terça-feira, 1 de novembro de 2022


75. Beethoven: sinfonia nº 5 |

A "Sinfonia nº 5" de Ludwig van Beethoven e a transição espiritual da humanidade ao encontro de um "Destino" Romântico de proporções cósmicas.






Em homenagem às 5 Bandas Filarmónicas que constituem a União de Bandas de Águeda; durante décadas sinónimas de:
Bravura sonora, Brilhantismo artístico, Beleza interpretativa, Bondade colectiva e Brio individual.
Tudo isso merece um grande Bravo, tudo isso merece uma enorme 5ª do gigante Beethoven.






"Tcham, tcham, tcham, tchaaaaam!".
Seria assim que naquele ano de 1808 Ludwig van Beethoven (1770 - 1827) daria a conhecer ao mundo a sua "Sinfonia nº 5, em dó menor", obra maior que teria começado a esboçar a partir de 1804 e que o imortalizaria na memória dos homens, tornando-se a sua imagem de marca mais popular, reconhecida em qualquer recanto do mundo (à partida...).
Na realidade, este famoso tema de quatro notas ferozes que dominaria o primeiro andamento e apareceria nos restantes três, seria aquele que viria a provocar pela primeira vez na obra do compositor uma sensação de coerência num desenvolvimento crescente até se alcançar o resultado final, fosse este conseguido através do contexto puramente musical, com a produção de diversidade melódica a partir daquela unidade temática simples, ou ligando-a eventualmente a alguma ideia de carácter mais poético ou mesmo filosófico. Por outras palavras, a defesa da razão que daria a tal sensação de unidade aos quatro andamentos e a consequente fama a esta sinfonia, dividir-se-ia entre os que se apoiariam nas relações internas da própria música e os que, por outro lado, entenderiam a existência de um programa poético por trás de tudo isto (na minha infância aprendi que a tabuada cantada tinha outra graça, pelo que provavelmente todos terão um pouco de razão se apostarmos num pensamento equilibrado).
Em todo o caso, podemos sempre contar com a declaração que o próprio compositor faria acerca do início violento desta sua quinta sinfonia: "E é assim que o destino bate à porta!". Ora, se dúvidas houvessem as mesmas tender-se-iam a dissipar com esta referência categórica, pelo que na mente do público esta obra viria a estar tendencialmente ligada a ideias não musicais, como seriam o conflito, o triunfo, a liberdade e a fraternidade, todas elas noções associadas a uma Revolução Francesa ocorrida à já quase duas décadas (admite-se que o nosso Ludwig van estaria à muito tempo obcecado com ideias de revolução e igualitarismo, existindo inclusive uma peça coral do estimado Cherubini escrita com um texto alusivo à Revolução Francesa, que anteciparia vivamente o famoso motivo que viria a servir de base a esta sinfonia). Para além disso, Anton Schindler, o secretário pessoal do compositor e o seu primeiro biógrafo, viria ainda a introduzir a ideia de uma "chave do destino", e, com base nisso, a apelidar esta obra de "Sinfonia do destino", definindo, a partir daí, as linhas de orientação para a sua interpretação romântica, com o drama a ocupar o lugar central no palco, que muitos ilustrariam como a chegada da luz da manhã depois de uma noite de trevas ou como a batalha até à vitória final.
Beethoven começaria então a escrever a sua quinta sinfonia logo após a conclusão da terceira ("Heroica"). Contudo, diversas razões, incluindo a necessidade de ganhar a vida com outras composições (recordo que o mestre seria um dos primeiros compositores independentes do seu tempo, sem um empregador ou uma remuneração regular), fariam com que Beethoven viesse a interromper o seu trabalho por várias ocasiões ("pausa" entre 1804 e 1806 para escrever o concerto para piano nº 4, a sinfonia nº 4 e o concerto para violino; "attacca" de novo em 1807 ao mesmo tempo que escreve a sua sinfonia nº 6, "Pastorale", concluída poucos meses depois desta quinta), sendo que a carta que o compositor enviaria ao Conde Franz von Oppersdorf, personalidade que lhe teria encomendado esta sinfonia, viria a confirmar que a mesma não teria sido concluída até à primavera de 1808, provando, deste modo, o extenso período de gestação da obra, com praticamente cinco anos passados desde o seu esboço inicial.
