundo a tradição vienense, umas vezes, e através da inovação musical do séc. XX, noutras. Nas notas de programa para a estreia, escreveria: "Excluindo as brincadeiras do segundo andamento, o ambiente geral da obra representa uma transição gradual da severidade do primeiro andamento e da "lúgubre canção de morte" do terceiro, até à afirmação de vida do último".
Esta obra apresentaria cinco andamentos ao género de uma sinfonia, mas tratando, de maneira consciente e propositada, cada um dos instrumentos de forma concertante. Inicia-se [1] tranquila e misteriosa, com um tema tradicional húngaro nos contrabaixos, desenvolvendo-se em intensos apontamentos nos metais, ritmos herdados de uma dança popular búlgara e em harmonias do folclore romeno e eslovaco. O segundo andamento, Giuoco delle coppie: allegretto scherzando [2], ligeiro e airoso, destaca-se pelo "jogo de casais" mencionado por Bartók no título do andamento (nos editados até aos anos oitenta, pelo menos), onde os temas são apresentados aos pares, iniciando-se com a dança de roda dos fagotes, ao estilo do Kolo jugoslavo. Sobre este andamento, é interessante referir que após a consulta do manuscrito original, guardado na Biblioteca do Congresso, em Washington, George Solti apercebe-se de que o que Bartók teria na realidade escrito, seria: Presentando le coppie: allegro scherzando, uma "apresentação dos casais" que, de facto, mudaria a história sonora e tornaria a peça em algo diferente do que até aí era supostamente esperado. Seguir-se-ia o terceiro andamento [3], um nocturno pontuado por aparições de dor, possivelmente relacionadas com o contexto vivido pelo compositor naquele momento, quer fossem de ordem pessoal, com a desolação da doença, ou universal, com a ruina da cultura europeia naqueles dias negros da segunda guerra mundial. O quarto andamento [4] apresentaria melodias alegres, que entretanto seriam interrompidas por citações do tema da tal Sinfonia nº 7, "Leninegrado", que Shostakovich escrevera em 1941, e que Bartók ouvira numa transmissão radiofónica no Verão de 1943, enquanto compunha, ele próprio, o seu Concerto para Orquestra (destino dirão uns, timming perfeito dirão outros). Este tema, considerado banal pelo compositor, seria parodiado orquestralmente através da utilização de determinados efeitos, como glissandos e trilos, embora seja honesto dizer também, que a monotonia marcial do mesmo, já seria, ela própria, uma tentativa de Shostakovich em zombar com a pompa Nazi... ao ritmo de um bolero pelas botas da Wehrmacht. Contas feitas, e, no final, ficamos sem saber bem quem é que gozou com quem...
E o concerto chegaria ao fim no quinto andamento [5], com a celebração da vida e o triunfo sobre as visões obscuras do terceiro andamento e o humor grotesco do quarto, através do uso dos elementos concertantes e virtuosísticos que tão bem caracterizam esta odisseia sonora, e do "abuso" decorrente da derradeira "puxada de metais", introduzida nos vinte compassos finais que o compositor acrescentaria posteriormente... para, quem sabe, oferecer algum do glamour de Hollywood como forma de retribuição ao país que o acolhera e lhe servira de refúgio.
Aquele país certamente agradeceu... e a restante diversidade também. 
    
Nuno Oliveira     




"Concerto para orquestra, sz 116"


✨ Extractos que proponho para audição: 
  • Chicago Symphony Orchestra
  • Pierre Boulez
  • Deutsche Grammophon, 437 826-2 GH
✿"o belo": toda a obra (Da excelência dos pormenores até à explosão final. Boulez
                brilhante e uma Chicago Symphony verdadeiramente virtuosa. Um registo
                arrepiante, a não perder!), com alguns destaques, identificados a seguir;
                [1]: tutti, aos 0:00-... (Do início nocturnal dum adormecer...); aos 3:09, 4:15
                e 5:30 (...passando pelas várias etapas do sono...); aos 9:00 (...até ao súbito
                despertar!) [youtube]
                [2]: fagotes, aos 0:00-0:34 e 3:58-4:21 (...que dão voz à história!) [youtube]
                [3]: tutti, aos 0:00-... (E os mistérios sucedem-se com dinâmicas variadas...)
                [youtube]
                [4]: tutti, aos 0:00-... (...e ritmos multifacetados, até ao...) [youtube]
                [5]: metais, aos 0:00-0:66 (...Concerto da orquestra! Metais para começar...);
                tutti, aos 0:07-8:21 (...o virtuosismo de todas as vozes a seguir... (tímpanos
                inclusive aos 3:40-3:42)); metais e tutti aos 8:22-9:18 (até acabarmos no
                turbilhão eslavo "do" Vitória!) [youtube]






