domingo, 27 de fevereiro de 2022


66. Bruckner: sinfonia nº 4, "Romântica" |


A Sinfonia nº 4 de Anton Bruckner, "Romântica" de nome, "Reflexão íntima" de apelido.





Em homenagem ao povo livre ucraniano.
Para o João que está de parabéns e para a "Trompa mágica do... padrinho".

(...ainda guardo na memória a minha última 4ª, um sonho oferecido pela Orquestra do Real Concertgebouw de Amesterdão e o maestro Mariss Jansons. Foi em 2014, estava em Paris.)






Quando num dia de Inverno de 1873 um dos alunos de Anton Bruckner (1824-1896), genuinamente preocupado com a visível falta de conforto no apartamento do mestre, no nº 41 da Währinger Strasse, lhe aconselhou a casar, o compositor replicaria com aquela pacatez que lhe era peculiar: "Não tenho tempo meu querido amigo. Tenho a minha quarta sinfonia para compor.". E assim seria sempre, ano após ano, até à derradeira nona.
Com efeito, o compositor viria a completar a sua Sinfonia nº 4, "Romântica", a única obra à qual atribuiria um subtítulo, em Novembro de 1874, mas teria ainda de esperar mais sete anos até à calorosa recepção do público vienense, ocorrida na estreia de 20 de Fevereiro de 1881, pela Orquestra Filarmónica de Viena e o maestro Hans Richter.
Apesar dos seus cinquenta e seis anos de idade, Bruckner não seria um compositor mimado pelo sucesso e a aprovação mais generalizada da sua música só se tornaria um pouco mais visível a partir do lançamento da sua sétima sinfonia alguns anos mais tarde. Ainda assim, as experiências de má memória que teria tido com a apresentação ao público de obras anteriores não o desencorajariam a escrever mais uma sinfonia, facto a que deve ser dada a devida importância, inegável relevância e o profundo respeito pela resiliência desta rocha solitária no centro da praia artística vienense que era o nosso Anton.
Também nesta criação, a famosa insegurança de Anton Bruckner ver-se-ia compensada pela procura obsessiva da perfeição. De facto, depois de 1874, o autor viria ainda a revisar a obra em 1878 e a reescrever o final entre 1879 e 1880. Modificá-la-ia de novo entre 1886 e 1888, mas seria a versão de 1878-1880 aquela que chegaria aos nossos dias como a mais interpretada, apesar dos cortes e reorquestrações perpetrados pelos seus bem-intencionados amigos editores e antigos alunos, Josef Schalke e Ferdinand Loewe, que teria sido obrigado a tolerar, e cujo resultado verificar-se-ia aparentemente infeliz, demonstrando a incapacidade do duo para a compreensão da genialidade do compositor de Linz e exemplificando a máxima de que "quem não sabe não deve mexer". 
O subtítulo de "Romântica" surgiria apenas em 1876, tendo o autor inclusive adicionado um programa literário de acompanhamento, programa esse que viria a ser negligenciado desde o dia em que nasceu tendo em conta que também o próprio Anton se encontraria um pouco desencontrado com aquilo que andava a fazer e a sentir por aquela altura. Isso mesmo pode ser de certa maneira atestado pela narrativa escolhida para o primeiro andamento: "Uma cidadela da Idade Média. Amanhecer. Acordar com o som da torre. As portas abrem-se. Cavaleiros e carregadores orgulhosos saem do forte. A magia da natureza rodeia-os.", e pela afirmação naïve e refrescante sobre o quarto (andamento...): "No último andamento esqueci-me completamente do quadro que tinha em mente"... Ora, no final nada disto haveria de importar para Anton e para os seus fieis admiradores, ou não fosse uma peça de "música absoluta"  funcionar por si só como o próprio nome indica: "música absoluta" (entendi por bem sublinhar a ideia depois de escutar pela enésima vez a última intervenção da trompa de Philip Myers no final desta obra-prima... quem fizer o mesmo perceberá porquê).
Os quatro andamentos da obra percorrem os trilhos da natureza e da espiritualidade, tocando-se e fundindo-se entre si naqueles cruzamentos facilmente identificáveis pela pele de galinha que provoca aos ouvintes um pouco por todo o mundo. Abre [I] com um tema misterioso na trompa acompanhado por trémulos suaves nas cordas (uma das aberturas do reportório sinfónico mais belas da história), que depois se desenvolve num dos andamentos mais majestosos da obra de Bruckner. O segundo andamento, Andante [II], surge a seguir com as suas melodias distantes e o maravilhoso entrelaçar dos temas, replecto de misticismo e a fazer lembrar uma marcha fúnebre. Segue-se-lhe o terceiro andamento, um Scherzo [III] com o notório realismo, brilho e energia de uma atmosfera de caça, com os metais em grande destaque como seria de esperar, e o último andamento, Finale [IV], a vaguear pelo tempo e pelo espaço na busca da tranquilidade fundamental para as deliberações sensatas do homem, mais importantes do que nunca por estes dias. E acaba como começa; no nosso pensamento permanece o som meditativo da trompa com as novas e incomparáveis cores, o amarelo do sol germinador da vida e o azul do céu que ambicionamos um dia alcançar... "but not yet".
Slava Ukraini!