Por outro lado, apesar da obra já ter sido paga, o Conde viria ainda a receber uma mensagem do compositor em Novembro desse ano: "Querido Conde! Sei que vai ficar com pouca consideração por mim, mas fui obrigado a vender a sinfonia que tinha escrito para si... a outro". Este "nobre" desagrado não teria, porém, valido a pena, visto que as dificuldades económicas de Beethoven não ficariam resolvidas com o histórico concerto de beneficência da Academia Musical de Viena, realizado a 22 de Dezembro de 1808 no Theater an der Wien, onde para além da estreia desta sua quinta sinfonia, seriam também apresentados o seu concerto para piano nº 4, a cena e ária "Ah! Perfido", excertos da missa em dó maior, e as estreias da sinfonia nº 6, "Pastorale" e da Fantasia Coral! Com efeito, o concerto não teria tido a aceitação que o compositor desejaria, tendo um jornal da época inclusive escrito que: "Existe apenas uma palavra para descrever este concerto: insatisfatório".
Para além disso, embora esta sinfonia tivesse sido apresentada com sucesso várias vezes no ano seguinte, os inúmeros erros cometidos viriam a impossibilitar a sua publicação (as cópias dos editores e as correcções do compositor teriam sido perdidas), pelo que a mesma só viria a ser publicada em 1826, no ano anterior ao da morte do compositor, e numa versão que, segundo reza a história, não o satisfaria particularmente. Beethoven viria ainda a exigir urgentemente aos editores a correcção dos erros existentes, mas seria tarde de mais, pelo que, infelizmente, nenhuma outra versão seria publicada no seu derradeiro ano de vida, nem tão pouco nos 150 anos seguintes.
Chegados aos nossos dias, podemos constatar algumas diferenças entre as várias versões disponíveis, umas baseadas na antiga publicação e outras representadas por estudos mais recentes sobre as intenções originais do compositor, elaboradas após análises cuidadas dos seus "Cadernos de Conversação" e da correspondência dos amigos (existe, aliás, uma carta famosa escrita por Franz Oliva a 10 de Abril de 1820, que diz assim: "Eu esqueci-me de lhe dizer que ontem alguns diletantes abreviaram a sua sinfonia; no terceiro andamento foi omitida quase metade da música."), diferenças essas que poderão ser percebidas de forma notória no terceiro andamento, com a introdução da repetição do primeiro tema (o registo de Kurt Masur é um bom exemplo), dando a este Allegro a estrutura de cinco partes habitual na obra de Beethoven desse período artístico.
Novidades à parte, no fundo, apesar desta obra icónica começar com um momento de inspiração "Cherubiniana", tudo o que se desenvolveria a seguir devemo-lo exclusivamente ao génio de Beethoven, pela criação das linhas melódicas a partir das quatro notas ferozes iniciais no Allegro con brio [I] e a sua utilização sob forma de variação subtil no Andante con moto [II], pelo fugato vigoroso no Allegro [III] que parodia o estilo orquestral do séc. XVIII com a atribuição da mesma linha melódica a violoncelos e contrabaixos (como a comédia de costumes que se adorava representar naquela época), pela passagem ininterrupta ao heroico Allegro [IV] e pela reaparição de sonoridades antigas vindas do além (o fantasma do tema...) antes da recapitulação final, vencidas pela força da luz que irradia dos triunfantes, dentre estes, os cinco novos que só chegariam agora: o flautim, o contrafagote e os três trombones, que de forma brilhante comunicarão pela primeira vez na literatura sinfónica a vitória final sobre a tragédia. Teria sido a primeira, mas seguramente que não seria a última...
...Desde 1843 que entre nós o Código Morse representa a letra "V", como Vitória, pelas sílabas "dit-dit-dit-dah". Á falta de melhor explicação, poder-se-á supor que o espírito artístico do romantismo (o fantasma do tema...) terá decerto baixado no pintor Samuel Morse.
...Desde 1977 que a sonda espacial Voyager 2 viaja para os lugares mais longínquos do universo. Leva consigo um disco de cobre com a gravação desta música para que outros possam escutar um exemplo de humanidade (...à chegada). Uma escolha acertada... seja ela pela crença na Criação da diversidade a partir da Unidade, seja ela pela vontade poética de transformar as trevas em Luz e a derrota em Vitória.    