  • Chicago Symphony Orchestra
  • Georg Solti
  • Decca, 400 052-2 DH
✿"o belo": (O som poderoso e exuberante num registo superlativo pelos dois
                especialistas na matéria: o mestre Solti e a Chicago Symphony... uma vez
                mais. Uma referência para ouvir com atenção.)
                [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube], [4] [youtube], [5] [youtube]






  • City of Birmingham Symphony Orchestra
  • Simon Rattle
  • EMI, CDC 5 55094 2
✿"o belo": (Uma das maiores conquistas do mestre inglês ao vivo. Expressividade,
                emoção, detalhe e o reconhecimento merecido num aplauso final.
                Uma interpretação difícil de repetir, até mesmo para Rattle... Um minuto
                que o prova reside entre os 7:23-8:23 (brutal!). A não perder também.)
                [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube], [4] [youtube], [5] [youtube]






  • Philharmonia Orchestra
  • Hugh Wolff
  • Teldec, 9031-76350-2
✿"o belo": (Magnífica interpretação de Wolff e dos seus músicos londrinos. Som
                 vivo e ferocidade a condizer. Uma excelente escolha também.)
                [1-5] [allmusic]






  • Oslo Philharmonic Orchestra
  • Mariss Jansons
  • EMI, CDC 7 54070 2
✿"o belo": (Performance extraordinária dos músicos noruegueses sob direcção do mestre
                Jansons. Som cortante e uma proposta a ter em conta.)
                [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube], [4] [youtube], [5] [youtube]






  • Orchestre Symphonique de Montréal
  • Charles Dutoit
  • Decca, 421 443-2 DH
✿"o belo": (Interpretação excitante por um binómio sinónimo de qualidade. Se a isto
                juntarmos a providência divina da sonoridade da Igreja de S. Eustáquio, 
                então ficamos com um registo a ter em conta.)
                [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube], [4] [youtube], [5] [youtube]






  • Münchner Philharmoniker
  • Sergiu Celibidache
  • EMI, CDC 5 56528 2
✿"o belo": (Registo ao vivo em Munique onde se destacam os detalhes interpretativos
                e as idiossincrasias características do mestre romeno. Uma escolha a ter em
                conta e obrigatória para os apreciadores de Celibidache. Sou fã!)
                [Sequência ensaio] [youtube], [1-5] [amazon], [1-5] [discogs]





  
   
✰ Outras sugestões:




  • Paavo Järvi/Cincinnati Symphony Orchestra/Telarc, CD-80618 (A visão diferente de Järvi, sentida de perto no Finale.), [2] [youtube], [3] [youtube], [4] [youtube], [1-5] [Spotify],            [1-5] [iTunes]




  • Andrew Davis/Royal Stockholm Philharmonic Orchestra/Finlandia, 0630-14909-2 (Um registo interessante a descobrir.), [1-5] [Spotify], [1-5] [allmusic]






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Béla Bartók [Nova Iorque, 1945]




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"O Pirata e o Ladislav junto dos seus, em Monte Gordo" [Agosto, 2010]



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sábado, 27 de março de 2021


51. Tchaikovsky: sinfonia nº 5 |

A 5ª de Tchaikovsky: directa ao coração de Nadezhda e fatal como o destino de Modest... "cunhada" nas duas faces da moeda de Pyotr Ilyich.






Para a Xana...
... com muitos beijiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinhos da malta cá de casa, que gosta muito de ti.

É bem provável que esta obra seja a que mais vezes assisti ao vivo, interpretada por várias orquestras nacionais e estrangeiras, e, no entanto, chega a ser curioso como a apresentação que mais me tenha marcado até hoje continue a ser a primeira, um concerto no TAGV, em Coimbra, numa noite inesquecível de Julho de 1998, com a Orquestra Nacional do Porto e o maestro (o enorme!) Michael Zilm. Tu estavas lá connosco, e o brilho que tinhas nos olhos após o final do concerto (de quem descobre um mundo novo...), fariam já imaginar que por aquela altura, longe dali, em Salzburgo, se ouvia uma outra 5ª... impossível de igualar. 






