domingo, 1 de maio de 2022


69. Bruckner: sinfonia nº 7 |


A Sinfonia nº 7 de Anton Bruckner; mais do que uma memória do ídolo, o reconhecimento do Pai.






Para a rapaziada da irmandade que era aquele "7A" dos anos 90.


Os meses de Queima (das Fitas) são propícios à recordação dos momentos lendários vividos pelo Miranda, juntamente com o Vinnie, o Fuji, o Náná, o Carlos, o Tony, o Freud, o Porkys, o Mário Rui, o Bruggie, o Paulo, o Nuno Pinto, e também o Joca e o Rui de Direito, e outros de que já não me lembro, não esquecendo a Dona Céu, e também a Dona Piedade (e respectiva família...).

Uns vinham do Norte, outros do Centro e outros do Sul, uns eram de Direito, outros de Letras, outros de Ciências e ainda outros de Farmácia, mas todos se juntavam ali, a viver aqueles anos de juventude plena, entre a obrigação diurna que era cortejada lá em cima, no Pátio das Escolas, e a tentação nocturna que era seduzida lá em baixo, na Praça da República.
Entre o Céu e o Inferno, ali ficava o nº 7A do Bairro Sousa Pinto, a fazer pender a balança do Purgatório coimbrão...

Não houvesse tudo isto, e só o nº da publicação já merecia um: "7A! Uiiiiiiiii que bom!".