(PS: a sinfonia nº 4 de Bruckner foi interpretada em Berlim a 12 de Abril de 1945, num concerto pela Orquestra Filarmónica de Berlim dirigida por Robert Heger. Dias mais tarde o opressor caiu.)


Nuno Oliveira




"Sinfonia nº 4, em mi bemol maior, "Romântica""


✨ Extractos que proponho para audição:
  • Wiener Philharmoniker
  • Karl Böhm
  • Decca, 448 098-2 DF2
✿"o belo": toda a obra (ed. Nowak, 1878-1880: Mistério e grandiosidade no registo de
                referência desde 1973. Há quem diga que há este e depois todos os outros... e
                na realidade é quase assim. Magnífico e simplesmente imperdível!)
                [I]: trompa e tutti, aos 0:00-2:40 (Ambiente misterioso, sons cristalinos na trompa
                e o clímax que dá a entender o que aí vem...); violoncelos, aos 3:33-3:51 e
                16:13-16:31 (Um "pormaior" na voz.); tutti, aos 10:03-11:33 (Órgão de tubos
                orquestral!); cordas, aos 11:34-12:34 (A canção "Romântica" num minuto.);
                trompas, aos 19:27-20:03 (A verdadeira puxada!) [youtube]
                [II]: violoncelos, aos 0:00-0:31 e 8:07-8:38 (A beleza de uma canção.) [youtube]
                [III]: trompas e metais, aos 0:00-10:58 (Está aberta a época de caça!) [youtube]
                [IV]: tutti, aos 1:24-2:49, 5:44-6:47 e 11:14-12:43 (Poder orquestral supremo!); tutti
                aos 3:04-5:02 e 15:19-17:12 (A fonte onde Mahler bebeu...); trompa e tutti, aos
                18:03-21:00 ("o belo" solo de trompa e o mistério da apoteose final!) [youtube]






  • New York Philharmonic
  • Kurt Masur
  • Teldec, 4509-93332-2
✿"o belo": (ed. Haas, 1878-1880: Concentração extraordinária num registo ao vivo
                repleto de beleza e inspiração. Direcção vibrante do mestre alemão e a
                beleza sonora da trompa de Philip Myers, com "o belo" vibrato a abrir e a
                fechar o pano que nos atinge como um raio! Sublime e a não perder.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Berliner Philharmoniker
  • Eugen Jochum
  • Deutsche Grammophon, 449 718-2 GOR
✿"o belo": (ed. Nowak, 1878-1880: Visão fluida e reflectida do mestre Jochum, onde
                se sente a consciência da grandiosidade desta música. Marco histórico e
                único. Uma fabulosa escolha.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Berliner Philharmoniker
  • Herbert von Karajan
  • EMI, CDM 7 69006 2
✿"o belo": (ed. Haas, 1881: Sonoridade exuberante e poder orquestral que absorve todas
                as sensações ao seu redor. Os violinos "deslizam" com gosto. Som detalhado e
                timbres luxuriantes nas madeiras e nos metais. Um registo extraordinário e
                imperativo nas melhores colecções.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]