Pressiono o Play e logo começo a perceber que, ao longo da vida, poucas terão sido as conversas à volta de sumptuosidade melódica e mensagem emotiva, que não tenham acabado obrigatoriamente em Pyotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893). Com efeito, se admitirmos que o impacto de um ser humano sobre outro pode ser quantificado através da velocidade de um pensamento deste último sobre o primeiro, então seremos capazes de imaginar a dimensão de um pensamento que surge de forma automática, e, desta forma, avaliar a importância que Tchaikovsky terá sobre muitos de nós. Ora, se os científicos "anos luz por nano-segundo" ficam aquém do filosófico "automático", uma possível conclusão será...: "- Sim, eu sei... os excessos do romantismo fazem-me muitas vezes exagerar".
Por outro lado, para além de índices de velocidade, poderíamos explorar também níveis de frequência, uma aproximação de igual modo possível, e a ter em conta numa próxima oportunidade Tchaikovskyana.
Se atendêssemos exclusivamente à fama que as sinfonias de Tchaikovsky possuem nos nossos dias, ficaríamos com uma percepção muito distante da realidade vivida por aquele compositor. Em boa verdade, apesar do seu reconhecimento internacional, fruto da boa aceitação das suas obras para voz e da sua música de câmara, a falta de aceitação, e consequente fracasso, das suas quatro primeiras tentativas sinfónicas, culminadas na (hoje) aclamada quarta sinfonia de 1878, faria com que o compositor abandonasse esse género musical durante uma década. Passar-se-iam, assim, dez anos de solidão (sinfónica, entenda-se), até à chegada de 1888, e, com ele, a criação da sua quinta sinfonia, o receptáculo aparente da compressão de noventa (valor que dá jeito à narrativa...) anos de solidão emocional (admissível, neste caso, ou não se tratasse de Tchaikovsky, de alguém convencido do seu declínio criativo logo a partir das primeiras linhas de música que escreveu...), que acrescentados aos temporais dez já existentes, formariam, desta forma, a banda sonora adequada para retratar possíveis "Cem anos de solidão" (de García Márquez ou de outros que tais), à condição de que durante o percurso, claro está, se constatassem a presença de personagens atormentadas e de vastos sentimentos de culpa, semelhantes aos encontrados na família "Buendía".
Durante o Inverno e os primeiros meses da Primavera de 1888, que precederam a composição desta obra, poderíamos encontrar o compositor em tournée por cidades como Leipzig, Hamburgo, Berlim, Londres, Paris ou Praga, ouvindo a sua música, dirigindo-a muitas vezes e travando conhecimento com algumas das principais figuras musicais da época, como seriam os exemplos de Brahms, Grieg ou Busoni. Por esta altura, teria já tido conhecimento, também, de que o Czar Alexandre III lhe teria garantido a independência financeira que a atribuição de uma pensão vitalícia de 3000 rublos assegurava, apesar das suas características depressivas não lhe permitirem a aguardada satisfação, como, aliás, viria a escrever ao seu irmão mais chegado, Modest: "A minha consciência preocupa-me porque penso que não o mereço".
Em Abril retornaria a casa, mais concretamente à sua casa de campo em Frolovskoye, situada a cem quilómetros a noroeste de Moscovo, recentemente adquirida apesar de supostas incertezas morais ou dúvidas éticas, evitáveis quando se autorreconhece o muito trabalho que dá ter o valor que alguém afirma testemunhar. Com efeito, a falta de autoestima e as dúvidas profissionais, hoje reconhecidamente infundadas, viriam a marcar de forma dolorosa a vida trágica de Pyotr, ao que os conflitos emocionais ligados ao secretismo da sua homossexualidade, retratada na sua correspondência por "Z" (a derradeira letra do alfabeto da vida, que o suicídio, mais tarde, viria dramaticamente confirmar), seguramente não iriam ajudar. 
E seria neste ambiente agridoce, porventura mais doce que agre, que Tchaikovsky tomaria coragem e escreveria a sua Sinfonia nº 5, em mi menor, op. 64, entre Abril e Julho, uma obra-prima e a sua sinfonia mais popular num relâmpago de quatro meses, com a consciência porventura menos pesada e a convicção reflectida nas palavras que escreveria à sua maior amiga, e patrona que sempre o motivara, Nadezhda von Meck: "A sinfonia está pronta, parece-me que não falhei e que está boa". Neste caso, prevaleceria o optimismo surreal daquela amiga, tão diferente de si, em desfavor do pessimismo duma realidade espelhada naquele irmão, tão parecido consigo, tão escondido de si mesmo como também o era ele, de igual modo encerrado numa homossexualidade que não poderia ter lugar naquele tempo e tempo naquele lugar. Vinte anos depois da sua morte, quis o destino, irónico como sempre, aquilo que o grande empresário dos Ballets Russes, Sergei Diaghilev, escreveria a partir de Paris: "Tchaikovsky cometeu suicídio por medo da sua homossexualidade ser descoberta; contudo, hoje em dia, se fores um compositor e não fores homossexual é melhor que metas uma bala na cabeça". Dá vontade de rir apesar de só pensarmos em chorar.
A obra viria a ser estreada em S. Petersburgo, a 17 de Novembro desse ano, com a direcção do compositor, e apresentada em Praga logo depois. Apesar do público dessas duas cidades ter acolhido a música de forma calorosa, as opiniões frias que seriam emitidas pela irmandade costumeira de críticos, iriam, uma vez mais, afectar a frágil confiança do compositor, todavia, por pouco tempo, e apenas até às apresentações que se seguiriam em Moscovo, com semelhante calor pelo público e contrária apreciação pela imprensa, que neste caso se mostraria favorável, culminando na ovação sem precedentes que viria a ocorrer em Hamburgo, mesmo que para isso possa ter possivelmente contribuído a dedicatória a Theodor Avé-Lallemand, o presidente da Sociedade Filarmónica local, um dos seus inúmeros admiradores estrangeiros e aquele que o teria tentado persuadir a sair da Rússia para se instalar permanentemente na Alemanha. A reacção do público germânico seria o pronuncio do que viria a acontecer mais tarde: em apenas um ano, as suas melodias já eram assobiadas um pouco por toda a parte, conferindo deste modo à sua formula "simples" (a genialidade é isso mesmo) o sucesso que tantas vezes teria desejado (...mas que certamente julgaria não merecer).
De facto, Tchaikovsky viria a utilizar uma linguagem formal e facilmente compreensível, em que o fim de um andamento antecipa o inicio do andamento seguinte, apesar do tema principal, em tom menor e apelidado de "Destino", escutado em todos eles, não servir tanto como elemento unificador, mas, pelo contrário, como elemento disruptivo (...fatal, como só ele próprio), como alguém que não segue a corrente mas que se intromete sempre com as perguntas certas, desde o início pessimista do primeiro andamento ("A total submissão perante o Destino...", escrita pelo próprio numa nota programática introdutória, como era seu costume), passando pela nostalgia do segundo ("Deveria lançar-me no abraço da FÉ?", uma frase registada, também pelo autor, no esboço da obra) e a leveza do terceiro, até se chegar ao quarto andamento e à resposta final, de que, afinal, sempre haverá esperança enquanto se encarar o fado em tom maior. Eu, pelo menos, gosto de pensar assim.
Todo este conjunto de acontecimentos só poderia dar nisto: uma das obras do reportório sinfónico mais amadas por todos aqueles que ainda se atrevem a sonhar de olhos abertos, ouvidos atentos e imaginário ilimitável. Parece exagero? Poderia ser, mas neste caso não. É mesmo assim... experimentem e me dirão...
 