Foi sempre claro para mim que ao propósito bloguístico de ligação da cifra 7A à genialidade de uma peça de música só poderia corresponder a 7ª do Anton, a mais melódica, ousada e majestosa sinfonia de Bruckner (1824-1896), possivelmente a sua obra mais popular e sem dúvida a minha preferida.   
Existem muitas histórias que ilustram a simplicidade infantil, rusticidade e falta de sofisticação de Anton Bruckner (numa bela ocasião teria dedicado uma sinfonia "Ao Senhor Deus" e após ter conhecido o seu ídolo Richard Wagner, ter-se-ia prostrado de joelhos a seus pés e declarado: "Mestre, eu venero-o!"), mas nenhuma será porventura mais reveladora do que a contada pelo maestro que viria a apresentar a sua Sinfonia nº 7 em Viena, o ilustre Hans Richter. O abastado maestro encontrava-se a preparar a estreia da quarta sinfonia do compositor em Fevereiro de 1881, e durante um dos ensaios o ingénuo sinfonista, visivelmente satisfeito com o trabalho realizado, ter-lhe-á dado 1 táler austríaco de gorjeta e proferido: "Tome lá e beba uma caneca de cerveja à minha saúde". A história bem que poderia acabar aqui, só que, na realidade, a parte para mim mais importante viria a seguir: o normalmente imperturbável Richter agradeceu a moeda e usou-a na sua corrente de relógio o resto da vida, chamando-lhe "a lembrança de um dia em que chorei". "o belo" que é quando o Romantismo se enche de Humanismo, não é.
Bruckner viria a escrever a sua sétima sinfonia entre 23 de Setembro de 1881 e 5 de Setembro de 1883, mas a estreia só aconteceria um ano depois. Antes disso, os seus alunos Joseph Schalk e Ferdinand Löwe fariam uma apresentação da obra para quem estivesse interessado, numa versão para dois pianos, na Bösendorfer Saal de Viena a 27 de Fevereiro de 1884. Já a esperada estreia aconteceria no Stadttheater de Leipzig a 30 de Dezembro de 1884, dirigida por um dos seus maiores defensores, o famoso jovem maestro, Artur Nikisch, com o extraordinário sucesso que os aplausos de mais de um quarto de hora faria supor, tornando-se no seu maior triunfo a partir daí. Seguir-se-iam apresentações em Munique, na Holanda e na América, até chegar finalmente a Viena e a Hans Richter.
A razão da escolha de Leipzig para a estreia em detrimento de Viena prender-se-ia com o receio pela possível hostilidade vienense liderada pelo crítico Hanslick e por Hugo Wolf. As más experiências passadas em Viena teriam motivado a preferência por uma cidade que o aceitaria melhor e um maestro que depois de ter visto a partitura da obra teria afirmado que "depois de Beethoven não haveria nada que se aproximasse". Quando posteriormente foi colocada a possibilidade de apresentação da obra em Viena, Bruckner teria inicialmente negado a iniciativa, alegando que "As razões têm exclusivamente a ver com a infeliz situação local no que diz respeito à influência dos críticos, o que apenas contribui para o crescimento da minha reputação na Alemanha". Mais tarde viria a ser persuadido a permitir a apresentação, e seria essa a ocasião que marcaria o momento do seu real reconhecimento nessa cidade, cuja aprovação teria a maior importância para ele. Hanslick teria continuado com os tradicionais julgamentos e afirmações sobre "tédio" e "superexcitação febril", mas Anton já teria sido chamado inúmeras vezes ao palco e saciado os seus instintos mais primitivos (e uma das suas imagens de marca) durante o jantar oficial oferecido em sua honra. Após uma vida de luta árdua, imaginem a satisfação trazida pelo reconhecimento de Hanslick sobre as repetidas ovações do público e o descobrir-se a si próprio uma celebridade aos sessenta anos de idade, quatro anos depois da estreia da sua quarta sinfonia, até aí o único vislumbre de aceitação e "inusual sucesso", como teria sido forçado a admitir o hostil Neue Freie Presse naquela altura. 
Bruckner viria a dedicar esta sinfonia (constituída pelos quatro andamentos habituais) ao Rei Ludwig II da Baviera, o protector de Wagner ou, como Anton gostava de chamar, do "ideal inalcançável e muito querido e imortal mestre dos mestres", uma admiração que seria recíproca, sendo conhecida a comparação de Bruckner a Beethoven que Wagner teria feito no último encontro entre os dois, ocorrido em Bayreuth em 1882, pela altura da estreia do Parsifal a 26 de Julho. Este último encontro e a intuição sobre a saúde frágil de Wagner teriam um profundo efeito em Bruckner, pelo que na viagem de regresso a Viena, finaliza o terceiro andamento (Scherzo) [3] e escreve a maior parte do primeiro, um Allegro moderato [1] com a mais longa melodia de um tema principal escrita pelo compositor e a fazer lembrar harmonicamente o início d'O Ouro de Reno do "mestre dos mestres"... se bem que Bruckner tivesse referido também que este tema, maravilhosamente apresentado pelas trompas e violoncelos (dupla de sonho!) e suportado por suaves trémulos nas cordas, lhe haveria aparecido num sonho protagonizado pelo seu amigo à muito falecido, Ignaz Dorn, à viola...
É razoável admitir que Bruckner terá pressentido no início de 1883 que o seu ídolo estaria perto da morte (Wagner encontrava-se seriamente doente em Veneza e viria a falecer a 13 de Fevereiro), mas no entanto permanece a dúvida sobre se o icónico Adagio (segundo andamento) [2] teria sido ou não concebido como uma elegia pela morte de Wagner. Embora o esboço deste andamento tivesse sido escrito a 22 de Janeiro, três semanas antes do falecimento de Wagner, a verdade é que Bruckner teria insistido através de uma carta ao seu aluno, o maestro Felix Mottl, de que a ideia de uma marcha fúnebre ter-lhe-ia chegado pouco tempo depois de ter recebido a notícia da saúde precária de Wagner ("Um dia cheguei a casa muito triste e pensei para comigo que era impossível que o mestre vivesse muito mais tempo. Foi quando o adagio em dó# menor me veio à cabeça"). Por outro lado, a ideia de inclusão de quatro tubas wagnerianas na partitura (utilizadas pela primeira vez numa sinfonia) ocorreria a Bruckner apenas mais tarde, assim como a pancada de pratos no clímax deste andamento (exactamente na letra "W" da partitura!) que o compositor teria alegadamente adicionado por sugestão de Nikisch, mas que todavia mais tarde não viria a aparecer no manuscrito original, pelo que, e independentemente da versão utilizada, a sua polémica aplicação prática tem vindo a ser decidida consoante o entendimento particular dos maestros, o que é razoável porque se fosse decidido pelas administrações seria porventura pior (no que me diz respeito, eu pessoalmente passo bem sem a pancada...). Ainda sobre este ponto de discórdia (o W...), o jovem Welser-Möst retém-na, por exemplo, enquanto o ancião Wand já não (para mais informações: WWW.pancadanospratosounaoeisaquestao... ou como diria um famoso da nossa praça, porventura parecido em sofisticação ao herói da nossa história: "peanners"). Ainda sobre este sublime Adagio, importa referir que Anton quis que as quatro tubas wagnerianas introduzissem o tema musical de modo "Muito solene e Muito lento" e que o lamento que se escuta recua a um motivo utilizado no "Non confundar in aeternum" ("Eu não me vou decepcionar para sempre") do Te Deum que teria começado a compor em 1881 (para o seu Deus), e que nos fala da tristeza que se sente com uma incomensurável perda... como se de uma "música fúnebre para o mestre" se tratasse. 
Já o Scherzo (3º andamento) [3] não poderia ser mais diferente. As suas formas desapaixonadas entre o murmúrio e a explosão são o retracto das palavras do compositor quando refere que a melodia de abertura no trompete lhe teria sido "inspirada pelo cantar do galo", um portentoso e confiante animal sem dúvida, atendendo ao intervalo sonoro que faria tremer instrumentistas menos preparados para o salto de oitava e promover nos ouvintes sentimentos de pena do si...
A obra terminaria com o Finale (4º andamento) [4] e com ele a compaixão solene escutada no primeiro andamento e a sua transformação em força e energia. Tudo acaba como começa afinal... e depois de toda a agitação, permanece o conforto do que foi sentido naquele sonho que Alguém uma vez ofereceu. 