  • Berliner Philharmoniker
  • Herbert von Karajan
  • Deutsche Grammophon, 415 277-2 GH
✿"o belo": (ed. Haas, 1878-1880: Poder e poesia de mãos dadas numa performance
                de estatura histórica como só o mestre von Karajan poderia proporcionar.
                Uma escolha de referência.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Los Angeles Philharmonic
  • Esa-pekka Salonen
  • Sony, SK 63301
✿"o belo": (versão de 1878-1880: Proposta muito pessoal do mestre finlandês, com
                pormenores que se percebem de forma clara e virtuosa. Sonoridade
                exuberante e interpretação imaculada dos músicos da costa do Pacífico.
                Uma proposta de excelência a não perder também.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Chicago Symphony Orchestra
  • Georg Solti
  • Decca, 410 550-2 DH
✿"o belo": (ed. Nowak, 1878-1880: A versão directa, brilhante e poderosa de Georg
                Solti... e os metais são de Chicago! Sem dúvida uma das preferidas dos
                amantes dos decibéis.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Berliner Philharmoniker
  • Daniel Barenboim
  • Teldec, 8573-81787-2
✿"o belo": (ed. original, 1878-1880: Registo ao vivo maravilhosamente interpretado
                pelo mestre Barenboim e os músicos berlinenses. Uma boa opção.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Wiener Philharmoniker
  • Claudio Abbado
  • Deutsche Grammophon, 431 719-2 GH
✿"o belo": (ed. Nowak, 1878-1880: Registo onde sobressaem a sonoridade polida e a
                expressividade da batuta do mestre italiano. Uma boa escolha também.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






   
✰ Outras sugestões:
  • Günter Wand/Kölner Rundfunk-Sinfonie-Orchester/RCA, GD 60079 (ed. Haas, 1878-1880: A visão de um dos maiores interpretes desta obra.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]




  • Riccardo Muti/Berliner Philharmoniker/EMI, CDC 7 47352 2 (ed. Nowak, 1878-1880: Sensualidade e clímaces bem construídos numa gravação a descobrir.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube] 




  • Marek Janowski/Orchestre Philharmonique de Radio France/Virgin, VC 7 91206-2 (ed. Nowak, 1878-1880: Registo directo e assertivo, com destaque para as madeiras suaves e metais acutilantes. Final excitante.), [I-IV] [discogs] 




  • Simon Rattle/Berliner Philharmoniker/EMI, 3 84723 2 (ed. Nowak, 1886: Um exemplo da elegância de Rattle com um final inspirador.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]




  • Riccardo Chailly/Royal Concertgebouw Orchestra/Decca, 425 613-2 DH (ed. Nowak, 1878-1880: A sonoridade exuberante do Concertgebouw que se destaca.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]










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Anton Bruckner [Viena, 1886]




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"O padrinho..." [início dos anos 2000]


 

"... e o afilhado." [início dos anos 2010]






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"Nuvens ameaçadoras e o Azul e Amarelo, com o verde da esperança na chegada da pomba da paz"

 [Nelas, Rua da Serra da Estrela, nº 4, manhã de 27-02-2022]



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domingo, 30 de janeiro de 2022


65. Bruch: concerto p/ violino nº 1 |

A voz romântica que perdura num concerto para violino de Max Bruch, como um farol à procura de uma época e descoberta de outra vida.






Para os meus padrinhos das encostas do Vouga.
Pelas recordações de infância e memórias de um violino.