Nuno Oliveira     
       



"Sinfonia nº 5, em mi menor, op. 64"


✨ Extractos que proponho para audição: (nota: ver também publicações nº 4, 22 e 74)
  • Wiener Philharmoniker
  • Valery Gergiev
  • Philips, 462 905-2 PH
✿"o belo": toda a obra (O registo ao vivo, no Festival de Salzburgo, do dia em que a
                Filarmónica de Viena e Gergiev representavam o melhor que o mundo tinha
                para oferecer. Imperdível!), com alguns destaques, identificados a seguir;
                [I]: tutti, aos 0:00-2:51 (Suores frios e dores no peito... É necessária uma pausa
                para respirar? "Sim, por favor!"- responderam maestro, músicos e público, aos 
                1:29-1:33); metais (preciosos vienenses!), aos 4:01-4:43, 6:55-7:18, 8:04-8:18,
                8:51-9:13 e 12:54-13:18; cordas (e as valsas habituais daquelas paragens!),
                aos 12:07-12-43 [youtube]
                [II]: tutti e trompa, aos 0:00-2:13 (E Deus criou "o belo". Mítico!) [youtube]
                [III]: tutti (A leveza e serenidade antes do grande final.) [youtube]
                [IV]: tutti, aos 3:00-3:26 (Humores...); metais (nobres vienenses!), aos 5:22-5:43;
                tutti, aos 8:51-... (Velocidades estratosféricas e...) e 9:22-12:00 (...a inesquecível
                apoteose final!) [youtube]