Nuno Oliveira




"Sinfonia nº 7, em mi maior"


✨ Extractos que proponho para audição:
  • New York Philharmonic
  • Kurt Masur
  • Teldec, 4509-97437-2
✿"o belo": toda a obra (ed. Haas: Registo gravado ao vivo no Avery Fisher Hall em
                Setembro de 1991, no concerto de estreia do mestre Masur à frente da
                Filarmónica da Nova Iorque. Interpretação idiomática, repleta de tensão,
                sentimento e nobreza, com o vazio das inúmeras pausas a contribuir de forma
                reflectida... para nos tirar o fôlego. Se o objectivo era atingir a lenda, para mim
                conseguiram-no. Sublime e obrigatório!)
                    [Nota pessoal: este disco foi a banda sonora das inúmeras noites de preparação para os exames que
                    ocorreram naquele nº 7A, nos finais dos anos 90. Pode parecer estranho, mas a verdade é que ajudou.]  
                [I]: tutti, aos 0:00-2:21 (Nobreza musical para usufruto comum!); trompas, aos
                6:14-6:19 (As trompas que existem por aqui...); tutti, aos 11:00-11:50 (O mistério
                que só algum tipo de romantismo pode oferecer!); trompa e tutti, aos 12:19-13:23
                (Realeza musical? Sim, vou repetir!) [youtube]
                [II]: tubas wagnerianas e tutti, aos 0:00-2:42 ("o belo" numa das mais belas frases
                da história da música!); cordas e flauta, aos 4:07-5:48 (Um acompanhamento
                adequado para o estudo da "Termodinâmica"...); tutti, aos 12:21-13-24 (... e um
                acompanhamento adequado para o estudo da "Mecânica dos Fluidos".); tubas
                wagnerianas e metais, aos 17:27-18:26 (...a trabalhar de sol(o) a sol(i)!) [youtube]
                [III]: trompas e metais, aos 1:00-1:03, 3:22-3:25 e 9:26-9:29 (3'' a descer para
                subir o nível da performance!); tutti e flauta, aos 5:08-5:58 (Uma música de
                fundo adequada também para o estudo, neste caso de "Vibrações"...) [youtube]
                [IV]: metais, aos 3:13-4:03 e 6:45-7:42 (No Reino do metal!) [youtube]






  • Radio-Symphonie-Orchester Berlin
  • Riccardo Chailly
  • Decca, 414 290-2 DH
✿"o belo": (ed. Nowak: A primeira escolha de muitos Brucknerianos. Interpretação
                 comprometida dos músicos berlinenses e dirigida de forma magistral por
                 Chailly, que se afirmaria a partir daqui. Romantismo exacerbado e o som
                 sumptuoso da orquestra alemã a partir da Jesus-Christus Kirche. Um
                 registo de referência e imperdível.)
                 [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Wiener Philharmoniker
  • Herbert von Karajan
  • Deutsche Grammophon, 429 226-2 GH
✿"o belo": (ed. Haas: Um extraordinário exemplo de registo icónico. Trata-se da
                última gravação do mítico mestre von Karajan, realizada em Abril de 1989
                no Muzikverein de Viena. O empenho e concentração dos músicos sente-se,
                a espiritualidade e intimismo do maestro vive-se, e o resultado é uma
                interpretação fluida e grandiosa. Uma escolha de excelência a não perder.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Berliner Philharmoniker
  • Herbert von Karajan
  • Deutsche Grammophon, 419 195-2 GH
✿"o belo": (versão original de 1881-1883: Á sonoridade mítica da orquestra alemã,
                exuberante nas cordas e brilhante nos metais, com destaque para as trompas
                wagnerianas, junta-se a visão precursora do mestre austríaco e ficamos com
                um registo tão sensível quanto poderoso. Os nascidos em 1975 só poderiam
                ser assim: recheados de emoções fortes. Uma maravilhosa opção.)
                [I-IV] [youtube]