   
Nuno Oliveira




"Sinfonia nº 5, em dó menor, op. 67"


✨ Extractos que proponho para audição: (nota: ver também publicações nº 3, 45, 62 e 81)
  • New York Philharmonic
  • Kurt Masur
  • Teldec, T2-77313
"o belo": toda a obra (Uma interpretação verdadeiramente poderosa e electrizante, com
                destaque para a sonoridade exuberante da orquestra da Big Apple e o talento
                do mestre Masur. "Tons" suaves nas madeiras, quentes nas cordas e acutilantes
                nos metais, desde o icónico "Tcham, tcham, tcham, tchaaaaam!" inicial até ao
                final de cortar a respiração. Um registo de eleição.), com alguns destaques,
                identificados a seguir;
                [I]: tutti, aos 0:00-2:13 ("o belo" e mais grandioso tema da história da música
                ocidental!); trompas, aos 2:55-2:59 ("o belo" ainda mais acutilante!); oboé,
                aos 4:36-4:51 (Uma pausa para "o belo" lirismo...); tutti, aos 6:28-7:27 (... e o
                esperado drama final ao espírito romântico!) [youtube]
                [II]: cordas e madeiras, aos 0:00-0:55 (Cordas quentes e madeiras suaves.),
                4:02-5:03 (Cordas quentes...) e 5:15-5:57 (...e madeiras suaves.); tutti, aos
                8:40-9:10 (Pronúncio do "fim"...) [youtube]
                [III]: trompa, aos 0:21-0:27 e 3:40-3:45 (Dois alarmes a despertar...[youtube]
                [IV]: tutti (...para dez minutos e trinta e cinco segundos d"o belo" júbilo!) [youtube]






  • Wiener Philharmoniker
  • Simon Rattle
  • EMI, 7243 5 57566 2 6
"o belo": (Uma actuação ao vivo no Musikverein de Viena onde se sentem a frescura e
                expressividade características do maestro inglês. Os instrumentos são modernos,
                mas a inspiração retorna à época da estreia, com contrastes bem marcados,
                vibratos curtos nas cordas e um final de festa e liberdade. Uma interpretação
                a não perder.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Chamber Orchestra of Europe
  • Nikolaus Harnoncourt
  • Teldec, 0630-10014-2
"o belo": (A exigência do mestre é grande, mas a resposta do grupo é de que tudo
                parece fácil. Quem sabe, sabe, e Harnoncourt e os músicos europeus
                sabem-no como ninguém. Luminoso e excitante. Simplesmente fabuloso.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Orchestre Révolutionnaire et Romantique
  • John Eliot Gardiner
  • Deutsche Grammophon, 445 944-2 AH
"o belo": (Uma interpretação fulgurante, com a elevada rotação e o virtuosismo
                orquestral "comme il faut". Final arrebatador em instrumentos de época
                e sentimentos que reflectem a urgência do nosso tempo. Uma experiência
                estimulante a não perder.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Los Angeles Philharmonic Orchestra
  • Carlo Maria Giulini
  • Deutsche Grammophon, 410 028-2 GH
"o belo": (O registo famoso do maestro italiano ao comando da gloriosa orquestra
                norte americana no início dos anos 80. Interpretação arrebatadora e com
                um final majestoso. Uma escolha ímpar e a não perder também.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Sinfonieorchester des Norddeutschen Rundfunks Hamburg
  • Günter Wand
  • RCA, RD 60092
"o belo": (Visão clara e directa, sonoridades incisivas e um final excitante sabiamente
                conduzido pelo mestre Günter Wand. Uma interpretação com carácter e uma
                excelente escolha também.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Sinfonieorchester des Norddeutschen Rundfunks Hamburg
  • Günter Wand
  • RCA, 09026 61930 2
"o belo": (Um registo gravado ao vivo em 1992, onde se destacam a sonoridade
                aveludada e os apontamentos de qualidade dos sopros. A energia é mais
                madura, o final não deixa de nos arrepiar. Boa escolha.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Berliner Philharmoniker
  • Herbert von Karajan
  • Deutsche Grammophon, 413 932-2 GH
"o belo": (As sonoridades sumptuosas numa interpretação espontânea, como só o mito
                von Karajan/Berliner Philharmoniker pode oferecer. Uma magnífica opção.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • The Philadelphia Orchestra
  • Riccardo Muti
  • EMI, CDC 7 47447 2
"o belo": (Como nos ensina a história: um maestro italiano e uma orquestra americana
                só podia dar numa 5ª explosiva. Uma boa escolha, e a ter em conta também.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]





  
   
