sábado, 19 de setembro de 2020


38. Brahms: concerto p/ violino |

O concerto para violino de Johannes Brahms e os correspondentes sinónimos de Joseph Joachim. Amigo? Aliado? Partidário? Adepto? Confrade? Sócio? Talvez sim, talvez não... talvez irmão...






Para os jovens violinistas que em breve regressarão à aprendizagem d'"o belo" instrumento um pouco por toda a parte, e em particular para o meu Mémé: que o ano escolar que se inicia seja um sucesso e que o resultado alcançado seja aquele que ambicionas...
... por isso: ambiciona bem, se faz favor!


(E à lembrança do concerto a solo, que realizaste em Março de 2018 com a Orquestra de Cordas do Conservatório de Seia. Estavas a um mês de fazeres 12 anos, e a partitura de Küchler que ouvimos foi a melhor prenda que deste aos teus pais.) [24-3-2018])


[E para ti, avô, que por aquela altura estarias também a um mês de fazeres 94.]






Escrito depois das suas duas primeiras sinfonias, do seu concerto para piano nº 1 e do seu Requiem Alemão, o concerto para violino de Johannes Brahms (1833-1897) reflectiria o topo da capacidade artística e do domínio da escrita musical do compositor alemão, que naquela altura contava já com 45 Verões de idade (...pois embora a proposta dum concerto para violino por um jovem compositor, depois da obra-prima de Beethoven, não causasse medo a alguns poucos, por certo causaria algum receio a muitos outros...). E seria, então, num Verão, no de 1878 durante as férias passadas na localidade austríaca de Portschach, no Worthersee, que Brahms viria a compor o seu concerto para violino, op. 77, curiosamente no mesmo local onde um ano antes teria escrito a sua magistral sinfonia nº 2, op.73, e onde em 1879 viria a compor a belíssima sonata para violino nº 1, op. 78, o que nos leva a acreditar que aquela estação turística seria um dos melhores "spots" criativos disponíveis... pelo menos durante os meses mais quentes.
Inspirando-se no violino ao estilo de Bach (teria, inclusive, feito um arranjo da chaconne da Partita para piano em ré menor, em 1877), Viotti e Beethoven (uiiii... que medo!?), este concerto germinaria lentamente, sendo que, e um pouco à semelhança do seu concerto para piano em ré menor escrito vinte anos antes, Brahms viria novamente a lutar para ultrapassar o mesmo problema de sempre: como conciliar a escrita virtuosística do instrumento solista com a articulação sinfónica adequada ao gosto brahmsiano. A solução seria alcançada com a preciosa ajuda do violinista Joseph Joachim, "o" virtuoso germânico da época, cujo aconselhamento autoritário (directamente proporcional ao grau virtuosístico, depreenda-se) viria a contribuir para o resultado de que todos poderão já suspeitar: a criação de uma obra arrebatadora, na qual a mestria violinística e o destemido desafio técnico (...e que técnica!) de Joseph, são utilizados de forma reflectida no exuberante cenário musical imaginado (... e que imaginação!) por Johannes.
Na realidade, a grande amizade entre Brahms e Joachim começaria com outra grande amizade, desta feita, entre Brahms e Reményi. Joachim teria sido apresentado a Brahms por Eduard Reményi, um violinista virtuoso de origem húngara, que após ter fugido do seu país devido a um suposto envolvimento na revolução de 1848, viria a dar a mão ao remediado jovem Johannes, que naquela época ganhava parcamente a vida como pianista de taberna e professor particular, contratando-o como seu pianista acompanhador nas tournées que realizaria um pouco por toda a parte, e transpositor à primeira vista de sonatas de Beethoven, umas vezes meio tom acima, outras meio tom abaixo, dependendo do artefacto artístico (para não lhe chamar piano...) que a cada noite a fortuna lhe reservasse. O biografo Karl Geiringer viria a referir também, que teriam bastado apenas alguns dias para que a ligação de uma vida entre Brahms e Joachim se tivesse formado, uma ligação espelhada na alegria de Brahms: de alguém que experiencia um entendimento artístico perfeito pela primeira vez.
Não seria surpreendente, portanto, que o concerto viesse a ser dedicado a Joachim, ou não se tratasse de uma obra de um talento virtuosístico extremo, acompanhado de um rico, e, no entanto, polido, ambiente orquestral, como tão bem diria o violinista e maestro Yehudi Menuhin (...pois haveria melhor contribuição com o seu testemunho, do que alguém dos dois mundos? Porventura não.): "... um pedaço de barro macio que deve ser moldado durante a interpretação, sendo necessários um maestro e uma orquestra de grande talento para lhe fazer justiça...". E essa justiça ter-lhe-á sido feita na apresentação de estreia, no dia de Ano Novo de 1879 em Leipzig, com o violino de Joachim e a direcção do próprio Brahms, tendo sido recebido de forma respeitosa embora pouco entusiástica. Joachim viria a interpretar o concerto inúmeras vezes ainda, com o intuito de estabelecer a obra no reportório para o instrumento, obra esta que só viria a ocupar definitivamente o lugar merecido (1º?, 2º?... acrescento eu), quando, mais tarde, outros violinistas notáveis se terão apercebido, à semelhança de Joachim, da sua real grandiosidade.
Inicialmente previsto em quatro andamentos, este concerto viria a apresentar os três andamentos finais, todos de um elevado poder expressivo, após a supressão de um scherzo e da revisão do andamento lento pelo compositor. O primeiro andamento destaca-se pela introdução orquestral, de um lirismo tipicamente brahmsiano, que conduz à entrada destemida do violino solista em modo cadenza-joachimniana, e o desaguar num mar de sentimentos poderosos logo a seguir. No segundo andamento, um lento, a melodia é lançada pelo famoso solo de oboé, que seguramente (... porque me vem ao ouvido um talento chamado Hans-Jorg Schellenberger) servirá de inspiração para o violino que lhe segue, ora receoso... ora dialogante, umas vezes introvertido... outras apaixonado, sempre memorável! (Durante os 8:15 do "Jovem" Heifetz, de 54 anos, e os 11:19 do "Senhor" Kennedy, 20 anos mais novo). O terceiro andamento final apresenta uma deliciosa dança eslava, sugerindo melodias húngaras (Em forma de agradecimento ao amigo Eduard? Quero acreditar que sim!) de humor invariavelmente tenso e relaxado, num originalmente: "Allegro giocoso", do artífice genial Johannes Brahms, ao que o talento engenhoso Joseph Joachim, acrescentaria: "Ma non troppo vivace? Se não é difícil...". "o belo" que é ter amigos que gozam connosco assim...    