  • Chicago Symphony Orchestra
  • Georg Solti
  • Decca, 417 631-2 DH
✿"o belo": (versão original de 1881-1883: Som espectacular e refinamento interpretativo
                habituais na dupla icónica CSO/Solti. O poder orquestral sente-se e a visão do
                mestre entende-se. Uma opção de qualidade para ouvir com atenção.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Kölner Rundfunk-Sinfonie-Orchester
  • Günter Wand
  • RCA, GD 60082
✿"o belo": (versão original de 1881-1883: Os sentimentos e detalhes que só um sábio
                pode oferecer. Orquestra assertiva e em total consonância com a visão
                magnânima do mestre Wand. Uma fabulosa proposta, também a não perder.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • The London Philharmonic
  • Franz Welser-Möst
  • EMI, CDC 7 54434 2
✿"o belo": (ed. Nowak: Registo ao vivo a partir do ambiente acolhedor dos Proms
                de 1991. Músicos concentrados na visão do mestre austríaco e o lirismo
                em destaque numa opção a ter em conta.)
                [I-IV] [allmusic]






  • Berliner Philharmoniker
  • Daniel Barenboim
  • Teldec, 9031-77118-2
✿"o belo": (versão original de 1881-1883: Uma interpretação onde se privilegiam
                sentimentos delicados, acentuados pela sonoridade sumptuosa das cordas
                berlinenses. A poesia da primeira metade sobrepõe-se à intensidade da
                segunda. Opção de qualidade.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Wiener Philharmoniker
  • Carlo Maria Giulini
  • Deutsche Grammophon, 449 305-2
✿"o belo": (ed. Nowak: Interpretação majestosa e sonoridade quente, com destaque
                para a espiritualidade solene dos dois primeiros andamentos. As cordas
                escaldam de tão sedosas. Há momentos à Giulini que nos fazem elevar. A
                referência de muitos que fica bem em qualquer colecção.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • City of Birmingham Symphony Orchestra
  • Simon Rattle
  • EMI, CDC 5 56425 2
✿"o belo": (ed. Nowak: Interpretação dinâmica do mestre Rattle onde se destaca a
                sonoridade exuberante da orquestra britânica. Uma proposta a descobrir.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]







   
✰ Outras sugestões:
  • Eliahu Inbal/Radio-Sinfonie-Orchester Frankfurt/Teldec, 2292-43147-2 (versão original de 1881-1883: A visão de um especialista em Bruckner.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]




  • Philippe Herreweghe/Orchestre des Champs-Elysées/Harmonia Mundi, HMC 901857 (ed. Nowak: Uma interpretação por orquestra e instrumentos de época.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube] 




  • Hans Rosbaud/Southwest German Radio Symphony Orchestra Baden-Baden/Maps, 221922-205 (versão original de 1881-1883: O registo histórico de Hans Rosbaud gravado nos anos 50.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube] 






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Anton Bruckner [Viena, 1885]




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"7A! Uiiiiiiiii que bom!" [Coimbra, 1998]


 

Porta do nº 7A do Bairro Sousa Pinto
(junto às Escadas Monumentais) [Coimbra, Abril/2022]






Pátio do 7A, c/ entrada p/ R. Castro Matoso
(junto às Escadas Monumentais) [Coimbra, Abril/2022]



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domingo, 17 de abril de 2022


68. Rutter: Requiem |


Um Requiem pelo Commander of the British Empire Rutter.
Uma Música para o Conforto Benéfico do Espírito de John.






Para o Herlânder.
Do padrinho.

(Um Requiem faz sentido neste dia de Páscoa.
Não é Mozart (o teu preferido), mas a beleza desta música surpreende qualquer um.
Vá lá, surpreende-te.)