  • Oslo Philharmonic Orchestra
  • Mariss Jansons
  • Chandos, CHAN 8351
✿"o belo": (Registo vivo e excitante, tempos seguros, rubatos expressivos e níveis de
                bravura a fazer lembrar os tempos de Leninegrado e o seu mestre Evgeny
                Mravinsky. Um Jansons a não perder.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • West-Eastern Divan Orchestra ou Chicago Symphony Orchestra
  • Daniel Barenboim
  • Warner, 2564 62190-5 ou Teldec, 20831-1548-2
✿"o belo": (As leituras emocionantes de duas apresentações ao vivo memoráveis e
                inspiradoras. Barenboim como nos habituou, e os músicos de Chicago,
                do Este e do Oeste, imaculados. Histórico e a não perder também.)
                Warner: [I-IV] [allmusic]
                Teldec: [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]







  • Simón Bolivar Youth Orchestra of Venezuela
  • Gustavo Dudamel
  • Deutsche Grammophon, 477 8022 GH
✿"o belo": (A impetuosidade e o delírio do primeiro amor só poderiam dar nisto... 
                Surpreendentes estes jovens Venezuelanos? "Olhe que não... olhe que
                não" (eles são já uma afirmação). Ao vivo e simplesmente electrizante.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Bournemouth Symphony Orchestra
  • Andrew Litton
  • Virgin, VC 7 91140-2
✿"o belo": (Interpretação calorosa, andamentos lentos extraordinariamente calmos,
                valsas delicadas e articulação perfeita. Uma escolha a ter em conta.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Berliner Philharmoniker
  • Claudio Abbado
  • Sony, SK 66276
✿"o belo": (Uma performance irrepreensível. A escola de Abbado no seu melhor.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]



 


  • Wiener Philharmoniker
  • Herbert von Karajan
  • Deutsche Grammophon, 415 094-2 GH
✿"o belo": (Uma interpretação intensa e excitante, a demonstrar o quanto o mestre
                apreciava esta música. Uma belíssima opção.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]





 
   
✰ Outras sugestões:




  • Claudio Abbado/Chicago Symphony Orchestra/Sony, SK 42094 (O ensaio de 1985 em Chicago. A visão está lá. A tensão há-de vir depois, em Berlim.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]




  • Otto Klemperer/Philharmonia Orchestra/EMI, CDM 5 67032 2 (O romantismo que floresce e a trompa de Alan Civil em 1963.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]




  • Riccardo Chailly/Vienna Philharmonic/London, 410 232-2 LH (Destaque para a sonoridade penetrante da orquestra vienense e a clareza impressionante da Sofiensaal. O primeiro minuto do segundo andamento é de antologia.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






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P. I. Tchaikovsky [1888]





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"Dona Xana e os seus dois amores".



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sábado, 27 de fevereiro de 2021


50. Mendelssohn: Um sonho de uma noite de Verão |

"Um sonho de uma noite de Verão" que Shakespeare um dia escreveu e que Mendelssohn uma vida folheou... para que outros continuassem ainda a sonhar. 






Para a Madalena.

...no dia do seu neto João, o filho de um sonho de uma noite de Verão.  