Nascido nove anos antes da morte do genial Mendelssohn e falecido dois anos depois do desaparecimento do impressionante Debussy, Max Bruch (1838-1920), o compositor alemão mais famoso de Colónia, viveria a longa vida dos oitenta e dois anos que a matemática divina havia calculado. À semelhança de Felix Mendelssohn, Max era, também ele, uma criança prodígio que mostrava orgulhosamente os dons musicais que lhe permitiam compor fluentemente desde os dez anos de idade. Com efeito, o filho do advogado August e da soprano Wilhelmine viria a escrever um elevado número de obras durante toda a sua extensa vida, entre concertos, sinfonias, óperas, música religiosa (pela qual viria a ter reconhecimento na sua época) e de câmara, mas seriam o seu primeiro concerto para violino, a sua Fantasia Escocesa para violino e as suas variações sobre o Kol Nidrei hebraico, para violoncelo, aquelas que, de forma quase exclusiva, lhe manteriam a fama e dariam a razão para que muitos melómanos (mea culpa) ainda hoje ouçam a sua voz.
Todavia, e apesar das qualidades evidentes de Kol Nidrei; escrito não por um judeu como muitos haveriam de pensar, mas por um protestante alemão como gesto de amizade para com a comunidade judaica de Liverpool (cidade onde teria habitado entre 1880 e 1883, na época em que dirigira a Sociedade Filarmónica), e da Fantasia Escocesa (estreada igualmente em Liverpool em 1881), seria principalmente o concerto para violino que teria escrito antes dos trinta anos, o primeiro dos três que comporia para este instrumento, a obra-prima que lhe viria a dar renome internacional. Ainda sobre Kol Nidrei, alguns daqueles que se equivocariam viriam a pertencer ao partido Nazi, que ironicamente haveria de banir a sua música por assumir, erradamente, que um compositor que escrevesse uma obra como aquela só poderia ser judeu (ter-se-á esquecido, seguramente, da premissa fundamental de que o pensamento e as ideias não têm crença ou cor).
Max Bruch viria assim a escrever o seu concerto para violino nº 1, em sol menor, op. 26, entre 1864 e 1866, ano em que o apresentaria pela primeira vez, mas sem grande sucesso. Esta situação, contudo, não o faria desistir da ideia, levando-o a uma revisão da partitura e a fazer um pedido de auxílio ao maior virtuoso daquela época, o violinista húngaro Joseph Joachim, músico que já antes teria ajudado também Johannes Brahms a escrever o seu próprio concerto para violino (ou "contra" o violino, como diria à época o maestro Hans von Bülow atendendo às dificuldades técnicas da parte solística, e mais tarde emendado pelo violinista Bronislav Huberman, descrevendo a obra como: "um concerto para violino, contra a orquestra, no qual o violino ganha!". Pormenores frugais que entendi caírem bem nesta resenha histórica de Bruch... ou não tivesse também von Bülow afirmado que Max escrevera realmente um concerto "para" violino!... ao contrário do de Brahms). Isto resultaria numa obra renovada, com dedicatória ao esforçado Joachim que viria de igual modo a ser o solista da estreia de Bremen, a 7 de Janeiro de 1868, num concerto que seguramente terá arrebatado o público e a crítica, atendendo ao que viria a ser referido pelo Neue Zeitschrift für Musik logo a seguir: "entre as melhores obras alguma vez escritas para violino". E realmente não será para menos. Arrebatamentos incluídos.
Apesar de ser perceptível a sua dívida para com o concerto para violino de Mendelssohn, esta obra é perfeitamente capaz de se destacar por si mesma pela forma estilística e expressiva que apresenta, enquanto a sua estrutura formal chega mesmo a revelar algumas características experimentais, características que podem ser encontradas nos catorze compassos iniciais impostos à orquestra antes da introdução do tema pelo solista, na decisão de manter o primeiro andamento como se de um "prelúdio" (descrito assim pelo compositor) se tratasse, no estilo de rapsódia livre no final e, sobretudo, na ausência da tradicional cadenza do solista. 
É razoável pensar que a beleza dos três andamentos que compõem este maravilhoso concerto terá muito da herança vocal de Bruch. O diálogo recitativo na introdução do Vorspiel-Allegro moderato [1], o caracter lírico do Adagio [2], repleto de emoção até ao clímax suave, e a "coloratura" tipicamente cigana, como uma espécie de agradecimento a Joachim, no Finale-Allegro energico [3], fazem-me sempre imaginar a Wilhelmine a cantar e o Max a registar. 
Não obstante o seu enorme sucesso, esta seria a obra que viria a perseguir Bruch durante toda a vida, uma vida de luta frustrante para replicar o seu espírito único e de lamento pela decisão pouco sábia que fora ter aceitado um único pagamento por uma obra-prima e, dessa forma, ter perdido uma provável fortuna em direitos.
Por vezes chego a pensar se não teria sido a busca por aquela época entusiasmante aquilo que o faria conhecer a cantora Clara Tuczek, com quem viria a casar para toda a vida e ter os seus quatro filhos. Estávamos em 1881, ele teria quarenta e três, ela dezasseis... teria nascido em 1865, no coração da criação deste divino concerto para violino de Max Bruch. 