Quando penso nas palavras Requiem e finais do séc. XX, o nome que imediatamente me ocorre é o do inglês John Rutter (Londres, 1945), de alguém que para além de compositor agraciado pela coroa britânica com um CBE pelos serviços relevantes à música, em 2007, apresentaria também uma vasta experiência na direcção de agrupamentos corais de elite, como seriam exemplos o Clare College Cambridge, do qual fizera parte como coralista enquanto jovem estudante, ou o Cambridge Singers, fundado pelo próprio em 1981.
Rutter viria a escrever o seu Requiem em 1985, um trabalho que não lhe teria sido encomendado como era habitual acontecer naquela época. Na realidade, a composição deste Requiem seria a melhor forma que John encontrara para lidar com o luto pelo seu pai (falecido no ano anterior), dedicando-lhe a obra com as palavras "in memoriam L.F.R.", ao mesmo tempo que também o ajudaria a suportar os efeitos da encefalomielite miálgica diagnosticada nesse mesmo ano.
Apoiando-se na tradição de mestres como Brahms ou Fauré, Rutter adoptaria por não seguir de forma estrita o conceito da Missa Pro Defunctis estabelecido na liturgia católica, utilizando por sua vez uma selecção pessoal de textos em latim e em língua inglesa, tirados quer da Missa de Requiem (em latim), quer do Livro das Orações Comuns de 1662, e dos Salmos 23 e 130 usados tradicionalmente nas cerimónias fúnebres (em língua inglesa).
Por outro lado, e atendendo ao caracter contemplativo e intimista desta obra em detrimento do sentimento de dor e do dramatismo muitas vezes utilizados neste tipo de música, poderíamos considerar com razoável segurança, que as recordações da participação do jovem coralista da Highgate School na primeira gravação do grandioso War Requiem, dirigido por Benjamin Britten em 1963, teriam tido menor impacto no resultado final do seu Requiem do que as que o maduro compositor tivera em 1984 durante a gravação (aclamada!) do lírico Requiem de Gabriel Fauré para a sua própria etiqueta discográfica, a Collegium Records. Com efeito, em termos de escala e sensibilidade, é bem provável que esta peça deva mais ao francês Fauré do que ao seu conterrâneo Britten, em mais um bom exempo do benefício artístico que a globalização das ideias e dos sentimentos aporta.
Segundo o compositor, as sete partes deste Requiem formariam um arco de meditação sobre temas musicais inspirados na vida e na morte. A primeira [I] e a última [VII] representariam orações em nome de toda a humanidade, a segunda [II] e a sexta [VI] os salmos, a terceira [III] e a quinta [V] as orações pessoais do autor a Cristo e a quarta [IV] a afirmação da gloria divina, como aliás não poderia deixar de ser tratando-se do movimento central e pedra basilar que suportaria toda a arcada sonora, sendo por isso glorificada com os habituais "sinos" das celebrações dominicais em dias de festa.
Rutter escreveria ainda dois tipos de acompanhamento possíveis de utilizar dependendo das circunstâncias artísticas (vulgo budget), um para orquestra de câmara e outro para órgão e seis instrumentos (flauta, oboé, tímpanos, glockenspiel, harpa e violoncelo), sendo que a obra seria estreada pelo próprio compositor a 13 de Outubro de 1985, na Igreja Metodista Norte-americana de Lover's Lane, em Dallas, no Texas, suspeitando-se que aquele local sagrado nunca mais seria o mesmo a partir desse dia, assim como inúmeros outros locais de semelhante calibre espalhados pelas vastas terras do Tio Sam, tal seria a contaminação melódica proveniente de Lover's Lane. 
A consolação que esta música proporciona é evidente, o seu consumo em épocas de maior angústia é aconselhável, e, por isso, o sucesso deste Requiem só poderia ser o que na realidade é: enorme.
Felizmente que assim é, pela qualidade do que se escuta... ou o seu contrário, pelos motivos que muitas vezes existem para o necessitarmos de ouvir.

Nuno Oliveira




"Requiem"


✨ Extractos que proponho para audição:
  • Caroline Ashton, Donna Deam
  • The City of London Sinfonia, The Cambridge Singers
  • John Rutter
  • Collegium, COLCD 103
✿"o belo": toda a obra (O registo icónico realizado em 1986 por John Rutter que
                nos transmite algo de mágico difícil de explicar... é como se de repente
                estivéssemos de volta à capela da nossa terra numa manhã solarenga de
                Domingo de Páscoa, olhamos para o lado e vemos os nossos que já partiram
                a cantar connosco. Arrepiante e imperdível!), com alguns destaques,
                identificados a seguir;
                I - Requiem aeternam: tutti, aos 0:00-1:18 (Magia...), 1:55-2:55 e 3:51-4:45
                ("o belo" dom da melodia na oração suprema da humanidade.) [youtube]
                II - Out of the deep: violoncelo (Céus escuros e nuvens baixas.) [youtube]
                III - Pie Jesu: soprano e tutti (A familiaridade d"o belo" som...)  [youtube]
                IV - Sanctus: tutti (Santificação da alegria com sinos de festa!) [youtube]
                V - Agnus Dei: tutti (Procissão de mágoa e esperança.) [youtube]
                VI - The Lord is my shepherd: oboé e tutti (Céu limpo e nuvens altas visto
                da estante d"o belo" oboé!) [youtube]
                VII - Lux aeterna: tutti (O suave repicar da "harpa" ao longe, na torre da igreja...);
                oboé e tutti, aos 5:40-6:30 (...e "o belo" final da festa da Ressurreição!) [youtube]




 
  • Elin Manahan Thomas
  • Members of The City of London Sinfonia, Choir of Clare College Cambridge
  • Timothy Brown
  • Naxos, 8.557130
✿"o belo": (A versão para órgão e seis instrumentos de referência. Vozes de excelência
                e interpretação simplesmente sublime. Uma proposta de eleição a não perder.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube], V [youtube], VI [youtube],
                VII [youtube]




 
  • Edward Saklatvala, Thomas Harries
  • The City of London Sinfonia, Choir of King's College Cambridge
  • Stephen Cleobury
  • EMI, CDC 5 56605 2
✿"o belo": (As vozes maravilhosas dos rapazes do King's College, som exuberante e
                "o belo" Pie Jesu, oferecido por um menino, a tocar o divino. Aquisição 
                obrigatória.)
                I [youtube], II [youtube], III [youtube], IV [youtube], V [youtube], VI [youtube],
                VII [youtube]