Se a admiração de Felix Mendelssohn (1809-1847) pela obra de William Shakespeare pode ser compreendida pelo culminar de uma infância feliz e culturalmente cultivada, fruto da leitura frequente, em família, das obras do dramaturgo inglês nas traduções de August Schlegel (o irmão do tio Friedrich), e da intimidade com Goethe e Hegel que apenas as suas amizades poderiam proporcionar, já a particular adoração por Um sonho de uma noite de Verão só poderá ser explicada pelo fascínio de Felix por aquele enredo, que seria mais ou menos assim: Teseu, o Duque de Atenas, e Hipólita, a Rainha das Amazonas, encontram-se nas vésperas do seu casamento que viria a decorrer naquela cidade; Hérmia ama Lisandro mas o seu pai, Egeu, exige que esta se case com Demétrio; este impasse obriga Teseu a intervir; ou ela casa, ou ela morre, ou ela isola-se e renega o amor para sempre (...sim, sempre ela e eles nada); sem opções, Lisandro combina fugir com Hérmia para a floresta encantada; Hérmia conta a sua intenção à amiga Helena, que, por sua vez, é apaixonada por Demétrio; Helena, porventura de forma pouco inteligente, denuncia a fuga a Demétrio e os quatro entram na floresta encantada, o domínio de Oberon, o Rei dos duendes, e lar do elfo Puck; Oberon e Puck combinam uma travessura a infligir a Titânia, Rainha das fadas e esposa de Oberon, que passaria pela utilização de uma flor mágica que faz com que qualquer um se apaixone pelo primeiro ser que vê à sua frente; este plano faz com que Titânia se apaixone perdidamente por um burro falante, que mais não é do que o maior egocêntrico da trupe de artesãos e actores amadores que ensaiavam uma peça para o casamento de Teseu e Hipólita, aqui transformado por Puck (num burro, relembro); o travesso Puck volta a fazer das suas com a flor mágica, baralha-se e provoca a paixão de Lisandro por Helena, armando maior confusão entre os casais; Puck retrata-se das confusões que provocou; Lisandro faz par com Hérmia, Demétrio com Helena e Titânia faz as pazes com Oberon; Puck resta como o que mais se divertiu numa trama que mais não teria sido do que "um sonho de uma noite de Verão". Difícil não gostar, não é.
Desta forma, não será, seguramente, também difícil de visualizar, o manuscrito Shakespeariano debaixo do braço de Felix durante os percursos que o próprio faria entre as salas de aula da Universidade de Berlim, onde, nos intervalos, uma Abertura começaria a ganhar a forma musical para os dois pianos da família, o seu e o da sua irmã Fanny, como, aliás, a teria já feito suspeitar através de uma carta que anteriormente lhe teria escrito: "Hoje ou amanhã vou começar a sonhar um sonho de uma noite de Verão...". Suspeitas razoavelmente fundadas, admito eu.
Estávamos em 1826 quando os dois irmãos leem juntos a obra de Shakespeare e Felix adormece no sonho prometido ao colo de Fanny (uma proximidade aparentemente censurável, que alguma correspondência faria suspeitar...), a sua alma gémea e também ela uma pianista talentosa. Naquele Verão, a composição para orquestra da Abertura para Um sonho de uma noite de Verão, op. 21, tornar-se-ia no ponto alto de uma época certamente bem aproveitada pelo jovem compositor, como se de um "dia festivo sem pausas, repleto de poesia, música, peças instigadoras e brincadeiras espirituosas, guarda-roupa e actuações" se tratasse (dito pelo próprio, e, por esse motivo, de considerável veracidade).
Aqueles sons, representados brilhantemente numa partitura por um jovem igualmente iluminado, ouvir-se-iam pela primeira vez nos jardins da casa da família Mendelssohn, em Berlim, por uma orquestra e uma audiência composta exclusivamente por familiares e amigos, ficando a estreia pública reservada para 26 de Agosto desse ano, em Stettin, na Prússia (hoje Szczecin, na Polónia), sob a direcção de Carl Loewe, o famoso organista da catedral daquela cidade, naquele que seria o primeiro concerto público de Felix como músico, e, onde, para além daquela estreia, ainda se ouviriam o seu concerto para dois pianos, interpretado pelo próprio e por Loewe, o Konzertstück em fá menor para piano e orquestra de Weber, com Felix de novo ao piano, e a nona sinfonia de Beethoven, com Felix a sentar-se na estante dos primeiros violinos. Nada que um prodígio não conseguisse realizar...
Ora, sobre esta tirada de génio do adolescente Felix de dezassete anos, que faria sensação desde a sua estreia, poucos esperariam que se voltasse a repetir dezassete anos depois, desta vez pelo Herr Mendelssohn, com trinta e quatro, mergulhado uma vez mais e de forma igualmente genial naquele mundo de elfos, duendes e fadas, à semelhança do que tivera feito de forma inovadora e inimitável muitos anos antes. A maioria que o não esperaria enganar-se-ia claramente, já os que tivessem percebido de que afinal aquele livro nunca lhe teria verdadeiramente saído debaixo do braço, teriam feito jackpot. No fundo tratava-se ainda daquele Felix Mendelssohn, o único daquela idade a conseguir provocar uma revolução na sensibilidade musical com tamanho sucesso, numa escala a que nem mesmo Mozart, também ele possuidor de uma maturidade musical precoce, tivesse porventura imaginado que pudesse vir a acontecer. Bastava folhear novamente aquelas páginas mágicas e toda a música surgiria de forma natural... ou melhor, sobrenatural...
Na realidade, não existem evidências de que o jovem Felix estaria a pensar numa produção teatral quando escreve a Abertura (op. 21). Esta questão só se tornaria pertinente em 1843, no momento em que o Imperador Frederico Guilherme IV da Prússia decidiu apresentar a peça de Shakespeare no Palácio Novo, em Potsdam, pelo que, e apesar da elevada actividade inerente às suas responsabilidades como Maestro da Orquestra da Gewandhaus de Leipzig, Director do Conservatório e Director Geral da Música da Prússia, Mendelssohn acabaria por aceitar a encomenda para a Música de cena (op. 61), cuja estreia viria a dirigir a 14 de Outubro desse ano.
A música para Um sonho de uma noite de Verão (Abertura, op. 21 e Música de Cena, op. 61), é composta por onze quadros (existem ainda alguns melodramas, perfazendo um total de dezoito partes). Inicia-se com a Abertura [1], que nos dá uma imagem geral do conto de fadas de Shakespeare, com algumas ilustrações de sombra e de luz que serão sentidas pelas personagens da história. O 2º acto, que é passado numa floresta encantada próxima de Atenas, abre com um Scherzo [2]. O diálogo mágico entre o elfo Puck e uma fada é transformado em música sublime, numa atmosfera de suave sensibilidade para com a natureza à qual se juntam as travessuras dos protagonistas. Seguir-se-ia o momento da acção com Oberon, Titânia e correspondente comitiva élfica, para a qual o compositor escreveria a maravilhosa Marcha dos Elfos [3]. O momento do drama onde Titânia se retira para dormir é seguido por uma canção de encantar com solistas e coro feminino (Lied mit Chor) [4], na qual os pequenos elfos lutam com animais ameaçadores, numa melodia simples e de escuta viciante... quando interpretada pelas melhores vozes (como são exemplos Sandrine Piau e Delphine Collot). No final do 2º acto, quando Hérmia acorda na floresta, depois de um pesadelo, para descobrir que teria sido abandonada por Lisandro, Mendelssohn introduz um Intermezzo [5] que expressaria não só o medo e desapontamento de Hérmia, mas também a sua determinação. Chega um Nocturno [6], o silêncio espalha-se por toda a cena e os casais, cansados e confusos, adormecem na floresta. A esta suave envolvência, seguir-se-ia o forte contraste provocado pela fanfarra introdutória da Marcha nupcial (uma marca por si só...) [7] de Teseus e Hipólita. Depois da Fanfarra [8] e da Marcha fúnebre [9] (que, convem explicar, acompanharia uma tragédia ocorrida na peça que entretinha os convidados da boda... luz e sombra de novo. Cómico? No mínimo, surreal...), chegaria a Dança dos palhaços [10] (Mendelssohn apelidaria os artesãos-actores desta forma...) e o conclusivo Finale [11], que reuniria fragmentos da Abertura acrescidos por um "coro de fadas", até ao baixar do pano, com suaves harmonias nos sopros a fazer recordar o inicio da obra.
A fantasia tímbrica da orquestração em andamentos como o Scherzo e a Marcha dos Elfos, com os seus trilos e trompas "élficas", revela distinções entre instrumentos de época e instrumentos modernos com excepcional clareza. Por outro lado, a utilização do oficleide, o precursor da tuba moderna, demonstraria uma vez mais a originalidade e curiosidade de Mendelssohn, materializada, neste caso, num instrumento patenteado pela primeira vez apenas alguns anos antes, em Paris.
Com efeito, Franz Liszt viria a referir "numa bela ocasião": "...não existiu ninguém que conseguisse igualar a sua habilidade para retratar a neblina do arco-íris e o brilho nacarado destes pequenos duendes, ninguém que conseguisse reproduzir a celebração de um casamento na corte tão bem quanto ele".
Um comentário compreensível, embora controverso... sobre a verdade de uma proeza aos dezassete, que jamais alguém alcançará. (!) (?...)
  