 
Nuno Oliveira

                          



"Concerto p/ violino nº 1, em sol menor, op. 26"


✨ Extractos que proponho para audição: (ver também publicações nº 22, 48 e e 54)
  • Kyung Wha Chung
  • Royal Philharmonic Orchestra
  • Rudolf Kempe
  • Decca, 448 597-2 DM
✿"o belo": (Timbres cristalinos directos ao coração, num marco discográfico de mistério,
                 fantasia e amor legado por Chung. Músicos britânicos empenhados e Kempe
                magnânimo. Uma referência absoluta a não perder!)
                [1]: violino, aos 0:00-1:12 (Pairam mistérios no ar...) e 1:13-2:23 (A urgência do
                solista romântico!); violino e trompa, aos 3:28-4:12 (Um uníssono que diz tudo!);
                tutti, aos 5:22-6:29 (A impetuosidade da orquestra romântica!) [youtube]
                [2]: violino, aos 0:00-1:59 e ... (Pertíssimo de qualquer coração...) [youtube],
                [3]: violino e tutti, aos 2:18-3:17 e 4:44-5:38 (Picos do romantismo e ícones
                d"o belo"!) [youtube]






  • Chloë Hanslip
  • London Symphony Orchestra
  • Martyn Brabbins
  • Warner, 0927-45664-2
✿"o belo": (Sonoridade irrepreensível de Hanslip, onde tudo é dito com beleza e
                expressividade. Um tesouro que uma jovem (quinze anos!?) uma vez criou e
                que devemos guardar religiosamente. Sublime e simplesmente a não perder.)
                [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube]






  • Cho-Liang Lin
  • Chicago Symphony Orchestra
  • Leonard Slatkin
  • CBS, MK 42315
✿"o belo": (Uma interpretação como Lin já nos habituou, repleta de sensibilidade e
                paixão. Pureza sonora deslumbrante e acompanhamento dedicado da CSO
                e do mestre Slatkin. Um registo maravilhoso e a ter em conta também.)
                [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube]






  • Midori
  • Berliner Philharmoniker
  • Mariss Jansons
  • Sony, SK 87740
✿"o belo": (Registo ao vivo onde se destaca a exuberância da orquestra alemã e a
                bravura, sentimento e emoção do violino de Midori. Contrastes acentuados
                e sonoridade calorosa. Magnífica escolha.)
                [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube]






  • Shlomo Mintz
  • Chicago Symphony Orchestra
  • Claudio Abbado
  • Deutsche Grammophon, 449 091-2 GGA
✿"o belo": (Visão personalizada e irresistível de Mintz, onde o entusiasmo sobressai.
                Brilho da CSO visível ao longe. Uma proposta de excelência.)
                [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube]






  • Hideko Udagawa
  • London Symphony Orchestra
  • Charles Mackerras
  • Chandos, CHAN 8974
✿"o belo": (Uma performance distintiva, temperamental e apaixonada. Arestas
                bem marcadas e acompanhamento do mestre Mackerras a condizer.
                Uma boa escolha.)
                [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube]






  • Pinchas Zukerman
  • London Philharmonic Orchestra
  • Zubin Mehta
  • RCA, 09026 68046 2
✿"o belo": (Lirismo e romantismo bem equilibrados, o som particular de Zukerman
                e o apoio incondicional do mestre Mehta. Uma escolha de qualidade.)
                [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube]





  
   
✰ Outras sugestões:
  • Pinchas Zukerman/Zubin Mehta/Los Angeles Philharmonic/Sony, SBK 48274 (Performance extrovertida, com extremos bem vincados e onde se sente a mão do mestre Mehta. A ter em conta.), [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube]




  • Nadja Salerno-Sonnenberg/Edo de Waart/Minnesota Orchestra/EMI, CDC 7 49429 2 (Sonoridade equilibrada, violino frágil e atmosfera solene. Prefiro-o urgente, mas um mais sério para desenjoar também faz bem a alguns ouvidos.), [1] [youtube], [2] [youtube], [3] [youtube]




  • David Garrett/Zubin Mehta/The Israel Philharmonic Orchestra/Decca, 4811031 (Sonoridade polida e interpretação ausente de extremismos. Aqui reina a paz. A descobrir.), [1-3] [iTunes], [1-3] [Spotify]






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Max Bruch [1908]





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Química

 Com a minha madrinha, no dia do seu casamento [Casa dos meus avós, Oronhe, Águeda, 19-10-1975]


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quarta-feira, 29 de dezembro de 2021


64. Schumann: sinfonia nº 2 |

A "Sinfonia nº 2" como o retrato do espírito quixotesco de Robert Schumann que nos fala ao coração.






Para os meus padrinhos das encostas do Águeda.
Por ampararem a minha história.