 
  • Rosa Mannion
  • Bournemouth Sinfonietta, Polyphony
  • Stephen Layton
  • Hyperion, CDA20947
✿"o belo": (Sonoridade radiante e instrumentistas solistas magníficos numa gravação
                repleta de graciosidade e profundidade. "o belo" Pie Jesu é interpretado de
                forma sublime. A não perder também.)
                I-VII [iTunes]







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John Rutter, CBE [2007]




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"Requiem aeternam ou princípio (do fim...)" [Latada, Coimbra, 1996]





"Lux aeterna ou fim (...nalmente!)" [Rasganço, Coimbra, 2002]



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sexta-feira, 25 de março de 2022


67. Gershwin: Rhapsody in Blue, Um Americano em Paris |

O valor do movimento na música de George Gershwin: do musical para o jazz, do bailado para o blues... da cozinha para o hall, de Brooklyn para Paris.






À memória de Diniz Camelo e Eugénio Abrantes (desaparecido recentemente), com quem tive o privilégio de fazer música.
Tinham em comum o amor pela banda da sua terra e pelas orquestras de música ligeira que despontavam em Águeda nos anos 50.
Não cheguei a merecer a moeda do Diniz. Mereci ter sido parceiro de estante do Eugénio.






George Gershwin, ou melhor, Jacob Gershwine, um judeu com raízes ucranianas da cidade de Odessa, local de nascimento do seu avô paterno, nasceria em Nova Iorque no ano de 1898 e viria a falecer em 1937 na cidade de Los Angeles. Embora tenha vivido apenas uns escassos trinta e oito anos e dez meses, o seu génio musical, carisma viciante e "joie de vivre" (já lá vamos...) deixar-nos-iam uma herança incontornável de música "clássica" norte-americana e vários tesouros sonoros que permaneceriam no quotidiano do comum apreciador d"o belo" passado quase um século. A sua cunhada Leonore, esposa do seu irmão, ou melhor, "cúmplice no crime", Ira, terá inclusive dito numa "bela ocasião": "Sempre que entrava numa sala ele capturava-a instantânea e completamente, não que ele fosse arrogante, mas porque tinha uma vitalidade infecciosa irresistível e um magnetismo pessoal arrebatador, à semelhança das maiores estrelas de cinema"; um comentário seguramente verosímil, bastando para isso apontar quem se destaca na fotografia de 1937, o ano do seu trágico desaparecimento, deixada propositadamente em baixo para ilustrar este pretexto. O dedo apontará sem dúvida para um sorriso, o de George Gershwin.
O entusiasmo característico e o gosto pela música fariam com que viesse a estudar piano clássico e composição na juventude, ao mesmo tempo que cultivava amizades e aprendia com os grandes músicos de jazz que "pecavam" na vizinhança da sua casa de Brooklyn, pelo que o seu virtuosismo ao piano e facilidade para a melodia certamente que terão crescido por ali.
Talvez a peça jazzística de concerto mais famosa alguma vez escrita seja a sua Rhapsody in Blue [RB], uma obra escrita à pressa em 1924 mas que o levaria depressa do East Side para o Carnegie Hall, numa altura em que não teria uma reputação como compositor sério ou músico de jazz "fora da lei", sendo considerado acima de tudo como um compositor de canções de sucesso, ajudado pelas magníficas letras de Ira, e já com alguns musicais da Broadway bem acolhidos pelo público.
Rhapsody in Blue viria assim a estrear-se no dia 12 de Fevereiro de 1924 no Aeolian Hall de Nova Iorque, num dos lendários concertos da série "An Experiment in Modern Music" levados a cabo pela famosa Orquestra de Paul Whiteman. Whiteman haveria encomendado um concerto para piano a Gershwin três meses antes, pedido que teria sido, entretanto, esquecido pelo compositor, que por aquela altura se encontraria preocupado com a apresentação do seu novo musical Sweet Little Devil. Agora imagine-se a surpresa de Gershwin, quando em Janeiro abre o jornal e descobre a data de estreia de um concerto para piano ainda por escrever. Em pânico, telefona a Whiteman e os dois chegam a um compromisso: a obra deixaria de ser um tradicional concerto para piano e a orquestração para o inusual ensemble do patrão ficaria a cargo do arranjador Ferde Grofé (que viria a reorquestrá-la duas vezes mais, uma para Jazz Band, em 1926, e outra para orquestra sinfónica, em 1942). E assim, Grofé, na altura o principal orquestrador de Whiteman, ocupar-se-ia de transformar a redução para piano de George na partitura para a orquestra inchada de Paul. Na realidade, a constituição exótica do agrupamento viria compreensivelmente a influenciar o colorido sonoro desta obra-prima, considerando que para além dos instrumentos habituais das Jazz Bands daquela época, a orquestra compreenderia também um conjunto de oito violinos e um multifacetado baixista, que ademais de se ocupar do contrabaixo de cordas assumiria com igual responsabilidade a parte da tuba, o que curiosamente me faz lembrar semelhante polivalência e virtuosismo no sr. Diniz, sobejamente conhecido pelo seu contrabaixo de cordas na orquestra e não menos apreciado pelo fulgor do seu bombardino na banda (eu que o diga, que ficava muitas vezes à sua frente durante aquelas aberturas da Tannhäuser e do Guilherme Tell).