Nuno Oliveira




"Concerto p/ violino, em ré maior, op. 77"


Extractos que proponho para audição:
  • Maxim Vengerov
  • Chicago Symphony Orchestra
  • Daniel Barenboim
  • Teldec, 0630-17144-2
"o belo": toda a obra (Paleta repleta de... tudo: magnetismo, tensão, espontaneidade,
                excitação... Uma interpretação de extremos, bravura imediata e puro lirismo
                a seguir, mas sempre a inspiração romântica de Vengerov. Um triunfo!);
                I - violino, tutti, (Inspiração aos: 2:46, 4:58, 5:56, 6:47, 6:55, ...[youtube]
                II - violino, tutti (Sonho aos: 0:09, 2:20, 5:50, ...[youtube]
                III - violino, tutti (Recordação aos: 0:01, 1:25, 4:47, ...) [youtube]






  • Renaud Capuçon
  • Wiener Philharmoniker
  • Daniel Harding
  • Virgin, 50999 9733962 5
"o belo": (A poesia sublime de um violino perdido em pensamentos de paixão.
               Orquestra superlativa e timbre solístico viciante. A bravura está lá, mas
               o suave embalo também (como "o belo" aos 20:24-21:55). Imperdível.)
               I [youtube], II [youtube], III [youtube]