O colapso nervoso ocorrido no Verão de 1844 marcaria para sempre a trágica vida do compositor alemão Robert Schumann (1810 - 1856). Com efeito, este acontecimento traumático estaria na origem dos sérios problemas profissionais e da consequente miséria pessoal que o levariam a decidir mudar de Leipzig para Dresden, cidade a que chegaria em Outubro de 1844 e onde recomeçaria gradualmente a recuperar a saúde, culminando na composição da sua segunda sinfonia entre Dezembro de 1845 e Outubro de 1846 (que em termos cronológicos teria sido, na realidade, a sua terceira sinfonia, uma vez que a obra conhecida hoje como a sua quarta sinfonia teria sido escrita depois da nº 1, "Primavera", tendo sido revista e publicada posteriormente, em 1851, como a sua nº 4; a última sinfonia que escreveria seria realmente a nº 3, "Renana" em 1850).
A estreia desta sua Sinfonia nº 2, em dó maior, op. 61, viria a acontecer a 5 de Novembro de 1846 na mítica Gewandhaus de Leipzig com a direcção de Felix Mendelssohn, o maestro mais famoso daquele tempo, mas sem trazer o sucesso que o compositor esperava. Já algumas semanas mais tarde, porém, a obra receberia uma recepção mais entusiástica numa reapresentação realizada no mesmo local (que continuaria lendário) e pelos mesmos protagonistas (que se manteriam igualmente virtuosos), suspeitando-se, neste caso, que o motivo diferenciador da apreciação original teriam sido as correcções, ou melhor, modificações levadas a cabo pelo autor (...à semelhança do que diria alguns anos antes o igualmente trágico, Antoine de Lavoisier, de que na natureza nada se perderia, tudo se transformaria, entendo igualmente elegante considerar que a genialidade não se corrige... modifica-se), entre as quais se poderiam encontrar a inclusão de três trombones nos primeiro e quarto andamentos. Ora toda a gente sabe, ou pelo menos desconfia, que os trombones nunca são demais para os românticos (os que vivenciam o romantismo, a corrente artística quero dizer...), e teria sido eventualmente também por essa razão, que o número de aplausos teria aparentemente subido nessa segunda audição.
Schumann escreveria esta sinfonia na sombra da fatídica doença mental que por aquela altura já se tornaria evidente após os vários episódios depressivos ocorridos (pressagiando já o final trágico aos 46 anos de idade; por coincidência a minha). De forma consciente, viria a escrever naquela época: "Eu rascunhei-a enquanto tinha ainda muito pouca saúde. De facto, posso dizer que foi a minha resistência mental, da maneira que estava, que teve aqui visível influência, e esta foi a minha maneira de tentar lutar contra a doença". Este relato permite-nos, assim, compreender o contexto biográfico na criação desta obra-prima e as ideias poéticas em que se inspirou, como são o desafio perante a adversidade e a atitude positiva como garante da vitória final.
A obra é composta pelos quatro andamentos tradicionais. Abre [I] com um "coral" nos metais, misterioso e ao mesmo tempo revelador da semente temática a partir da qual toda a sinfonia é desenvolvida, ao qual se segue um Scherzo [II] em cinco partes. O sublime Adagio espressivo [III] surge depois, com a sua melancolia e caracter fortemente emocional; sem dúvida um ícone d"o belo" romantismo. O quarto andamento, Allegro molto vivace [IV], viria a seguir e com ele a força da mensagem de que a vida merece ser vivida em triunfo, representada através do colorido da instrumentação e do final apoteótico.
A razão que levou Schumann a colocar o andamento lento depois do Scherzo não é clara à primeira vista e, no entanto, torna-se decisiva. A batalha do compositor com a sua própria instabilidade mental reflecte-se na música, na escuridão do terceiro andamento como reacção profunda ao incansável e preocupado Robert dos ritmos obsessivos do primeiro andamento e do fervor do segundo, enquanto não chega transfigurada no segundo tema daquela vitória difícil de alcançar, do quarto andamento final. Esta característica serviria ainda de inspiração a outros compositores, levando inclusive Gustav Mahler (admirador confesso das sinfonias de Schumann como se pode constatar nas propostas em baixo) a fazer o mesmo com o Adagietto e o Finale da sua quinta sinfonia.
Incompreensivelmente (pelo menos para mim...), esta sua segunda sinfonia (...a que mais gosto) tornar-se-ia menos conhecida que as restantes três que escreveu, sendo por isso menos vezes apresentada, o que lhe conferiria algum estatuto de "Patinho feio" das sinfonias de Schumann. Talvez tivesse ficado mais conhecida e, também por essa razão, sido mais apreciada (porque, entendo eu, depois de a conhecermos só nos resta apreciá-la... mas, como é claro, sou suspeito nesta afirmação), acaso Schumann se tivesse lembrado também de atribuir um apelido do género "Primavera" ou "Renana"...
A impressão digital de uma história de vida que nos fala ao coração a cada compasso...
...teria seguramente ficado bem como: Sinfonia nº 2, em dó maior, op. 61, "Discursiva".  