✰ Outras sugestões:
  • Leonard Bernstein/Wiener Philharmoniker/Deutsche Grammophon, 431 049-2 GBE (Interpretação apelativa entre a excitação e a introspecção, com um final emocionante registado ao vivo no Muzikverein de Viena no final dos anos 70.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]




  • Kurt Masur/Gewandhausorchester Leipzig/Philips, 426 782-2 PH (Sonoridade redonda e interpretação controlada. Uma boa opção para os que preferem a majestosidade à rebeldia.) [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]




  • Carlo Maria Giulini/La Scala Philharmonic Orchestra/Sony, 82876782152 (O bater pausado do coração esclarecido do mestre Giulini, a caminho dos 80 anos de idade. Uma visão para descobrir.) [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]





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Ludwig van Beethoven [Viena, 1807]




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As 5 bandas filarmónicas da União de Bandas de Águeda (UBA)

34º Festival da UBA [Fermentelos, Águeda, 02-10-2022]


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Banda Alvarense (Casal d'Álvaro, n. 1905)

34º Festival da UBA [Fermentelos, Águeda, 02-10-2022]


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Banda Castanheirense (Castanheira do Vouga, n. 1896)

34º Festival da UBA [Fermentelos, Águeda, 02-10-2022]


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Banda Marcial (Fermentelos, n. 1868)

34º Festival da UBA [Fermentelos, Águeda, 02-10-2022]


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Banda Nova (Fermentelos, n. 1921)

34º Festival da UBA [Fermentelos, Águeda, 02-10-2022]


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Orquestra Filarmónica 12 de Abril (Travassô, n. 1925)

34º Festival da UBA [Fermentelos, Águeda, 02-10-2022]


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34º Festival da UBA [Fermentelos, Águeda, 02-10-2022]



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sábado, 8 de outubro de 2022


74. Tchaikovsky: O lago dos cisnes |

A música de Tchaikovsky para o bailado "O lago dos cisnes" e o estatuto de uma acção que se sente... mesmo quando não se vê.






Para a Rita e o Xavier.
Que a vossa união seja como um conto de fadas que acaba bem.



(Recordo-me da primeira vez que vi esta obra ao vivo. Foi em 2007, numa apresentação pela Companhia Nacional de Bailado com coreografia de Mehmet Balkan segundo Marius Petipa, realizada no Teatro Camões, em Lisboa, no dia 20 de Dezembro.
Aquele cisne chamado Ana Lacerda ainda me aparece em sonhos...

A última foi há um ano atrás, em Madrid, no Auditório Nacional de Música. Naquela noite de 19 de Outubro, ouviram-se extractos do bailado pela Orquestra Filarmónica de Londres, dirigida por Alexander Zemtsov.
Aquele cisne simbolizado no oboé de Daniel Finney ecoa desde então...)