  • Joshua Bell
  • The Cleveland Orchestra
  • Christoph von Dohnányi
  • London, 444 811-2 LH
"o belo": (Subtileza e sonoridade doce, espontaneidade e sentimentos profundos...
               Por favor, toquem os "sinos" em homenagem a Bell!)
               [youtube], II [youtube], III [youtube]






  • Hilary Hahn
  • Academy of St Martin in the Fields  
  • Neville Marriner
  • Sony, SK 89649
"o belo": (Pureza, precisão, detalhe e magnetismo do primeiro ao último compasso.
                O que eu gosto desta rapariga!)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube]






  • Jascha Heifetz
  • Chicago Symphony Orchestra
  • Fritz Reiner
  • RCA, RD85402
"o belo": (Virtuosismo lendário de Heifetz, graciosidade e tensão elevada,
                acompanhados por Reiner e uma CSO em topo de forma.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube]






  • Itzhak Perlman
  • Chicago Symphony Orchestra ou Berliner Philharmoniker
  • Carlo Maria Giulini ou Daniel Barenboim
  • EMI, CDC 7 47166 2 ou CDC 7 54580 2
"o belo": (Entre o estúdio e o ao vivo, entre a exuberância e a introspecção, a beleza do
                som do oboé de Schellenberger e a expressividade do mestre Perlman. Bravo!)
                Giulini: I [youtube], II [youtube], III [youtube]
                Barenboim: I [youtube], II [youtube], III [youtube]







  • Anne-Sophie Mutter
  • Berliner Philharmoniker ou New York Philharmonic
  • Herbert von Karajan ou Kurt Masur
  • Deutsche Grammophon, 400 064-2 GH ou 457 075-2 GH
"o belo": (Entre o estúdio e o ao vivo, entre a angústia e a inspiração, a parceria natural
                dos mestres von Karajan e Masur e o sentimento da Princess Sophie. Bravo!)
                von Karajan: I [youtube], II [youtube], III [youtube]
                Masur: I [youtube], II [youtube], III [youtube]







  • Julian Rachlin
  • Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks
  • Mariss Jansons
  • Warner, 2564 61561-2
"o belo": (Orquestra sonante, sentimentos guardados e o virtuosismo inspirado do jovem
               lituano. Lirismo de qualidade numa escolha a ter em conta.)
               [youtube], II [youtube], III [youtube]






  • Frank Peter Zimmermann
  • Berliner Philharmoniker
  • Wolfgang Sawallisch
  • EMI, CDC 5 55426 2
"o belo": (Timbres frescos e interpretação que contrasta o estilo mais imediato e
               virtuosístico de Zimmermann com o carácter mais emotivo de Sawallisch.
               O Mozart é um bónus delicioso.)
               [youtube], II [youtube], III [youtube]






  • David Oistrakh
  • Orchestre de la Radiodiffusion Française
  • Otto Klemperer
  • EMI, CDM 7 64632 2
"o belo": (Sonoridade atmosférica e cristalina, numa interpretação brilhante por dois
               príncipes da música do nosso tempo. É também um bom exemplo de que deveria
               ter mais gravações de orquestras francesas na minha colecção.)
               [youtube], II [youtube], III [youtube]






   
Outras sugestões:
  • Nigel Kennedy/Klaus Tennstedt/The London Philharmonic/EMI, CDC 554187, (Diferenças de andamento, aqui entende-se mais lentamente e Kennedy é sempre Kennedy...), I [youtube], II [youtube], III [youtube] 




  • Uto Ughi/Wolfgang Sawallisch/Philharmonia Orchestra/RCA, RD 70072 (Doses equilibradas de lirismo e heroísmo, numa gravação onde o belíssimo som do violino de Ughi casa bem com a liderança romântica do mestre Sawallisch.), I [youtube], II [youtube], III [youtube] 




  • Thomas Zehetmair/Christoph von Dohnányi/Cleveland Orchestra/Teldec, 2292-44944-2 (O suave aconchego e a bravura acutilante ao serviço do lirismo Brahmsiano. Uma opção de qualidade.), I [youtube], II [youtube], III [youtube] 






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Johannes Brahms e Joseph Joachim [Klagenfurt, 1867]




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Parabéns para ti André!