   
Nuno Oliveira





"Sinfonia nº 2, em dó maior, op. 61"


✨ Extractos que proponho para audição: (nota: ver também publicação nº 20)
  • Philharmonia Orchestra
  • Christian Thielemann
  • Deutsche Grammophon, 453 482-2 GH
✿"o belo": o 3º andamento, Adagio espressivo, sobressai nesta obra (Visão arrebatadora
                e repleta de expressividade. Este 3º and. destaca-se pela interpretação que todos
                os ícones do romantismo merecem. Glorioso e absolutamente imperdível!),
                com alguns destaques, identificados a seguir;
                [I]: tutti, aos 0:00-1:24 (As "dinâmicas" de um mistério...) [youtube]
                [II]: tutti (Pensamentos irrequietos...) [youtube]
                [III]: "o belo" Adagio espressivo (...e o sublime que é "o belo" dentro d"o belo",
                desenhado pelo mestre Thielemann aos 3:53-5:06 e 8:57-10:08!) [youtube]
                [IV]: tutti (Vitória e apoteose final!) [youtube]






  • Staatskapelle Dresden
  • Wolfgang Sawallisch
  • EMI, CDM 7 69472 2
✿"o belo": (A referência que dominou o catálogo durante anos. Frescura, vigor,
                espontaneidade e sentimento proporcionais ao real significado da música.
                O testemunho do mestre Sawallisch e a excelência dos músicos da Dresden
                de Schumann que não podemos perder.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Symphonie-Orchester des Bayerischen Rundfunks
  • Rafael Kubelik
  • Sony, SBK 48269
✿"o belo": (Vitalidade, brilho e sensibilidade num registo de referência por Kubelik
                e a orquestra bávara, gravado na Hercules-Saal de Munique a 19 de Maio
                de 1979 - uma data que me toca particularmente... De primeira linha e a
                não perder também.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Wiener Philharmoniker
  • Giuseppe Sinopoli
  • Deutsche Grammophon, 459 049-2 GCC
✿"o belo": (A compreensão da obra pelo olhar atento do mestre Sinopoli.
                Expressividade e magnetismo habituais, numa excelente escolha
                a ter em conta.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • Chamber Orchestra of Europe
  • Nikolaus Harnoncourt
  • Teldec, 4509-98320-2
✿"o belo": (Interpretação bem reflectida, com o mestre Harnoncourt a oferecer-nos
                alguns pormenores pessoais deliciosos. Sonoridade doce e madura como a
                COE já nos habituou. Os exageros românticos são poucos, mas mesmo assim
                valem a pena.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]











  • Orchestre des Champs Elysées
  • Philippe Herreweghe
  • Harmonia Mundi, HMC 901555
✿"o belo": (Sonoridade leve e visão discreta, mas com alguns detalhes que nos
                surpreendem. Uma interpretação para os que elegem o lirismo ao
                dramatismo. Escolha de qualidade.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






  • London Philharmonic Orchestra
  • Kurt Masur
  • Teldec, 2292-46446-2
✿"o belo": (Sonoridade exuberante e interpretação directa. Uma boa opção
                para os que preferem uma abordagem mais racional da obra.)
                [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]





  
   
✰ Outras sugestões:
  • Riccardo Chailly/Gewandhausorchester/Decca, 475 8352 DH (Presenças instrumentais e dinâmicas retocadas por Mahler, num manuscrito a descobrir.)  [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]




  • Franz Welser-Möst/The London Philharmonic/EMI, CDC 7 54898 2 (A interpretação de um jovem Welser-Möst no início dos anos 90.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]




  • Neville Marriner/Radio-Sinfonieorchester Stuttgart/Capriccio, 10 094 (O lirismo em destaque numa interpretação entre a Inglaterra e a Alemanha.), [I] [youtube], [II] [youtube], [III] [youtube], [IV] [youtube]






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Robert Schumann [1839]




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Colo e amparo [nos finais dos anos 70]



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