Se acreditarmos que a associação do sonho à música nos traz o bailado, então o sinónimo de bailado só nos poderia levar a Pyotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893) e ao seu icónico O lago dos cisnes, op. 20.
Os que apreciam uma das formas de arte supremas que é o bailado, conhecerão seguramente o grande respeito e admiração que este compositor teria pela música de dança, justificado não só pelos três dos maiores bailados da história da música que escreveu (O Quebra Nozes e A Bela Adormecida completam o grupo), mas também pela integração de conceitos de dança, especialmente a valsa, nas suas óperas (um bom exemplo são as danças utilizadas em Voyevoda) e música de câmara (lembro-me da belíssima valsa da Serenata para cordas, op. 48), passando por inúmeras obras sinfónicas até chegar à fatídica Sinfonia nº 6, op. 74 e ao seu Allegro con grazia que a mim me seduz a deslizar de forma tudo menos "Patética".
Pyotr Ilyich teria, inclusive, ficado bastante irritado com Sergei Taneyev no seguimento dum comentário sobre um aparente "sabor inapropriado a bailado" que o incauto amigo teria sentido na partitura da sua quarta sinfonia (não lhe teria sabido a papel de música portanto, pelo que supor-se-ia que estaria na posse das adequadas faculdades apreciativas, ou, neste caso, depreciativas, o que nos deixa sem hipóteses viáveis de especulação sobre o motivo que levaria o menor compositor a estas declarações... embora o facto de "menor compositor" possa estar na sua génese, como habitualmente), obrigando mesmo o compositor a responder com um "Eu simplesmente não consigo compreender porque é que o termo é associado a algo reprovável. Existe uma coisa como boa música de bailado."
Como poderão constatar nos exemplos auditivos que proponho a seguir: é claro que há!
A encomenda para a criação de um bailado chegar-lhe-ia no verão de 1875 pelo director dos Teatros Imperiais, sendo importante realçar que pedir a um compositor de sinfonias que escrevesse a música para um bailado era um acto pouco comum naquela época. Na realidade, essa área era até aí reservada aos compositores especialistas nesse género musical, habituados exclusivamente a escrever naquele registo e que não comporiam qualquer outro tipo de música, pelo que, seria assim, com Tchaikovsky, que essa prática mudaria, os bailados começariam a ser conhecidos especialmente pelos nomes dos seus compositores e as suas músicas tornar-se-iam no mínimo tão importantes quanto as restantes componentes artísticas que configurariam o bailado em si mesmo.
Mais tarde, entre os meses de Agosto de 1875 e Abril de 1876, chegaria a altura de agarrar a oportunidade de amadurecer as suas ideias para a criação de um bailado completo, ajudado pelos inúmeros debates e discussões que ocorreriam entre as paredes da sua popular residência, invariavelmente frequentada pelos mais influentes artistas da época.
Já a escolha da história, essa começaria alguns anos antes, no verão de 1871. De visita à sua irmã na Ucrânia, Pyotr Ilyich decide escrever um pequeno bailado para entretenimento dos seus sobrinhos (as sobrinhas mais velhas e o seu irmão Modest acabariam eventualmente por fazer parte da necessária trupe familiar de dançarinos e mimos) e assim nasceria a versão embrionária d' O lago dos cisnes, baseado num conto que teria encontrado no Die Volksmärchen der Deutschen, uma coleção de fábulas e contos de fadas do escritor alemão do séc. XVIII, Johann Karl August Musäus.
A história de carácter trágico com raízes no folclore germânico, conta como o Príncipe Siegfried jura o seu amor a Odette (o Cisne Branco) para tentar redimir o feitiço lançado pelo maligno feiticeiro Rotbart, que apenas permitia a Odette e ao seu grupo de amigas (o Bando... ou melhor, Corpo de Baile) assumir a sua forma humana durante a noite, e a maneira como este príncipe seria enganado pela sósia vilã, Odile (o Cisne Negro), levando-o a trair a sua promessa de amor e a provocar o consequente final dramático... na versão clássica. Na realidade, e à parte das questões de conteúdo estritamente musical, a verdade é que nas últimas décadas tem havido algumas variações no desenvolvimento da história de uma produção para outra. Nas versões correntes, Odette e as suas amigas seriam transformadas em cisnes durante o dia devido ao feitiço de Rotbart, mas no cenário original elas próprias teriam já o poder de se transformarem. Em algumas versões a arma do Príncipe é uma besta, noutras é um mosquete. Segundo ainda alguns entendimentos, Odette afoga-se na vez de morrer nos braços de Siegfried, seguindo-se depois o mergulho deste, acabando os seus espíritos por subir aos céus, e outros há, inclusive, que preferem o final feliz, aquele que de coração cheio desejo para a vida em comum dos destinatários destas linhas e destes sons, com Siegfried a vencer Rotbart num duelo e a viver feliz para sempre com Odile, ups, Odette... ou seria com as duas!? Talvez isso pouco importe. Em cada um daqueles que, como nós, vive de coração cheio, haverá sempre muita da Luz do Cisne Branco, mas também alguma da Sombra do seu sósia Negro. Como tem de ser...
... e por falar nisso, o grande dançarino e coreógrafo George Balanchine, diria ainda que "O lago dos cisnes está sempre a mudar. Como tem de ser. A tradição nas actuações (...) depende dos caprichos dos coreógrafos, dançarinos, cenógrafos, músicos e do público". Se calhar é um pouco verdade... só que o rapaz destas linhas habituou-se a ser trágico a usufruir da arte enquanto procura ser espirituoso a absorver a vida, e, por esse motivo, há-de julgar que o final clássico desta história assentar-lhe-á melhor... ao mesmo tempo que comodamente e em boa companhia, se auxilia de um bom whiskey velho para desenvolver a decorrente reflexão ("É o carácter dos Touros.", como costumo justificar o lado Cinzento à minha cara metade...).
Assim, não será nenhuma surpresa a adopção da versão clássica para tentar contar uma história que começa com uma breve introdução interpretada antes do subir do pano [1], com o oboé a dar o mote para o famoso tema do cisne que se desenvolverá durante a obra, seguindo-se depois os quatro actos que formam o bailado.