  

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domingo, 23 de agosto de 2020


37. R. Strauss: Uma vida de Herói |

"Uma vida de Herói", por Richard Strauss, ou a justa vitoriosa ao som de trompetes resplandecentes à luz de um amanhecer, que D. Juan testemunhou ao lado da sua amada (...e do Criador...).






Para dois dos meus (super) heróis.
Pelos seus exemplos de honestidade, respeito, humildade e amor, que fizeram de mim aquilo que sou.







Um dos mais belos exemplos do romantismo clássico dos finais do séc. XIX, seria aquele em que Richard Strauss (1864-1949) retrataria a história de um qualquer homem comum (bem-sucedido...), de alguém que procura a sua própria individualidade, ultrapassa os obstáculos do caminho, encontra o amor e atinge o seu próprio destino, ou, pelo menos, aquele que desejou para si próprio, em maior ou menor grau de grandiosidade.

E, assim, nasceria Uma vida de Herói, o poema sinfónico para grande orquestra (onde, entre outros, constariam oito trompas, cinco trompetes e uma quantidade generosa de elementos de percussão e cordas, esta última nunca inferior a sessenta e quatro elementos... uma realidade observável nos países que se importam com os pormenores, é claro), cuja partitura viria a ser escrita, de forma complementar, por altura da criação de outra das suas obras, o seu D. Quixote (...a história, por sinal, encarregar-se-ia, mais tarde, de inverter essa complementaridade), concluída a 1 de Dezembro de 1898, em Berlim, e estreada a 3 de Março de 1899, em Frankfurt, sob a direcção do compositor.
Esta obra ficaria ainda marcada por alguma controvérsia no que diz respeito ao elemento autobiográfico que é sugerido: seria o próprio Strauss o herói retratado?, quereria Strauss apresentar-se como o símbolo musical da militarizada Berlim do Kaiser Guilherme? Segundo as próprias palavras do autor, certamente não: "Apenas uma parte é verdade (...) eu não sou nenhum herói e não fui feito para a batalha". Na realidade, a vida daquele herói (a parte verdadeira) teria sido inspirada na própria vida do casal Richard e Pauline, na vida dum compositor (o herói) que adora a sua caprichosa e cativante esposa (o seu companheiro; ou companheira, como Strauss viria a escrever: "É a minha esposa que quero retratar... ela é muito complexa, muito mulher, nunca é duas vezes igual"), na defesa (os seus feitos em batalha) das suas obras (os seus trabalhos de paz) face às tomadas de posição de alguns críticos musicais (os seus adversários), até aos retiros na sua vila, nas montanhas dos Alpes Bávaros de Garmich-Partenkirchen, acompanhado, porventura, de uma eventual sensação de vitória (justificada, seguramente, por um recolhimento com o sentimento do dever cumprido).
Apesar da obra se desenrolar através de um movimento contínuo, a mesma dividir-se-ia em seis quadros: [I] "O Herói", cujo carácter seria retratado de forma inspiradora no magnífico tema apresentado pelas trompas e cordas; [II] "Os adversários do Herói", pomposos nas madeiras e rosnando nos trombones e tubas em (obtusa?) surdina (sim!); [III] "O companheiro do Herói", retratado num solo de violino cuja complexidade ilustra na perfeição a natureza volátil de Pauline Strauss (... e, muito provavelmente, de outras Paul(in)as... 😊), terminando numa voluptuosa cena de amor (check✓... 😊); [IV] "Os feitos em batalha do Herói", na defesa aos ataques da crítica injusta, escondida nos ecos das palavras proferidas pelas tubas, onde o herói, qual D. Juan Zaratustriano (em lembranças que se escutam), é convocado para a querela ao som dos trompetes num campo de batalha... ainda que fora de palco...; [V] "Os trabalhos de paz do Herói", que são descritos através dum mosaico rectrospectivo lembrando nove das suas obras anteriores, incluindo a ópera Guntram, numa síntese dos feitos (artísticos) da vida (artística) do herói (artista); até que, por fim, chegamos ao [VI] "O Herói retira-se do mundo e o sentimento do dever cumprido na sua vida", com a proposta de uma cena bucólica pelo corne inglês, num ambiente pastoral para onde o herói se retirou, com alguns críticos ainda a pairar, numa espécie de pesadelo que é rapidamente apaziguado pelo carinho daquela que o acompanhará até ao final da Sua vida de Herói: (para sempre) Pauline...