Nuno Oliveira

                          



"Um sonho de uma noite de Verão", Abertura, op. 21 e Música de cena, op. 61.


✨ Extractos que proponho para audição: (ver também publicações nº 48, 70 e 82)
  • Sandrine Piau, Delphine Collot
  • Orchestre des Champs-Élysées, Choeur da la Chapelle Royale & Collegium Vocale Gent
  • Philippe Herreweghe
  • Harmonia Mundi, HMX 2901502
✿"o belo": toda a obra (Vozes verdadeiramente de encantar, ensemble instrumental de
                época de classe mundial, direcção distinta do mestre Herreweghe e o ambiente 
                de conto de fadas do Théâtre des Champs-Élysées. Uma maravilha a não
                perder!), com alguns destaques a seguir;
                [1] - tutti, aos 0:00 - 12:23 (Magia no ar... sombra, luz e tudo o resto que existe
                entre as duas!), aos 5:55 - 6:26 (Demasiada emoção para os dezassete!?) [youtube]
                [2] - tutti, aos 0:00 - 4:57 (As conversas num dialecto mágico que todos entendem...
                será esta "a bela" linguagem universal?) [youtube]
                [3] - tutti, aos 0:00 - 1:21 (A banda sonora de mistérios que não são deste Mundo...)
                [youtube]
                [4] - vozes solistas, aos 0:00 - 4:09 (Seres perigosos, não se aproximem... Rouxinóis,
                boa noite e durmam bem. Piau e Collot magníficas! "o belo" é assim!) [youtube]
                [5] - tutti, aos 0:00 - 3:27 (Sentimentos variados e um génio que se mostra mais uma 
                vez!) [youtube]
                [6] - trompas, aos 0:00 - 1:31 e 3:00 - 4:44 (Lullaby and horns? YES!) [youtube] 
                [7] - tutti, aos 0:00 - 4:40 (Uma Ⓡ que dispensa apresentações!) [youtube] 
                [8] - [youtube], [9] - [youtube] 
                [10] - tutti, aos 0:00 - 1:42 (Dança com cheirinho a apoteose...) [youtube] 
                [11] - tutti, aos 0:00 - 4:44 (... e viveram felizes para sempre!) [youtube]    