O primeiro acto decorre no campo exterior a um castelo medieval alemão. O jovem Príncipe Siegfried, os seus amigos e o seu velho tutor Wolfgang encontram-se reunidos na véspera do aniversário do príncipe, que atingirá a maioridade em breve [2]. Alguns aldeões chegam depois para o felicitar ao mesmo tempo que dançam para ele [3], mas a mãe do Príncipe interrompe as festividades para relembrar o filho de que a chegada da maioridade significa também a altura para escolher uma noiva, e que ele deve fazer essa escolha no dia seguinte, durante o seu baile de aniversário. A dança retorna depois da mãe sair, e à medida que a noite cai todos os seus amigos se juntam com os copos na mão para uma dança final. Entretanto, um grupo de cisnes é avistado a voar ao longe e Siegfried, intrigado, sai para os caçar juntamente com os seus amigos.
Segue-se o segundo acto, junto às margens do lago, com as montanhas de fundo e as ruínas de um velho castelo não longe dali. Siegfried observa à luz da lua os cisnes que deslizam do lago e entram na floresta [4]. Repara que a líder do grupo usa uma coroa na cabeça e enquanto eleva a sua besta e a aponta, os cisnes transformam-se subitamente em belas donzelas. Odette, a rainha dos cisnes, conta-lhe a sua história: o maligno feiticeiro Rotbart, em conluio com a sua malvada madrasta, lançara-lhes um feitiço, transformando-as em cisnes durante o dia e retornando-as à forma humana durante a noite. Apenas o compromisso do amor de um homem, puro e inabalável, poderia quebrar o feitiço, mas se por outro lado Odette fosse traída pelo seu amado isso seria o seu fim. Rotbart faz uma aparição ameaçadora sob a forma de uma coruja gigantesca com olhos ferozes, e Siegfried, embora abalado, faz-lhe frente. O Príncipe destrói a sua besta a seguir, jura o seu amor imortal por Odette e suplica-lhe que se encontre com ele no seu baile de aniversário para que a possa escolher para sua noiva. As danças das donzelas-cisnes [5] dão lugar ao momento no qual Siegfried e Odette declaram o seu amor (com magníficos solos de violino e violoncelo, replectos de simbolismo) [6], e à medida que o dia amanhece vemos Odette e as suas amigas transformarem-se de novo em cisnes, acompanhadas pel"o belo" tema do cisne conduzido tragicamente pelo oboé [7], reflectindo a tensão sentida pela espera e pelo resultado que o dia seguinte trará.
Chegamos depois ao terceiro acto e ao baile de aniversário do Príncipe. Os convidados juntam-se no salão de baile do castelo e as festividades começam. Fanfarras anunciam a chegada das seis princesas candidatas à escolha do príncipe. Siegfried não encontra nenhuma de que gostasse, mas depois de uma valsa sumptuosa, Rotbart faz uma entrada inesperada trazendo pela mão a sua própria filha Odile transformada numa dupla de Odette (criando-se, desta forma, o duplo papel que traria os maiores desafios a uma bailarina, não sendo descabido supor-se até alguma inspiração autobiográfica, tendo em conta que Pyotr Ilyich seguramente compreenderia o significado de uma dualidade difícil de viver, atendendo às suas orientações afectivas, contrárias às esperadas com o seu casamento). Siegfried dança com Odile, e depois de uma série de danças nacionais trazidas pelos convidados estrangeiros [8-9-10-11], apresenta-a à mãe como a sua eleita. Subitamente, o salão de baile torna-se escuro, Rotbart assume a forma de coruja e voa para longe gritando o seu triunfo, enquanto Odile sorri e desaparece. Através de uma janela, Siegfried vê um cisne branco com uma coroa, reconhece-o como a verdadeira Odette e apressa-se a ir ao seu encontro em desespero pelas consequências de ter sido enganado.
Um entreacto estabelece o ambiente para a cena final (quarto acto). Na margem do lago, as amigas de Odette aguardam o seu regresso com grande preocupação. Perseguida pelo perturbado Siegfried, Odette apressa-se para o abraço de despedida junto delas enquanto uma tempestade, que faz acentuar o carácter emotivo da cena, se aproxima. Siegfried suplica o perdão a Odette, mas ela morre nos seus braços. Desolado, retira-lhe a coroa e atira-a para o lago provocando a subida das águas que os engole aos dois. Quando as águas retrocedem não há nenhum vestígio do casal de apaixonados, os cisnes sobreviventes recomeçam a deslizar tristemente ao longo do lago e o tema do cisne escuta-se pela última vez como testemunha da união de Siegfried e Odette para a eternidade [12]... Como tem de ser.
A estreia desta história desconcertante pelo Teatro Bolshoi de Moscovo, a 14 de Março de 1877, desconcertaria também alguns bailarinos em evidente falta de forma e alguns músicos de menor talento, habituados talvez a interpretações de caracter mais ligeiro e menos sinfónico, com as consequentes queixas acerca da complexidade de uma partitura de bailado escrita como se uma sinfonia se tratasse, o mesmo motivo que levaria, curiosamente, à publicação de uma suite orquestral pela editora P. Jugerson, em 1900. Mesmo assim, a obra alcançaria um respeitoso sucesso, que imagino poder ter roçado o desrespeitoso ou mesmo obsceno (como metáfora de grandioso, notem), caso não tivesse havido ainda lugar para a descoordenação dos três cenógrafos envolvidos, a coreografia inadequada de Julius Reisinger e a desastrosa direcção musical de Stepan Ryabov.
Em boa verdade, nenhuma das três produções apresentadas nas quarenta e duas exibições realizadas enquanto o compositor foi vivo, teriam tido a coreografia que o bailado mereceria, e seria apenas após a sua morte, em Novembro de 1893, que num concerto de tributo à sua memória realizado em Fevereiro de 1894, esta obra viria a despertar renovado interesse com a apresentação do segundo acto coreografado por Lev Ivanov.
Ainda assim, seria necessário mais um ano para que este bailado se começasse a afirmar. A 27 de Janeiro de 1895 seria apresentada no Teatro Maryinsky de São Petersburgo uma versão inteiramente nova imaginada por Marius Petipa, o famoso bailarino de origem francesa, e Ivanov, que era o seu assistente naquela altura. A nova versão envolveria algumas mudanças na estructura musical acordadas com Modest Tchaikovsky, o irmão do compositor, e o resultado seria então a fonte do sucesso internacional que viria a consagrar este O lago dos cisnes como o mais reverenciado de todos os bailados.
Pode parecer difícil de aceitar, mas acredito que enquanto houver penas nos tutus do palco e nos corações da plateia, é bem possível que se mantenha assim.
 