Nuno Oliveira




 "Uma vida de Herói, op. 40"


Extractos que proponho para audição: (ver também publicações nº 8 e 18)
  • Chicago Symphony Orchestra
  • Fritz Reiner
  • RCA, 09026 61494 2
"o belo": toda a obra (Sentimentos ocorridos em Março de 1954, no Orchestra Hall de Chicago,
                e irreproduzíveis desde então. Mágico para a eternidade!), com alguns destaques,
                identificados a seguir;
                I: trompas e cordas aos 0:00-0:40 (O rejubilar dos heróis nas estantes das cordas e
                dos metais!) [youtube]
                II: tutti (Desconfiança e adversários matreiros...) [youtube]
                III: o violino de Pauline (O amor traz brincadeiras... e vice-versa!) [youtube]
                IV: tutti e trompas aos 6:09-6:51 ("o belo" e resplandecente som, e os ecos de D. Juan
                e Assim falava Zaratustra!) [youtube]
                V: tutti (Uma síntese de vida... ao dispor!) [youtube]
                VI: tutti aos 3:51-5:05 (A doce sensação de missão cumprida... finalmente "o belo".)
                [youtube]
 




 
  • Berliner Philharmoniker
  • Simon Rattle
  • EMI, 3 39339 2
"o belo": (Som exuberante, solos de violino de expressividade difícil de igualar e Rattle.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube], V [youtube], VI [youtube]



  

 
  • Berliner Philharmoniker
  • Herbert von Karajan
  • EMI, CDM 7 69027 2
"o belo": (O virtuosismo e sumptuosidade sonora dos músicos berlinenses, dirigidos
                a condizer pelo mestre von Karajan, naqueles primeiros tempos de liberdade
                para alguns de um Maio de 1974. A não perder.)
                I-VI [youtube]





 
  • Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks
  • Lorin Maazel
  • RCA, 09026 68775 2
"o belo": (A afinidade orquestral e intensidade interpretativa aliadas aos magníficos
                detalhes da visão do mestre Maazel. Um registo de excelência.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube], V [youtube], VI [youtube]






  • SWR Stuttgart Radio Symphony Orchestra
  • Sergiu Celibidache
  • Deutsche Grammophon, 453 192-2 GH
"o belo": (Uma versão alternativa na visão personalizada do génio de Celibidache, ao vivo
                em 1979. A não perder pelos entusiastas deste maestro.)
                I-VI [allmusic], I-VI [youtube]




 

  • Scottish National Orchestra
  • Neeme Järvi
  • Chandos, CHAN 8518
"o belo": (Interpretação poderosa dos músicos escoceses, liderados magistralmente por Järvi.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube], V [youtube], VI [youtube]


     


 
  • Berliner Philharmoniker
  • Herbert von Karajan
  • Deutsche Grammophon, 449 725-2 GOR
"o belo": (O registo intemporal da 1ª gravação, em Stereo, de von Karajan para a DG.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube], V [youtube], VI [youtube]