Por outro lado, acredita-se também que a encomenda desta obra teria sido uma manobra ousada de Paul Whiteman para trazer o jazz às salas de concerto "de boas famílias", e atendendo ao estrondoso sucesso da Rhapsody in Blue naquela noite, supõem-se que a infame proposta terá mesmo resultado. A noite estaria algo monótona até à entrada do jovem George de vinte e cinco anos, a esvoaçar nas suas asas de grilo até ao piano, e ao começo do icónico solo de clarinete. Os russo-americanos Sergei Rachmaninov e Jascha Heifetz, o austro-americano Fritz Kreisler, o anglo-americano Leopold Stokowski e o polaco-americano Walter Damrosch (há que tirar o chapéu aos norte-americanos pela qualidade dos vistos atribuídos...) presentes na audiência, teriam supostamente ficado de queixo caído, sendo conhecida a citação de um conhecido comentador musical, de que Gershwin: "sugeriu algo novo, algo que até agora ainda não foi dito na música... e talvez com isto tenha tirado o jazz para fora da cozinha". E pelos vistos tirou-o mesmo, ou aquela noite, a primeira de muitas outras, não se tivesse passado realmente no hall de entrada... para a história.
Já Um Americano em Paris [AP] (...et voilá), o poema sinfónico escrito em 1928 para uma orquestra sinfónica reforçada com saxofones, celesta e quatro buzinas de táxi (de preferência parisienses), é na realidade o resultado das várias viagens que George Gershwin faria a Paris a partir de 1923 e não apenas daquela que teria ocorrido entre Março e Julho desse ano. Seria aliás a viagem feita dois anos antes, aquela que lhe viria a proporcionar os elementos de inspiração mais significativos, como seriam as lendárias quatro buzinas de táxi que teria adquirido na loja de peças auto da Avenue du Grand Armée, depois de assistir a uma altercação sonora típica entre dois taxistas em plena Place de la Concorde, assim como a colectânea das obras completas de Debussy que teria comprado na Editora Durand da Place de la Madeleine. 
Gershwin viria a classificar esta obra como um "bailado rapsódico", e mesmo com a falta de uma narrativa que servisse de fio condutor em mente, o programa da estreia de 13 de Dezembro de 1928 viria a conter um texto de Deems Taylor que serviria de suporte literário da obra. A história imaginada por Taylor, nessa noite ao som da Orquestra Filarmónica de Nova Iorque dirigida por Walter Damrosch, sobre um turista norte-americano solitário numa aventura à descoberta de Paris, algumas vezes nostálgico com saudades de casa, tornar-se-ia na sinopse perfeita para ilustração da música, um domínio posteriormente desafiado pelo argumento do filme vencedor dos Óscares da Academia protagonizado por Gene Kelly e Leslie Caron, que Vincente Minnelli realizaria em 1951.
Em boa verdade, agora que penso nisto, não me recordo de ter havido maior homenagem a uma peça de música do que a realização do filme Um Americano em Paris inspirado na música Um Americano em Paris.
Se assim for, George sem dúvida que o terá merecido.

 
Nuno Oliveira

                          



"Rhapsody in Blue"
"Um Americano em Paris"


✨ Extractos que proponho para audição: (Rhapsody in Blue) (ver também publicação nº 91)
  • Michael Tilson Thomas
  • New World Symphony
  • Michael Tilson Thomas
  • RCA, 09026-68798-2 (v. original da estreia c/ a Orquestra de Paul Whiteman)
✿"o belo": (Realmente, é difícil imaginar melhor que isto. Um registo incontornável
                e de referência absoluta, oferecido por um grupo de músicos de excepção!)
                [youtube]: clarinete, aos 0:00-0:47 ("o belo" exemplo de sons que valem uma
               "moeda", oferecido por Jerry Simas, o clarinetista da San Francisco Symphony
                descendente de avô açoriano!); metais..., aos 4:56-5:08 (...derretidos.); piano,
                aos 6:25-7:03 (A outra maneira de dizer.); madeiras, aos 10:57-11:45
                (A aragem do Hudson... sentida em Manhattan...); tutti, aos 16:18-17:12
                (O final que ansiamos ouvir!).