Nuno Oliveira     
       



"O lago dos cisnes, op. 20"


✨ Extractos que proponho para audição: (nota: ver também publicações nº 4, 22 e 51)
  • Saint Louis Symphony Orchestra
  • Leonard Slatkin
  • RCA, 7804-2-RC (bailado completo)
"o belo": obra replecta de momentos memoráveis (Orquestra norte-americana totalmente
                empenhada, solistas fabulosos nas cordas e nos sopros, e acima de tudo a
                sensibilidade e visão convincente do mestre Slatkin. Um registo extraordinário do
                bailado completo. A não perder!), com alguns destaques, identificados a seguir;
                [1] Introdução: tutti, (O drama vem primeiro...) [youtube]
                [2] 1º Acto, Cena: tutti (...mas também há alegria!) [youtube]
                [3] 1º Acto, Valsa: tutti (Um "o belo" viciante? Valsa de Tchaikovsky!) [youtube]
                [4] 2º Acto, Danças dos cisnes/Tempo de valsa: tutti (Cisnes vienenses!) [youtube]
                [5] 2º Acto, Danças dos cisnes/Allegro moderato: tutti ("o belo" que é uma melodia
                inesquecível!) [youtube]
                [6] 2º Acto, Danças dos cisnes/Pas d'action: violino e violoncelo (Jacques
                Israelievitch e John Sant'Ambrogio num excelente exemplo d"o belo"!) [youtube]
                [7] 2º Acto, Cena (tema do cisne): oboé e tutti (Um ícone d"o belo"!) [youtube]
                [8] 3º Acto, Dança húngara: tutti (Um sabor eslavo...) [youtube]
                [9] 3º Acto, Dança espanhola: tutti (Castanholas e música mediterrânica!) [youtube]
                [10] 3º Acto, Dança napolitana: trompete (O brilho do metal transalpino!) [youtube]
                [11] 3º Acto, Mazurka: tutti (... e um cheiro do norte.) [youtube]
                [12] 4º Acto, Cena final: harpa, trompas e tutti (Ritmos angustiantes entre tempos e
                contratempos e "o belo" tema ao baixar o pano para a eternidade!) [youtube]