 
 


  • Cleveland Orchestra
  • Vladimir Ashkenazy
  • Decca, 414 292-2 DH
"o belo": (Som luminoso e direcção excitante numa versão de qualidade a ter em conta.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube], V [youtube], VI [youtube]






  • Boston Symphony Orchestra
  • Seiji Ozawa
  • Philips, 400 073-2 PH
"o belo": (Um registo a ter em conta, com uma Boston Symphony em excelente forma e
                a voz doce de Pauline no violino de Joseph Silverstein. A sensibilidade do mestre
                Ozawa também lá está.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube], V [youtube], VI [youtube]






   
✰ Outras sugestões:
  • Daniel Barenboim/Chicago Symphony Orchestra/Erato, 2292-45621-2, I-VI [allmusic]














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Richard Strauss [Nova Iorque, 1904]





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Encontros de Heróis (Pai e Tio): anos 70 e Agosto/2020.
 
 

 
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domingo, 26 de julho de 2020


36. Dvorák: concerto p/ violoncelo |

O concerto para violoncelo de Antonín Dvorák e a serenata (para a) prometida, que um amigo tocou sob as estrelas da Boémia.






Para o meu filhote João, que quando nos perguntámos: "...que concerto p/ violoncelo?", respondemos em uníssono: "O de Dvorák!" (...respostas que me pareceram adequadas na altura, ou não fosse o João filho de quem é: um descendente de familiares possuidores de algum temperamento eslavo... por parte da mãe 😊).

(E à lembrança da Prova de Aptidão Artística do 8º Grau de Violoncelo, na Escola de Música do Conservatório Nacional, que realizaste na passada 6ª Feira. A tua família sentiu-te naquele Bach, Shostakovich, Casals e Ginastera... os teus professores também (ou não fosse a música "uma coisa muito linda!") [24-7-2020])



[Também para ti, Abel Pereira, o avô que não conheci, neste Domingo do aniversário de má memória para todos aqueles que te amam.]