  • Peter Donohoe
  • London Sinfonietta
  • Simon Rattle
  • EMI, 5 57691 2 (orq. de Ferde Grofé p/ Jazz Band)
✿"o belo": (O estilo está lá e o virtuosismo também, numa excelente escolha a não
                perder.) [youtube]






  • Misha Dichter
  • Philharmonia Orchestra
  • Neville Marriner
  • Philips, 411 123-2 PH (orq. de Ferde Grofé p/ orquestra)
✿"o belo": (Som generoso e interpretação persuasiva de Dichter. Um registo sublime
                a ter em conta também.) [youtube]






  • Jean-Yves Thibaudet
  • BBC Symphony Orchestra
  • Hugh Wolff
  • Decca, 460 503-2 DH (orq. de Ferde Grofé p/ orquestra)
✿"o belo": (A elegância, descontração e detalhe de Thibaudet. Uma proposta mais
                pessoal e intimista a descobrir.) [youtube]







✨ Extractos que proponho para audição: (Um Americano em Paris)
  • Cleveland Orchestra
  • Riccardo Chailly
  • Decca, 417 326-2 DH (também com a v. p/ dois pianos e orq. da Rhapsody in                          Blue, interpretada p/ Katia e Marielle Labèque; [youtube])
✿"o belo": (Visão sumptuosamente gravada e maravilhosamente interpretada. Repleta
                de pormenores que nos fazem sentir Paris... e as buzinas só podem ser as dos
                icónicos Citroëns! A não perder!)
                [youtube]: tutti e percussão, aos 0:00-1:08 (A azáfama da urbe parisiense com
                o buzinar dos bólides nativos.); madeiras, aos 3:15-3:54 (A doce nostalgia e as
                saudades de casa sentida por aqueles "arrondissements".); trompete e saxofone
                (sim!), aos 7:20-8:10 (Cabaret? Oui!); tuba, aos 15:07-15:25 (Solo!); tutti, aos
                16:52-17:36 (O apogeu final!).






  • San Francisco Symphony Orchestra
  • Seiji Ozawa
  • Deutsche Grammophon, 419 625-2 GH
✿"o belo": (Interpretação viva e performance irrepreensível da orquestra europ... perdão,
                norte-americana, sabiamente dirigida pelo mestre europ... perdão, nipónico. Um
                clássico parisiense dos anos 70 a não perder. PS: excelentes complementos por
                Bernstein e Russo.) [youtube]






  • BBC Philharmonic
  • Yan Pascal Tortelier
  • Chandos, CHAN 9325
✿"o belo": (Som espacial, performance cirúrgica e alguns detalhes [as trompas aos
                5:48-5:59 são um bom exemplo], fazem deste registo uma boa opção.) [youtube]





  
   
✰ Outras sugestões: (Rhapsody in Blue, Um Americano em Paris)
  • Louis Lortie/Charles Dutoit/Orchestre Symphonique de Montréal/Decca, 425 111-2 DH, [RB - orq. de Ferde Grofé p/ orquestra] [youtube], [AP] [youtube]




  • Andrew Litton/Dallas Symphony Orchestra/Delos, DE 3216, [RB - v. original da estreia c/ a Orquestra de Paul Whiteman] [youtube], [AP] [youtube]




  • James Levine/Chicago Symphony Orchestra/Deutsche Grammophon, 431 625-2 GH, [RB - orq. de Ferde Grofé p/ Jazz Band] [youtube], [AP] [youtube]




  • Katia & Marielle Labèque/EMI, CDC 7 47044 2 [AP - versão original p/ dois pianos] [youtube]






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George Gershwin (ao piano) ao lado do seu irmão Ira, com Fred Astaire e Ginger Rogers (sentados)
[Produção do filme "Shall We Dance", 1937]





George Gershwin (à esq.), as 4 buzinas de táxi trazidas de Paris, James Rosenberg (percussionista da Cincinnati Symphony 
Orchestra) e o tenor Richard Crooks [Concerto de "Um Americano em Paris" p/ Cincinnati Symphony Orchestra, Março/2029]




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Diniz Camelo [2º à esq. no contrabaixo, orq. Camisas Verdes, Casal d'Álvaro, Águeda, 1970s...


e destacado no bombardino, Banda Alvarense, Casal d'Álvaro, Águeda, programa Arco Iris da RTP, 1987]





Eugénio Abrantes [1º à dir. no sax alto, orq. Rua d'Além, Águeda, 1950s].






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A Place de la Madeleine [Paris, 2014].




A Avenue du Grand Armée da janela do hotel junto à loja de peças auto
[Paris, 2014].




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