  • London Symphony Orchestra
  • Michael Tilson Thomas
  • Sony, 887254196525 (extractos do bailado)
"o belo": (Som exuberante e detalhes bem visíveis com a harpa em destaque. De sonho
                "o belo" tema do cisne e um final da obra de arrepiar! Um excelente exemplo
                da dupla Tilson Thomas/LSO e uma fabulosa escolha também.)
                [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube], [4] [youtube], [5] [youtube],
                [6] [youtube], [7] [youtube], [8] [youtube], [9] [youtube], [10] [youtube],
                [11] [youtube], [12] [youtube]






  • London Symphony Orchestra
  • Pierre Monteux
  • Philips, 420 872-2 PSL (extractos do bailado)
"o belo": (Sonoridade opulente e interpretação poderosa, com um final hiper majestoso,
                por vezes difícil de aceitar, mas replecto de uma intensidade e dramatismo à
                prova de bala. Uma referência. Aquisição obrigatória.)
                [2] [youtube], [3] [youtube], [4] [youtube], [5] [youtube], [6] [youtube],
                [7] [youtube], [8] [youtube], [9] [youtube], [12] [youtube]






  • Berliner Philharmoniker
  • Herbert von Karajan
  • Deutsche Grammophon, 419 175-2 GH (suite do bailado)
"o belo": (O registo que marcou os anos 70. Sumptuosidade orquestral berlinense e
                o coração de Herbert von Karajan. Obrigatório nas melhores colecções.)
                [3] [youtube], [5] [youtube], [7] [youtube], [8] [youtube], [12] [youtube]






  • Orchestre Symphonique de Montréal
  • Charles Dutoit
  • Decca, 41 344 3 (suite do bailado)
"o belo": (A visão intensa do mestre Dutoit interpretada de forma emocionante pela
                 orquestra canadiana. Sonoridades orquestrais calorosas, com os timbres
                do violino de Chantal Juillet e do violoncelo de Guy Fouquet em destaque.
                Uma magnífica aquisição.)
                [3] [youtube], [5] [youtube], [6] [youtube], [7] [youtube], [8] [youtube]






  • Saito Kinen Orchestra
  • Seiji Ozawa
  • Philips, 446 725-2 PH (suite do bailado)
"o belo": (Bravura e lirismo numa interpretação da orquestra nipónica dirigida
                magistralmente pelo mestre Ozawa. Sonoridade detalhada e um registo
                cristalino do tema do cisne p'"o belo" oboé. Uma escolha de excelência.)
                [extractos] [allmusic]






  • Philharmonia Orchestra
  • Herbert von Karajan
  • EMI, CDZ 25 2201 2 (suite do bailado)
"o belo": (A elegância de von Karajan numa gravação enigmática realizada no longínquo
                ano de 1959. Um registo histórico e uma extraordinária opção a ter em conta.)
                [3] [youtube], [5] [youtube], [6] [youtube], [7] [youtube], [8] [youtube]






  • Israel Philharmonic Orchestra
  • Zubin Mehta
  • Decca, 410 551-2 DH (suite do bailado)
"o belo": (Som exuberante, no limite do excessivo nos metais, com excelentes solos de
                oboé, violino e violoncelo. O refinamento interpretativo existe, embora falte
                alguma subtileza às vezes. Boa escolha.)
                [3] [youtube], [5] [youtube], [6] [youtube], [7] [youtube], [12] [youtube]





 
   
✰ Outras sugestões:
  • James Levine/Wiener Philharmoniker/Deutsche Grammophon, 437 806-2 GH (suite do bailado) (As cordas são de Viena e a atmosfera é a do Muzikverein. A escolha para os que gostam de sonoridades encorpadas.), [3] [youtube], [5] [youtube], [6] [youtube], [7] [youtube], [8] [youtube], [12] [youtube]









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"Cisnes Brancos e Negros"

Tchaikovsky em lua de mel com a esposa Antonina Miliukova [1877] e com o violinista Josef Kotek [1877]





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"A Sra. Rita e o Sr. Xavier".
Hotel Palácio da Borralha [Águeda, 08-10-2022]


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"O Cisne Ana Lacerda"

"O Lago dos Cisnes" [Lisboa, Dezembro de 2007]




"O Cisne Daniel Finney"

"O Lago dos Cisnes" [Madrid, Outubro de 2021]


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