O compositor checo Antonin Dvorák (1841-1904) nasceria a 8 de Setembro de 1841, em Nelahozeves, na Boémia, e cedo mostraria interesse na música que abundava entre as paredes do negócio da família. O pai, Frantisek, o estalajadeiro/açougueiro da aldeia (... e músico amador), não aprovava o sonho de Antonín se tornar um músico de profissão, desejando por sua vez que o rebento desse continuidade ao negócio, atrás do balcão, contrariamente ao desejo do menino na profissionalização de actividades, atrás do pano. Ainda assim, Antonín iniciaria os seus estudos de música aos seis anos, na escola da aldeia, prosseguindo mais tarde em Praga (já com alguma aceitação parental...), cidade onde se tornaria num brilhante executante de violino, viola e órgão, sempre que a ocasião o exigisse e a procura do sustento o levasse.
E fôra essa mesma procura que o levaria a ocupar um lugar de professor no Conservatório de Música de Praga, e, mais tarde, o cargo de Director do Conservatório Nacional de Música de Nova Iorque durante três anos, entre 1892-1895, cidade Norte Americana onde escreveria o seu famoso concerto para violoncelo, a única obra que escreveria em 1895 e uma das sete que viria a compor naquele país.
O impulso que o levaria a escrever o concerto, teria sido provocado após a audição do amigo Victor Herbert na interpretação do seu próprio concerto para violoncelo nº 2, repleto de texturas fascinantes, num concerto dado em Brooklyn pela Filarmónica de Nova Iorque, em Março de 1894.
Antes dessa ocasião Dvorák consideraria o violoncelo como um instrumento de câmara ou puramente orquestral, e embora apreciasse o vasto e lírico registo médio, teria reservas para com as características nasaladas do registo agudo e a contrastante soturnidade das notas mais graves. Na realidade, e segundo as suas próprias palavras, ninguém mais do que ele se sentira mais surpreso quando se viu a iniciar o rascunho de um concerto para violoncelo, em Novembro desse ano. Por outro lado, o contributo da sua amizade com o violoncelista do Quarteto da Boémia (do qual também fazia parte), Hanus Wihan, um excelente músico que lhe teria já sugerido a composição dum concerto para o instrumento, fará, também, com que Dvorák complete o primeiro rascunho da obra a 9 de Fevereiro de 1895, auxiliado por Wihan na estruturação da parte solística.
A orquestra seria maior do que aquela que Dvorák teria usado nos seus anteriores concertos para violino e para piano, com três trombones (à semelhança do que teria notado no concerto de Herbert) e uma tuba, dando, desta forma, uma riqueza sem precedentes e profundidade de texturas no suporte e envolvência do violoncelo (facilmente reconhecível no acompanhamento do idílico andamento lento).
A obra dividir-se-ia nos tradicionais três andamentos. Um primeiro de melodias quentes, no clarinete e fagote ao início, depois na trompa, antes de passar para o violoncelo num registo mais agudo (...e supostamente mais nasalado).
No segundo andamento, identificamos alguns efeitos inspirados no andamento lento do concerto para violino de Brahms (seu amigo e defensor, a que se juntaria, por "simpatia", a amizade e protecção do crítico Eduard Hanslick, o que muito o beneficiaria... idêntica fortuna não terão tido outros, de características mais Wagnerobrucknerianas...), e uma mudança de humor que seguramente teria sido o reflexo da notícia da doença grave (...um coração frágil) de Josefina Cermáková, uma actriz de quem estivera anteriormente apaixonado, quando esta tinha 16 anos de idade, por altura das aulas de piano que lhe teria ministrado. Apesar da paixão e devoção demonstrados no ciclo de canções, "Ciprestes", que lhe terá oferecido, a rejeição de Josefina levaria o desconsolado Antonín a olhar para o lado, sendo, neste caso, o lado mais próximo o de Anna, a irmã mais nova de Josefina, com quem viria a casar (...fecha-se uma porta, abre-se uma janela...). Na realidade, o tema do violoncelo deste andamento, seria uma versão de uma dessas canções, aquela com o nome: "Deixa-me sozinho"...
O terceiro andamento começaria com uma introdução na trompa e nas madeiras, de preparação para o tema principal no violoncelo. Este andamento desenvolver-se-ia de forma muito original, até que surge o final, com o retorno a casa pelas notícias da morte de Josefina, em Maio de 1895, ao som da sua canção (... como uma memória à sua memória), até á finalização do concerto de forma concludente e confiante.
É conhecida a famosa reacção de Brahms, que depois de ter ouvido o concerto, teria comentado, irritado, que se tivesse percebido o que poderia ser feito com o registo médio do instrumento, teria, ele próprio, escrito um concerto para violoncelo também. Brahms não se apercebeu e a humanidade perdeu.
O concerto viria a estrear em Londres, a 19 de Março de 1896, pela Sociedade Filarmónica Real, direcção do compositor e com o violoncelista britânico Leo Stern, como solista. Na realidade, passariam três anos até que o dedicatário Wihan interpretasse o concerto, uma birra que terá durado todo esse tempo devido à recusa de Dvorák em acolher a cadência de 59 compassos de fogo de artifício técnico, bem como a quantidade considerável de outras modificações que Wihan desejaria introduzir, o que esbarraria, desta forma, com a música para Josefina, uma intromissão que não poderia ser permitida (... porque se dois era bom, três seria demais). A birra seria finalmente ultrapassada e a velha amizade entre os dois voltaria a ser o que era, contribuindo, para isso, a lembrança da tournée pelas 39 cidades da Morávia e da Boémia que teriam feito com o violinista Ferdinand Lachner, antes de Dvorák viajar para a América, interpretando o célebre "Rondó para o Professor Wihan" que Dvorák teria escrito em homenagem ao amigo, ou o arranjo de oito das suas "Danças Eslavas" para piano e violoncelo, ou aos "Bosques Silenciosos" para piano e violoncelo, a 5ª peça do ciclo de duetos "Das Florestas da Boémia", ou...
Todos esses "ous" fariam com que Hanus caísse, primeiro em si, e depois nos braços fraternos do amigo Antonín. No coração frágil de Josefina, o contrário é que não poderia ser...