  • Pamela Coburn, Elisabeth von Magnus
  • The Chamber Orchestra of Europe, Arnold Schoenberg Chor
  • Nikolaus Harnoncourt
  • Teldec, 9031-74882-2
✿"o belo": (Muito drama, mas também leveza e articulação por uma orquestra virtuosa
                dirigida por um dos grandes especialistas deste reportório: Harnoncourt. Um
                dos seus melhores registos. A adquirir sem receios.)
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  • Edith Wiens, Christiane Oertel
  • Gewandhausorchester Leipzig, Rundfunkchor Leipzig
  • Kurt Masur
  • Teldec, 2292-46323-2 (versão completa)
✿"o belo": (Uma interpretação maravilhosa. A elevada qualidade do coro e orquestra
                "de Mendelssohn" e da referência que é o mestre Kurt Masur sobressaem.)
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  • Arleen Augér, Ann Murray
  • Philharmonia Orchestra, Ambrosian Singers
  • Neville Marriner
  • Philips, 411 106-2 PH (versão inglesa)
✿"o belo": (Um registo admirável da versão inglesa por interpretes esclarecidos,
                dirigidos magistralmente pelo mestre Marriner. Versão a ter em conta.)
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  • Heather Harper, Janet Baker
  • Philharmonia Orchestra & Chorus
  • Otto Klemperer
  • EMI, CDC 7 47230 2 (versão inglesa)
✿"o belo": (Gravação icónica de 1960. Vozes sublimes e refinamento orquestral num
                registo da versão inglesa a conhecer.)
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  • Lucia Popp, Marjana Lipovsek
  • Bamberger Symphoniker & Chorus 
  • Claus Peter Flor
  • RCA, 07863 57905 2 (Abertura, op. 21), RD87764 (versão completa)
✿"o belo": (Uma orquestra radiante e intimismo, naquela que é, porventura, a
                gravação da vida de Claus Peter Flor. A não perder.)
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  • Eva Lind, Christine Cairns
  • Wiener Philharmoniker & Jeunesse-Chor
  • André Previn
  • Philips, 420 161-2 PH (versão completa)
✿"o belo": (A sonoridade cheia que só o Muzikverein oferece numa interpretação
                articulada da mítica orquestra vienense. Uma boa opção.)
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  • Lynne Dawson, Susanne Mentzer
  • Rotterdam Philharmonic Orchestra & Philharmonisch Koor Toonkunst Rotterdam
  • Jeffrey Tate
  • EMI, CDC 7 54393 2 (versão inglesa)
✿"o belo": (Som ressonante e interpretação espirituosa onde se "respira" magia.
                Basta ouvirmos as trompas no Nocturne [6] para percebermos isso.)
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✰ Outras sugestões:




  • Judith Blegen/Florence Quivar/James Levine/Chicago Symphony Orchestra & Chorus/Deutsche Grammophon, 415 137-2 DH (Extractos da versão inglesa. Som quente e interpretação a condizer. A trompa de Dale Clevenger no Nocturno deixa saudades.), [1] [youtube], [2] [youtube], [4] [youtube], [5] [youtube], [6] [youtube], [7] [youtube], [11] [youtube]




  • Armin Jordan/Orchestre de la Suisse Romande/Erato, 4509-91734-2 (Uma alternativa aos extractos da obra por Jordan e os músicos suiços.), [2] [youtube], [6] [youtube], [7] [youtube]










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Felix Mendelssohn em jovem [Eduard Bendemann, 1833]





Felix Mendelssohn [p/ cunhado e marido de Fanny, Wilhelm Hensel, 1847]







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Uma parte da Madalena e do João no Théâtre des Champs-Élysées, Paris [Abril, 2014].


🧚?✓. 👺?✓. 🧝?✓. ...?✓. ?!✓! + 👸?✓ = ∑💘👪
(PS: escrito numa espécie de élfico dos nossos tempos 😃)



Revolução habitual em Tavira [Agosto, 2014].



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