Nuno Oliveira




"Concerto p/ violoncelo, em si menor, op. 104"


Extractos que proponho para audição: (ver também publicações nº 53 e 89)
  • Mstislav Rostropovich
  • Berliner Philharmoniker
  • Herbert von Karajan
  • Deutsche Grammophon, 447 413-2 GOR
"o belo": toda a obra (Insuperável desde 1968. Um registo para a eternidade a não perder!);
                I - violoncelo, tutti, (Intensidade, lirismo e um som glorioso dos músicos de Berlim, a
                    acompanhar um Rostropovich e um von Karajan insuperáveis!) [youtube]
                II - violoncelo, tutti (Lembranças idílicas de uma canção chamada Josefina...[youtube]
                III - violoncelo, tutti (No final, a memória de uma canção... para toda a vida.) [youtube]






  • Yo-Yo Ma
  • New York Philharmonic ou Berliner Philharmoniker
  • Kurt Masur ou Lorin Maazel
  • Sony, SK 67173 ou SK 42206
"o belo": (As interpretações magistrais da irmandade dos Más: MA, MAsur e MAazel.)
               Masur- I [youtube], II [youtube], III [youtube]
               Maazel- I [youtube], II [youtube], III [youtube]







  • Heinrich Schiff
  • Wiener Philharmoniker 
  • André Previn
  • Philips, 434 914-2 PH
"o belo": (A espontaneidade e frescura de Schiff, numa gravação a não perder também.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube]






  • Raphael Wallfisch
  • London Symphony Orchestra
  • Charles Mackerras
  • Chandos, CHAN 8662
"o belo": (Uma visão quente e excitante, maravilhosamente interpretada por Wallfisch.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube]






   
Outras sugestões:
  • Gregor Piatigorsky/Charles Munch/Boston Symphony Orchestra/RCA, 09026 61498 2, (O legado que Piatigorsky nos deixou em 1960, nos primórdios do stereo...), I [youtube], II [youtube], III [youtube] 




  • Jacqueline du Pré/Daniel Barenboim/Chicago Symphony Orchestra/EMI, CDC 5 55527 2, (... e a visão inspirada de du Pré, dez anos depois, em 1970...), I [youtube], II [youtube], III [youtube] 




  • Mischa Maisky/Leonard Bernstein/Israel Philharmonic Orchestra/Deutsche Grammophon, 427 347-2 GH, (... seguido do som luxuriante de Maisky dos anos 80...), I [youtube], II [youtube], III [youtube] 




  • Truls Mork/Mariss Jansons/Oslo Philharmonic Orchestra/Virgin, VC 7 59325 2, (... até à interpretação enérgica de Mork, já nos anos 90.), I [youtube], II [youtube], III [youtube] 




  • Mstislav Rostropovitch/Seiji Ozawa/Boston Symphony Orchestra/Erato, ECD 88224, (Expressividade e lirismo habituais do mestre. A rotação pode ser um pouco mais baixa, mas a poesia está lá.), I [youtube], II [youtube], III [youtube] 




  • Anne Gastinel/Emmanuel Krivine/Orchestre National de Lyon/Auvidis Valois, V 4786, (A sensibilidade feminina para descobrir.), I [youtube], I-III [spotify], I-III [iTunes] 






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Antonín Dvorák (ao centro) com Hanus Wihan e Ferdinand Lachner [Praga, 1892]




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Parabéns para ti João!!!






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